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Parte ‘boa’ da maconha controla fobia e psicose 02/09/2008

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Utilidade pública.
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O canabidiol, nome de uma substância isolada da maconha (cannabis sativa) demonstrou funcionar eficientemente no controle da ansiedade em geral e da ansiedade patológica, tanto em animais como em seres humanos. A informação foi confirmada pelo grupo de pesquisadores da USP de Ribeirão Preto, que lidera mundialmente as investigações com o uso medicinal do canabidiol em transtornos psiquiátricos. A mesma substância demonstrou controlar também distúrbios psicóticos.

O canabidiol, que tem efeito neuroprotetor e antioxidante, parece ter potencial de ajudar no tratamento de doenças degenerativas. Mas não funcionou em pacientes com sintomas do transtorno bipolar, doença antigamente denominada como psicose maníaco-depressiva (PMD). Em animais, demonstrou efeitos antidepressivos e anticonvulsivantes.

Com o uso da ressonância magnética funcional e tomografia por emissão de pósitrom, sofisticadas técnicas de neuroimagem, foi possível saber que o canabidiol age no cérebro nas mesmas áreas ligadas ao processamento emocional, fato desconhecido da literatura médica até 2004.

– A substância “boa” da planta (canabidiol) é justamente a que não dá o chamado “barato”. Por outro lado, o THC, que provoca efeitos psicoativos, como sedação e euforia, pode levar pessoas com problemas psiquiátricos a quadros agudos de psicose e de ansiedade – alerta o professor José Alexandre de Souza Crippa, do departamento de Neurologia, Psiquiatria e Psicologia Médica a Faculdade de Medicina da USP, de Ribeirão Preto. Ele está lançando livro em co-autoria com o chefe do mesmo departamento, Antônio Waldo Zuardi, professor titular de psiquiatria, e com o professor Francisco Silveira Guimarães, titular do Departamento de Farmacologia, também da USP de Ribeirão Preto, contando a experiência científica do grupo até agora: “Cannabis e a Saúde Mental: uma revisão sobre a Droga de Abuso e o Medicamento”, pela editora FUNPEC. A obra é a primeira no País que aborda pesquisas associando a maconha com saúde mental e traz também artigos de 34 cientistas de universidades nacionais e estrangeiras.

O livro será lançado em duas datas: no exterior, dia 4 de setembro, em congresso internacional de Barcelona, na Espanha, e no Brasil dia 15 de outubro, em Brasília, durante o Congresso Brasileiro de Psiquiatria. O lançamento em Ribeirão Preto ocorrerá em breve, em data a ser definida.

Agente ‘do bem’ poderá substituir remédios contra ansiedade
José Alexandre de Souza Crippa é professor do departamento de Psiquiatria e Coordenador do serviço de Interconsulta em Saúde Mental do HC da FMRP-USP e do Grupo de Estudo e Pesquisa em Ansiedade Social. Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Paraná, se doutorou em Saúde Mental pela USP e fez pós-doutorado no Instituto de Psiquiatria de Londres. Preocupado em deixar claro que o uso da maconha pode fazer mal à saúde em pessoas vulneráveis, se entusiasma com a possibilidade futura de utilizar o canabidiol no tratamento de várias doenças.

– O problema com a maconha é o THC – tetrahidrocanabinol- responsável pela dependência. As pessoas não fumam maconha por causa do canabidiol que é um agente com efeito oposto, que atua no sistema cerebral batizado de endocanabinóide. Ele não induz a nenhuma “viagem”. Nossa perspectiva é de que um dia esse composto da maconha possa ser uma alternativa aos medicamentos benzodiazepínicos (como diazepam, lorazepam, etc) contra a ansiedade.

Eficiência
Crippa considera eficientes os medicamentos em uso para controlar a ansiedade, só que eles podem induzir à dependência depois de alguns meses, além de sedação e tolerância. O que parece que não é o caso do canabidiol: a substância mostrou que não causa dependência, não induz tolerância, nem tem maiores efeitos colaterais. Outra esperança é empregar o canabidiol no lugar dos antidepressivos usados também para tratar o transtorno de ansiedade social, muito confundido com a timidez, mas que atrapalha a pessoa de se relacionar socialmente.

– A vantagem do canabidiol é que faz efeito imediato, enquanto os antidepressivos demoram de 15 a 20 dias para apresentar os primeiros efeitos – observa.

O canabidiol demonstrou em um estudo em parceria com o professor Vitor Tumas, da Neurologia da USP de Ribeirão Preto, que pode reduzir alguns sintomas desconfortáveis produzidos pelo medicamento usado no tratamento do mal de Parkinson e os próprios tremores da doença.

É uma certeza científica: parte ‘má’ da maconha provoca dependência
RUBENS ZAIDAN/ESPECIAL

O professor José Alexandre Crippa explica: hoje a quantidade de THC presente na maconha é muito maior que era há anos:

– E o consumo da maconha de forma geral, pode induzir doenças graves como esquizofrenia ou transtorno de pânico em pessoas com uma vulnerabilidade específica – alerta. O risco maior, acentua, é das pessoas que têm ou que apresentam familiares com transtornos psiquiátricos.

Conta que foi observado que em uma região na África do Sul, algumas pessoas apresentam quadros psicóticos, depois de fumar maconha.

– Foram avaliar as amostras de maconha daquela região e verificaram que não tinha praticamente nada de canabidiol. Talvez o canabidiol proteja contra o desenvolvimento de doenças psiquiátricas.

Foi descoberto na década de 90 que o ser humano tem um sistema endocanabinóide. Ou seja: temos receptores no cérebro nos quais o THC e substâncias endógenas se ligam. Estas parecem modular a dor, inflamação e os quadros de ansiedade. A hipótese é de que a psicose também esteja ligada a esse sistema – diz Crippa.

Áreas cerebrais ativadas
Na maconha existem mais de 400 substâncias diferentes, das quais 60 (denominadas canabinóides) atuam sobre o sistema nervoso central. Entre elas o THC e o canabidiol.

– Até 2004 não se sabia em que local o canabidiol atuava no cérebro. Em Ribeirão Preto, utilizando uma técnica de neuroimagem funcional, que avalia o fluxo sangüíneo cerebral, verificamos que o canabidiol ativa as áreas límbicas e paralímbicas, ligadas ao humor e às emoções – conta Crippa.

Já na Inglaterra o pesquisador passou a utilizar a técnica de ressonância magnética, específica para obter informações funcionais cerebrais dos voluntários que recebiam – sem saber o que estavam consumindo – canabidiol, placebo e THC (que não foi utilizada no Brasil).

– Constatamos que o canabidiol atua nas mesmas áreas verificadas aqui e que o THC em outras regiões cerebrais. Algumas pessoas desenvolveram quadros psicóticos tomando 10 miligramas de THC via oral durante o estudo e depois melhoraram. Já os que recebiam canabidiol ficaram mais tranqüilos – conta Crippa.

Ansiedade patológica
De volta ao Brasil, a idéia era testar o canabidiol em um transtorno de ansiedade. A escolha foi em pessoas com o transtorno de ansiedade social, também conhecido como fobia social, que acomete de 10 a 15% da população.

– São pessoas que ficam muito ansiosas para fazer uma pergunta numa aula, que tem dificuldade em falar em público e ficam muito ansiosas quando tem que realizar alguma atividade diante de outras pessoas. Testamos em 10 pessoas com fobia social e verificamos que o canabidiol diminuiu a ansiedade – revela, acrescentando que o estudo é mais amplo, junto com pesquisadores de Barcelona, Londres e da USP de São Paulo.

Pesquisa começa com Zuardi na Universidade Federal de SP
O canabidiol foi isolado em 1963, na Universidade de Israel por Raphael Mechoulam, que no ano seguinte descobriu o THC, a substância que provoca sedação e euforia, com grandes efeitos nocivos. Depois o canabidiol ficou esquecido por muitos anos. As pesquisas no Brasil começaram há mais de 30 anos nos laboratórios do professor Elisaldo Carlini da Unifesp – Universidade Federal de São Paulo. Os primeiros testes foram em epilepsia.

Antônio Waldo Zuardi, realizou as primeiras experiências com o canabidiol entre 1976 e 1980 durante seu doutorado em psicobiologia no laboratório do professor Carlini, sob orientação do professor Isaac Karniol. Nesse período encontrou as primeiras indicações de efeitos ansiolíticos e antipsicóticos da substância, fato responsável pela seqüência de pesquisas nos anos 80 e 90.

Com base num estudo do professor Antônio Waldo Zuardi, de 1982, por exemplo, o laboratório inglês GW desenvolveu uma medicação denominada Sativex, um spray que tem a associação equillibrada do THC com canabidiol, já vendido no Canadá para pacientes com esclerose múltipla, neuropatias crônicas e fibromialgia. Esse tipo de medicação ainda não foi aprovado nos Estados Unidos e Inglaterra.

– Colocaram um pouco de canabidiol e verificaram que a pessoa poderia ter os benefícios do THC sem apresentar os efeitos subjetivos deste, como prejuízo da atenção, memória e orientação, além de prevenir a indução de crises de psicose e ansiedade – explica o professor Crippa.

Ansiedade e esquizofrenia
O professor de Farmacologia, Francisco Silveira Guimarães, testou o efeito ansiolítico do canabidiol em camundongos e verificou efeito similar ao dos benzodiazepínicos usados contra ansiedade.

Estudos iniciais em pacientes com esquizofrenia em 1995, feitos pelo professor Zuardi, mostraram indícios promissores do canabidiol em controlar os sintomas dessa doença, mas ainda foram incompletos. O grupo dirigido pelo professor Markus Leweke, da Universidade de Köin, da Alemanha, concluiu as pesquisas com pacientes esquizofrênicos, iniciadas em Ribeirão Preto.

– Com um número bem maior de pacientes, o grupo alemão demonstrou que o canabidiol apresentou uma eficácia tão grande quanto a amilsulprida, um antipsicótico muito usado pelos psiquiatras, porém o canabidiol demonstrou menos efeitos adversos – informa o especialista.

Em modelos animais, segundo Crippa, foi demonstrado que o canabidiol melhora os sintomas depressivos e tem efeito anticonvulsivante, etapas que ainda precisam ser mais testadas no ser humano.

– E com uma parceria nossa com grupos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, mostramos que essa substância tem um efeito neuroprotetor e antioxidante, podendo eventualmente funcionar, no futuro, contra as doenças degenerativas.

Amostras modificadas
As pesquisas no campus da USP de Ribeirão Preto são feitas com o canabidiol extraído da planta cannabis sativa. Dois laboratórios – um da Alemanha e outro da Inglaterra – fornecem esta substância.

– Para se conseguir um pouco de canabidiol é preciso uma grande quantidade de planta. Essas empresas trabalham com amostras modificadas geneticamente com maior quantidade de canabidiol do que de THC – conta o professor Crippa, revelando que o custo das pesquisas é caro. Para que não haja interrupção, os estudos são financiados por agências brasileiras e do exterior.

Fonte: Jornal A Cidade

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