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Pacientes checos pagam US$1,80 por consulta médica – e acham caro 10/06/2008

Posted by Esclerose Múltipla in Você sabia?.
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População acredita que assistência médica deve ser gratuita, como na época comunista. Número de consultas em todo o país caiu depois da adoção de taxas.

Na República Checa, você pode fazer uma consulta médica por cerca de $1,85 dólares. Um dia no hospital pode chegar a custar $4 dólares. Mas isso não é motivo para comemorar.

Para os checos, que freqüentam consultórios médicos mais vezes do que qualquer outro país europeu, isso levou a uma enorme revolta. Na verdade, a idéia de cobrar qualquer quantia por assistência médica pode gerar enorme controvérsias, sem mencionar mudanças abruptas nas políticas de saúde pública na República Checa e em outros países da Europa.

Na Hungria, as taxas de assistência médica foram derrubadas após um referendo nacional no mês de março, que resultou na demissão do Ministro da Saúde. Na República Checa, que começou a impor taxas modestas no começo do ano, o próprio Primeiro Ministro foi forçado perante a corte constitucional em Brunn a depor, enquanto a corte avaliava derrubar as taxas. No mês passado, a corte determinou que o governo tem o direito de cobrar taxas de pacientes que usam o sistema de assistência médica.

Países ricos e pobres lutam para descobrir a melhor forma de oferecer assistência médica acessível a seus cidadãos, sem ir à falência. Em lugares como a República Checa, há um sentimento de traição, porque o governo há muito tempo cuida da saúde, mas também um medo justificável pelos anos recentes de mudança e crescimento. Até mesmo em Praga, conhecida como a cidade dourada, a nova riqueza – e o aumento da expectativa por serviços de alto padrão – significou apenas preços mais altos para aquela população dependente de salários baixos e pensões fixas.

“Tenho que economizar para ter dinheiro para comer”, disse Kveta Lachoutova, 78 anos, uma viúva aposentada. Em uma entrevista na sala de espera do consultório médico, ela afirmou estar tentando viver com uma pensão de cerca de US$ 600, gastando cerca de US$ 400 em aluguel e serviços como água e luz. “Não compro nada mais”.

Para pessoas saudáveis e empregadas, as taxas representam praticamente um trocado, pagas com as mesmas moedas de 10 ou 20 coroas usadas para comprar um bilhete de bondes elétricos em Praga (1 dólar vale cerca de 16 coroas). Checos abastados admitem secretamente que gastam muito mais em cuidados veterinários para seus bichos de estimação do que com sua própria assistência médica, mesmo tendo que bancar alguns medicamentos.

No entanto, muitos checos vêem como uma questão de princípio o fato de que a assistência médica deveria ser gratuita – apesar de que o sistema de saúde é financiado em parte por deduções de imposto de renda. Além disso, os checos têm um forte senso de solidariedade com os mais pobres.

Sob o regime comunista, a assistência médica era gratuita, mas até certo ponto. Suborno para obter melhores condições de tratamento era uma prática comum e ainda pode ser um problema, particularmente na Hungria, onde ainda continua vigente.

A região tem sido um laboratório para reformas na assistência médica nos últimos anos. O esforço foi liderado por defensores do livre-mercado da próspera Eslováquia, que se beneficia de taxas de imposto uniformes para todos os cidadãos e um crescimento econômico bastante acelerado, na casa dos 10% no ano passado.

A Eslováquia introduziu pagamentos modestos para consultas médicas e diárias hospitalares em 2003. Mas, como aconteceria mais tarde na Hungria, as taxas não duraram muito. O governo de esquerda que chegou ao poder em 2006 as eliminou naquele mesmo ano, apenas alguns meses depois de tomar posse.

“O que queremos alcançar no sistema de saúde é uma responsabilidade individual maior, fazendo com que os consumidores sejam mais responsáveis pelo que consomem”, disse Peter Pazitny, diretor-executivo e um dos sócios fundadores do Instituto de Políticas de Saúde na Bratislava, antes o principal conselheiro do Ministro da Saúde da Eslováquia.

A necessidade de uma reforma na região é evidente, disse Pazitny. Estatísticas da Organização pela Cooperação e Desenvolvimento Econômico demonstram que os sistemas de saúde da República Checa, da Eslováquia e da Hungria estão entre os piores de todos os países membros em relação à expectativa de vida e à taxa de mortalidade para derrames, doenças cardíacas e câncer.

O governo checo foi receptivo às recomendações do Instituto de Política de Saúde e até emprega outro colega de Pazitny em Praga. Mas os membros da oposição preferem que o antigo compatriota os deixe em paz – e também o sistema de saúde pública.

“Eu entenderia se os rapazes eslovacos fizessem recomendações como se fosse um trabalho de faculdade, mas aqui eles estão introduzindo essas coisas na vida real”, disse Michal Hasek, líder da convenção partidária Social Democrata, o maior partido de oposição no Parlamento.

A constituição checa afirma que “cidadãos têm direito, através do seguro público de saúde, a assistência médica gratuita nas condições definidas por lei”. Os novos pagamentos não só são inconstitucionais, segundo Hasek, mas também têm causado sofrimento real em alguns segmentos da população. A oposição e a mídia local transformaram a imagem de bebês prematuros em incubadoras, cujos pais devem pagar os custos hospitalares, em símbolos do novo sistema.

Especialistas discordam na questão de que taxas pagas para consultas médicas são uma boa idéia, sob a ótica da saúde pública, e até questionam se elas representam grandes economias para o sistema de saúde em geral. “Serviços mais caros e desnecessários não são exigidos pelos pacientes, mas sugeridos pelos médicos somente para gerar mais receita para eles”, afirmou Peter Gaal, professor de políticas de saúde na Universidade Semmelweis em Budapest.

As taxas daqui, $1,85 dólares por uma prescrição e consulta médica, e $4 dólares para um dia no hospital, claramente estão produzindo efeitos no comportamento dos checos. O Ministro da Saúde disse que o número de prescrições caiu 40% no primeiro trimestre, apesar de que algumas delas podem ter sido resultado de estocagem no final do ano passado. O governo calculou que seguradoras públicas economizaram mais de US$ 100 milhões no primeiro trimestre, em comparação ao ano anterior, enquanto fornecedores arrecadaram US$ 62 milhões em taxas.

“Tentamos eliminar do sistema de saúde alguns custos que as pessoas podem pagar sozinhas”, disse Tomas Julinek, Primeiro-Ministro da República Checa, em uma entrevista no seu gabinete. Mas existe um teto para pagamentos, ajustado em mais de US$ 300 para o ano, que Julinek afirma que também protegeria as doenças graves.

Vários pacientes crônicos afirmaram não ter certeza como o teto funcionaria, ou exatamente quais custos estariam incluídos. “Até agora, só vejo e sofro o lado negativo”, disse Lenka Vondrackova, paciente de esclerose múltipla que luta para sobreviver junto a seu marido e seus dois filhos adolescentes com cerca de US$ 1.200 por mês, a soma do seu salário e da pensão pela deficiência.

Eles vivem apertados em um apartamento minúsculo em um edifício da época comunista em Cerny Most, um bairro afastado na parte leste de Praga. Seu regime de remédios exige cinco comprimidos pela manha, um spray nasal uma vez ao dia e mais três comprimidos à noite, bem como uma injeção aplicada por seu marido ou um de seus filhos. Antes das reformas, eles conseguiam economizar um pouco a cada mês.

“Agora, tudo o que sobrou foi dominado pelas taxas”, disse o marido Pavel.
“Acredito que no futuro ficará evidente que haverá mais dinheiro para equipamentos e remédios melhores”, disse ela, torcendo por uma pílula que pudesse substituir a injeção dolorosa que toma todas as noites. “Se funcionar…”, acrescentou, desviando o olhar, dividida entre o ceticismo e a esperança.

Fonte: G1

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