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Dificuldade de comunicação com paciente atrapalha desempenho médico 02/10/2008

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Qualidade de vida, Utilidade pública.
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Profissionais de saúde erram ao avaliar sentimentos de doente. Há grande dificuldade em ser claro sobre doenças como câncer.

Em uma sexta-feira recente, médicos informaram o pai de um amigo meu que ele tinha câncer no pâncreas. Quando recebi a notícia, foi uma grande surpresa. Tinha conhecido o pai do meu amigo, um ativista democrata, alguns meses antes e tivemos uma conversa animada sobre os candidatos. Nada me levou a sentir que um câncer espreitava dentro do corpo daquele homem vibrante. Mas, mesmo se pudesse ter suspeitado, me pergunto se dividiria com ele minha preocupação.

Nas horas seguintes à chegada dos médicos ao quarto de hospital para entregar o relatório patológico final, meu amigo soube a gravidade do caso do pai. Ele sabia que a massa presente no pâncreas do pai era um tumor maligno. E ele sabia disso não porque os médicos no hospital compartilharam com essa suspeita, mas porque eles não conseguiam olhar nos olhos do meu amigo. O diagnóstico estava claro na linguagem corporal dos médicos. “Eu entendo que eles têm de ter certeza antes de dizer qualquer coisa definitiva”, disse depois a esposa do meu amigo, “mas eles tinham sérias suspeitas. Por que ficamos ali dançando ao redor do assunto?”.

Como médica, sei que já evitei os olhares de sondagem de pacientes e familiares. Já me ouvi falando com cuidado e medindo minhas palavras, com medo de que desconfianças prematuras compartilhadas pudessem preocupá-los ou deixá-los furiosos, até mesmo acabando com a esperança deles.

Mas eu não estou sozinha nessa dança evasiva. No entanto, ao tentar proteger os pacientes, médicos podem estar julgando mal os pacientes e as conseqüências de não compartilhar suas suspeitas com eles. Podemos pressupor que pacientes e familiares são mais frágeis do que eles realmente são e que manter nossas suspeitas em segredo irá protegê-los, quando na verdade podemos piorar a situação agindo dessa maneira.

Comunicação

Não importa a nossa especialidade, a comunicação é parte essencial da tarefa do médico. Desde 2002, a Association of American Medical Colleges e o Accreditation Council of Graduate Medical Education fizeram da comunicação interpessoal uma das seis habilidades essenciais ensinadas em faculdades de medicina e residências.

Mas muitos médicos podem ser lamentavelmente evasivos ao falar com seus pacientes. Em um estudo de 2007, por exemplo, pesquisadores monitoraram médicos em consultas simuladas com atores treinados para retratar pacientes com câncer em remissão; os médicos deveriam informar ao paciente que o câncer estava ativo novamente. Menos de 20% dos médicos disseram a palavra “câncer”.

Pesquisas em comunicação não-verbal são ainda mais escassas do que em outras áreas da interação médico-paciente, em parte por causa do desafio de medir e avaliar comportamentos não-verbais e qualidades pessoais como “sensibilidade”. Mesmo assim, pesquisadores sempre acabam descobrindo uma coisa: médicos nem sempre julgam bem as emoções dos pacientes. Na verdade, podemos ser péssimos em termos de captar emoções como preocupação, raiva e decepção.

Em outro estudo, pesquisadores selecionaram um grupo de pacientes que haviam acabado de visitar seus médicos e pediram para qualificar o quanto eles estavam satisfeitos, contentes, aliviados, preocupados, irritados e decepcionados. Os pesquisadores também perguntaram aos pacientes sobre sua satisfação geral com a visita e a qualidade da comunicação. Os pesquisadores pediram aos médicos que adivinhassem as respostas dos pacientes nessas questões.

Sem noção

Os resultados? Os médicos continuamente acreditavam que seus pacientes estavam passando por mais raiva, preocupação e decepção do que o que os pacientes realmente informaram. Os médicos também acreditavam que seus pacientes estavam menos satisfeitos tanto com a visita quanto com a comunicação em geral do que eles realmente estavam.

Em uma profissão onde o indivíduo tem de estar sempre alerta para sinais de doenças ou fraquezas, talvez essa descoberta não seja tão surpreendente. Pode ser um acaso profissional sempre supor o pior. Ainda assim, até quando os médicos estão tentando fazer o melhor para minimizar o impacto de más notícias, ainda podemos piorar as coisas.

Estudos mostraram sistematicamente que habilidades de comunicação eficaz podem ser aprendidas. Por exemplo, no estudo no qual menos de 20% dos médicos usaram a palavra “câncer”, os mesmos médicos, após uma oficina intensiva de quatro dias sobre habilidades de comunicação, tiverem desempenho substancialmente melhor na comunicação interpessoal. Mais da metade pôde então dizer a palavra “câncer” na interação com pacientes.

O pai do meu amigo e seus familiares ficaram arrasados em saber que ele realmente tinha câncer no pâncreas. Nas semanas seguintes, eu vi a família se adaptar a essa notícia, mas fico pensando: quem, afinal de contas, os médicos estavam tentando proteger? Talvez nosso primeiro passo em direção à melhoria na comunicação seja reconhecer que nossos pacientes podem ser muito mais resistentes do que nós.

Fonte: G1

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