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Blogs ajudam a tratar doenças de todo tipo – de obesidade e diabete a esclerose múltipla 18/07/2008

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Qualidade de vida.
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Escrever ajuda a tratar

O antigo hábito de registrar em um diário os acontecimentos cotidianos ganha nova força com a internet e se mostra uma excelente terapia para quem quer (e precisa) descarregar emoções reprimidas

A fonoaudióloga Maria Isabel Gandolfi Donadi, de 31 anos, de São Paulo, tomou uma das decisões mais importantes da sua vida no começo deste ano. Cansada de recorrer sem sucesso às mais variadas fórmulas para emagrecer, resolveu submeter-se a uma cirurgia de redução de estômago. Ela estava bastante segura do que queria. Afinal, conhecia bem os riscos que correria caso continuasse com mais de 90 quilos, um peso perigoso para quem, como ela, já tinha hipertensão, esporões nos calcanhares e desgastes articulares pronunciados nos joelhos. Porém, a menos de um mês da operação, a candidata a magra, tomada por um incontrolável medo de morrer na sala de cirurgia, vacilou. Quase desisti de tudo, conta.

Naquele momento, quando parecia que o chão lhe escapava, Maria Isabel encontrou uma maneira pouco convencional mas cada vez mais comum de recobrar o equilíbrio emocional e não perder o prumo: criou um blog. Ao escrever, consegui organizar melhor as idéias. Também pude desabafar, expressando minhas angústias em palavras. Daí me senti aliviada, conta a moça, que garante ter encontrado no tal blog a grande ajuda para entrar na faca. Dias após a cirurgia, lá estava ela de novo diante da tela, compartilhando com os amigos do mundo virtual a difícil recuperação.

A versão digital dos antigos diários tornou-se uma mania na internet e inúmeras pessoas já usufruem de seus benefícios, inclusive os terapêuticos. Embora falte literatura científica sobre o assunto, os especialistas admitem que a escrita possa contribuir direta ou indiretamente para o tratamento de doenças, físicas e psíquicas. O hábito de escrever alivia o estresse de pacientes com câncer, atesta a psico-oncologista Luciana Holtz, de São Paulo. Além dos blogs, a internet é pródiga em comunidades formadas por portadores de uma mesma doença, que funcionam como grupos de apoio virtuais alimentados por depoimentos em forma de texto. Segundo a terapeuta, o distanciamento proporcionado pela escrita contribui para a coesão desses grupos, que certamente se desfariam diante da morte de um integrante, por exemplo, caso fossem presenciais.

A escritora e psicóloga Sonia Belloto, de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, é uma entusiasta dos blogs e comunidades da internet. O texto é um amigo disponível a qualquer hora, comenta. Ele nos obriga a pensar, ajuda a refletir e, por ser uma atividade solitária, favorece o autoconhecimento. Além disso, ativa a memória e funciona como uma espécie de academia para o cérebro ao facilitar a liberação de dopamina, um neurotransmissor que estimula o sistema nervoso e contribui para a saúde do corpo.

O psicólogo italiano Luigi Solano, professor de psicossomática da Universidade La Sapienza, em Roma, ressalta que a escrita em si não cura, mas pode trazer, sim, benefícios à saúde. Ele costuma aplicar nos pacientes uma técnica de registro escrito com resultados surpreendentes. Observei redução no uso de serviços médicos, melhora na resposta imunológica em casos de asma e artrite reumatóide, diminuição da depressão pós-parto, controle glicêmico mais eficiente em diabéticos, aumento da resistência a infecções oportunistas em pacientes com aids e redução do tempo de recuperação pós-cirúrgica, enumera. Solano, no entanto, faz questão de frisar a importância de que esses relatos escritos tenham acompanhamento profissional. O psicólogo acredita que as memórias traumáticas permaneçam no cérebro como um corpo estranho, produzindo algo que se poderia comparar com toxinas. Elaborar o texto ajuda a diluir essas experiências negativas, garante.

O psiquiatra Geraldo Possendoro, professor da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp, concorda que esse ato intimista alivia a ansiedade, mas tem uma visão mais pragmática do assunto. Ele encara o papel e a tela do computador como extensões da memória. O auto-registro é um método consagrado pela terapia cognitivo-comportamental, que ajuda o terapeuta a identificar as causas de um trauma psíquico, explica o médico. Ou seja, o relato escrito do paciente nos permite identificar os gatilhos das crises nervosas, já que há ali detalhes que poderiam ser esquecidos.

Por fim, vale lembrar a coletânea de poemas intitulada O Lado Fatal, em que a autora, a gaúcha Lya Luft, relata uma grande dor: a morte de seu segundo marido, o também escritor Hélio Pellegrino.

Tive uma catarse e escrevi 17 poemas em uma única tarde. É uma obra sui generis. Não é arte, mas sim um desabafo, declara. O livro diz ela a ajudou a organizar seus pensamentos. A base da análise é a palavra. Quando nomeamos os fantasmas, eles deixam de existir. E, enquanto escrevemos, vamos reparando os danos provocados pelos traumas.

A FEBRE DOS BLOGS
A eclosão de comunidades virtuais voltadas para a área de saúde representa uma tendência irrefreável. Prova disso é o sucesso do site americano Patients Like Me, uma espécie de Orkut de pacientes, que congrega milhares de pessoas em torno de doenças específicas. É o caso de Humberto Macedo, que mora em Brasília, no Distrito Federal, e é portador de esclerose lateral amiotrófica (ELA), o mesmo distúrbio do físico inglês Stephen Hawking. Ele é um dos mais engajados membros de uma comunidade do site que investiga o potencial do tratamento com lítio usado originalmente para a depressão.

Fonte: Revista Saúde é Vital – agosto de 2008

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