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Pequenas doses de cerveja, vinho e outras bebidas alcóolicas fazem bem para a saúde 25/07/2008

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Utilidade pública.
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Álcool: no limite entre o bem e o mal
A ciência comprova: pequenas doses de bebida alcoólica podem barrar inflamações, proteger o coração e livrar o fígado do acúmulo de gordura. Na contramão, uns goles a mais continuam sendo o mau hábito que lança o corpo ao abismo

Ele já estava havia muito tempo com a corda no pescoço. Álcool é seu nome de guerra e, desde os primórdios, tornou-se um fiel companheiro do homem — na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. A amizade, porém, logo foi cercada de suspeitas. Afinal, o ser humano percebeu que, se alguns tragos o conduziam às nuvens, afogar-se no vinho ou em qualquer outra bebida o levava facilmente à ruína. Na berlinda, o álcool que não costuma faltar às festas é o mesmo que tantas vezes foi condenado à forca.

Ironicamente, em tempos de lei seca, a condição 100% marginal da bebida vem sendo questionada pela própria ciência. Não pense, por favor, em uma campanha pela sua absolvição ampla e irrestrita — muito menos ao volante. O fato é que os pesquisadores constatam, depois de experiências sérias, que saborear uma taça de vinho ou refrescar-se com um copo de cerveja — sem perder o controle — pode ser uma boa pedida para quem deseja fazer um brinde à preservação do organismo.

Se deixarmos a hipocrisia de lado, podemos degustar as recentes descobertas sobre o protagonista desta reportagem. Antes de revelá-las, pedimos ao leitor que segure por algumas linhas a sede e preste atenção no recado de Denise De Micheli, professora do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp: “Uma pequena dose de álcool não é prejudicial, desde que não haja gravidez nem problemas como o diabete e doenças do coração”. Dado o aviso, vamos bebericar as novidades.

A primeira delas, acredite, se destina ao fígado. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, concluíram: uma taça de vinho por dia impede o depósito de gordura na glândula. E a gordura, como se sabe, limita sua função — um fenômeno que os médicos chamam de esteatose. “Notamos o benefício com o vinho tinto e com o branco”, conta o líder da investigação, Jeffrey Schwimmer.

Outra notícia que inocenta doses modestas de álcool vem da Suécia. Uma equipe do Instituto Karolinska verificou, depois de acompanhar quase 3 mil pessoas, que a ingestão de álcool reduz o risco de artrite reumatóide, uma inflamação constante nas juntas. Para fechar a rodada, novos trabalhos sugerem que um pouco de etanol, ou álcool etílico — assim ele é conhecido no meio científico —, propicia uma proteção cardiovascular. Dois cálices de vinho diariamente seriam suficientes para levantar o astral das artérias. Clique aqui e leia mais sobre esses benefícios.

Se as benesses de uma dose ou outra de cerveja ou cachaça ainda carecem de explicações precisas e consensuais, ao menos os pesquisadores já desbravaram a rota do álcool pelo corpo. Depois de passar pelo estômago e pelo intestino, ele é absorvido, caindo na corrente sangüínea. Daí aporta no fígado, onde é metabolizado. “Ou seja, graças à ação de enzimas, ele se transforma em outros compostos para que o organismo o elimine”, traduz Regina Lúcia Moreau, professora de toxicologia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo.

Dentro do corpo, o etanol muda de nome e de fórmula. Primeiro, ele vira acetaldeído — substância tóxica que provoca alguns sinais indesejados do porre, como náuseas. Em seguida, torna-se acetato. Por fim, após incontáveis reações químicas, converte-se em água e gás carbônico, saindo do corpo pela urina, pelo suor e até pela respiração. “No caso de uma pessoa de 70 quilos, uma lata de cerveja demora de uma a uma hora e meia para ser totalmente metabolizada”, calcula Regina. Nessa viagem, cada grama de álcool produz 7 calorias. “Mas são calorias vazias, porque o álcool em si não fornece nutrientes”.

A questão do limite

Como você já deve imaginar, o perigo é promover uma enchente etílica no organismo. Mas qual seria o limite para fisgar apenas o seu bem-estar? Qual a dose ideal para fazer a saúde fluir mas evitar que o rio transborde? A resposta é relativa. Embora a própria OMS, como demonstrado no complemento “Qual a dose certa?”, defina uma quantidade máxima por dia, os médicos fazem ponderações sobre tal recomendação. “É arriscado afirmar que essas medidas valem para todas as pessoas”, ressalva o psiquiatra Danilo Baltieri, coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Hospital das Clínicas de São Paulo. Ora, cada um reage de um jeito à bebida. Tudo depende, por exemplo, do peso do indivíduo e da sua capacidade de processar o álcool.

Não existe, assim, um conceito claro e objetivo do que é beber com moderação. De acordo com Denise De Micheli, cada um define por moderação aquilo que lhe convém ou que, baseado na própria experiência, não lhe faz mal. Aliás, se a própria vida ensina o limite para o álcool — e isso não significa que se deve parar apenas quando a tontura ou o êxtase se anunciarem —, há certos conselhos para aliar destilados ou fermentados a uma saúde em ordem. Vamos lá: beba pouco, devagar, e sempre de barriga cheia. E nunca coloque a bebida como prioridade.

Talvez você questione se um executivo que pede a companhia de um copo de uísque toda noite já entraria no time dos dependentes. A princípio, não. “O problema é quando ele vai ao teatro e precisa antes passar em casa só para beber”, exemplifica Analice Gigliotti, presidenta da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas, no Rio de Janeiro. Ou, então, aumenta a dose num dia tenso para enfrentá-lo. Daí, sim, dá para dizer que esse homem entra no grupo de risco. E então, amparado por garrafas, pode abandonar a família, o trabalho e outros prazeres. Sua vida se resumirá a um verbo: beber.

O álcool é o que os estudiosos de literatura classificariam como personagem esférica, isto é, aquela que surpreende ou muda de lado no meio da história. E essa reviravolta se manifesta na vida dos que lhe concedem lugar de destaque — e não nos referimos apenas aos alcoólatras. Qualquer pessoa que exagere nos finais de semana pode descobrir nos copos ilimitados um inimigo. Não bastassem episódios constrangedores, brigas e acidentes de trânsito, o álcool responde por uma cascata de doenças. E o pior: os benefícios apontados no início desta reportagem se evaporam e cedem espaço a reações completamente opostas.

Se uma taça de vinho ajuda o fígado a emagrecer, uma garrafa todos os dias deixa a glândula vulnerável à cirrose. “O excesso de álcool destrói suas células, gerando inflamações e cicatrizes. Com o tempo, o fígado vai à falência”, explica a hepatologista Helma Cotrim. O mesmo raciocínio se aplica ao sistema cardiovascular. Se dois cálices diários do mesmo vinho relaxam os vasos, algo além disso provoca forte contração. “É uma espécie de efeito rebote”, resume o cardiologista Flavio Fuchs. Segundo trabalhos recentes, mais de três doses por dia já podem levar à hipertensão. “Os riscos ainda são mais consistentes do que os benefícios”, opina Fuchs.

Na cabeça, as dores que aparecem durante a ressaca não são nada comparadas aos efeitos do abuso diário a longo prazo. Baldes etílicos despertam no próprio cérebro a necessidade de pedir cada vez mais bebida. Ao mesmo tempo, uma série de reações implode aos poucos a massa cinzenta. “O exagero provoca a morte de neurônios, prejudicando o equilíbrio, os movimentos, a memória e o raciocínio”, diz o neurologista Gerson Chadi, da Universidade de São Paulo.

E a devastação celular não pára por aí. O consumo desenfreado de bebidas alcoólicas está intimamente ligado ao aparecimento de tumores. Você se lembra do acetaldeído, o segundo estágio do álcool em sua passagem pelo organismo? Pois essa substância tóxica predispõe regiões como a boca, a garganta e o estômago a um câncer. “Também é provável que a bebida aja como um solvente nas mucosas, permitindo que outros agentes carcinogênicos, como o tabaco, atuem”, afirma o oncologista Luiz Paulo Kowalski, diretor do Departamento de Cabeça e Pescoço do Hospital A.C. Camargo, em São Paulo. “O uso crônico de aguardente, por exemplo, aumenta principalmente o risco de um tumor na boca”.

A lista de problemas derivados do excesso de álcool poderia estender- se por páginas e páginas. Mas paramos por aqui com o intuito de enfatizar que só se tira proveito de um bom vinho, do saquê de um restaurante japonês ou de um elegante dry martini como o da capa de SAÚDE! quando se bebe pouco. E, se é verdade que pairam dúvidas sobre o limite de cada um, também é certo que, se houvesse um modo de medir a dose precisa para cada pessoa — e essa quantidade fosse respeitada —, destilados ou fermentados se transformariam em apreciáveis antídotos para uma série de males do dia-a-dia.

Goles protetores

Confira a trinca de benefícios que um pouco de álcool só um pouco mesmo, olha lá pode oferecer ao organismo

Fígado em forma
Uma taça de vinho todo dia brecaria o acúmulo de gordura na glândula, o que os médicos chamam de esteatose não alcoólica. O efeito positivo surgiria, de acordo com cientistas americanos, do casamento entre o álcool e os ingredientes antioxidantes da uva. É possível que as baixas doses ajudem a diminuir a resistência à insulina, o que contribuiria para evitar o depósito gorduroso no órgão, opina a hepatologista Helma Cotrim, da Universidade Federal da Bahia.

Juntas menos inflamadas
Foi em terra escandinava que se identificou este novo potencial: minimizar o risco de artrite reumatóide. Nessa doença auto-imune, o sistema de defesa passa a atacar as articulações dos dedos, dos joelhos ou dos cotovelos. Daí são instaurados processos inflamatórios que tornam as juntas mais rígidas e doloridas. E onde o álcool entra nessa história? Acreditamos que ele impeça as células imunológicas de ser tão agressivas contra o próprio corpo, responde o pesquisador sueco Henrik Källberg.

Vasos relaxados
Há muito o álcool ganhou fama por sua ação vasodilatadora. Os cientistas, agora, buscam entender por que pequenas doses favorecem o relaxamento dos vasos, abrindo caminho para a passagem do sangue. Segundo o cardiologista Flavio Fuchs, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, já foram elencadas diversas explicações. Cogita-se que a bebida estimule o corpo a produzir óxido nítrico, uma substância que aumenta o calibre das artérias, e a diminuir a concentração de endotelina, um composto que influencia a contração dos vasos. Por fim, o álcool afastaria as moléculas do mau colesterol das paredes das artérias.

Sexo frágil
No embate dos copos,as damas são realmente mais fracas e a constatação vai além da sabedoria popular. A ciência não só a endossa como explica o motivo. As mulheres apresentam uma menor quantidade de enzimas envolvidas no metabolismo do álcool, afirma a farmacêutica Regina Lúcia Moreau, da Universidade de São Paulo. Além disso, o corpo delas comporta menos água, o que também influencia na capacidade de assimilar e eliminar as bebidas. Não à toa, o time feminino sente mais rápida e intensamente os efeitos de um copo de caipirinha, por exemplo desde a desinibição que acompanha os primeiros goles até a sensação depressiva que precede o fim da festa. E, por isso, são mais suscetíveis às reações das doses além da conta, como embriaguez, enjôo e dor de cabeça.

Jovens bebedores
Cai a noite e os bares próximos a colégios e faculdades já estão abarrotados de estudantes. Cena rotineira em qualquer cidade do país e que desperta preocupação. Ainda mais porque levantamentos conduzidos recentemente pela Universidade Federal de São Paulo mostram que os adolescentes bebem cada vez mais cedo e, por incrível que pareça, as meninas já estão superando a rapaziada. É preciso aumentar a fiscalização, já que hoje qualquer criança tem acesso fácil à bebida, opina Denise De Micheli, da Unifesp. Além do controle da venda, devem ser proibidos as propagandas e os patrocínios a eventos culturais e esportivos para os jovens, completa a psiquiatra Analice Gigliotti. Não seria moralismo é questão de saúde. O corpo de um adolescente lida pior com o álcool. O consumo freqüente pode interferir no seu desenvolvimento cognitivo, adverte Denise De Micheli.

Uns goles depois dos45
Um estudo da Universidade da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, com quase 8 mil voluntários de 45 a 64 anos, constatou: homens e mulheres saudáveis que incluem de uma a duas doses de alguma bebida alcoólica no cardápio sofrem menos problemas cardiovasculares. Há, no entanto, certas objeções ao resultado. Ora, é geralmente depois dos 45 que aparecem doenças como o diabete e a hipertensão, que precisam ser controlados com remédios. Estes, por sua vez, não combinam nem um pouco com álcool. Ou seja, a recomendação não vale nesses casos de doença. Para o resto, pode até ser… Desde que também o drinque não seja acompanhado do cigarro e de petiscos extremamente gordurosos típicos de happy hours aí, é claro, também não haverá benefício.

A dose certa?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estipula um limite de consumo diário de álcool para quem não quer tornar-se refém da bebida. Esses valores não valem para grávidas, diabéticos, hipertensos e pessoas sob qualquer medicamento.

Fonte: Revista Saúde é Vital – agosto de 2008

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