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Combater o atraso é nosso dever e nossa salvação 20/03/2008

Posted by Esclerose Múltipla in Utilidade pública.
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INOPORTUNO E MALDOSO

Um leitor me escreve contrariando argumentos que utilizei no meu comentário sobre a polêmica questão do estudo das células-tronco, em discussão no STF – Supremo Tribunal Federal – por ora suspenso, em razão do pedido de vistas do ministro Carlos Alberto Menezes Direito.

“Achei sua comparação muito inoportuna. Um tanto quanto maldosa contra os católicos” – taxou o missivista. “O caso é que consideramos o embrião uma vida humana e vivemos em um mundo extremamente materialista e consumista, do descartável. Um espermatozóide não é uma pessoa, nem o óvulo. Mas o zigoto é um ser humano sim, com todo o DNA, cromossomas, etc. de um ser humano adulto. É uma questão de valorização da vida. Eu creio na Igreja Católica e creio que a vida humana é sagrada! Só foi um comentário”.

Engana-se o leitor quando afirma que minha “comparação foi inoportuna e tanto quanto maldosa”. Se todo mundo discute, talvez, o tema mais relevante do presente século que representará uma revolução na medicina trazendo cura a muitas doenças, como coração, esclerose múltipla, câncer e tantas outras, por que não posso opinar? Onde estaria a maldade no comentário que fiz?

Para responder ao missivista e a todos os que se interessam pelo tema, aconselho a lerem o artigo da socióloga Lícia Peres, publicado em Zero Hora, na quinta-feira passada (13.03). Foi, até agora, o melhor artigo que li sobre o assunto. De uma clareza espetacular. Para os que não tiveram oportunidade de ler, com a devida licença da autora, vou reproduzí-lo.

“NOVOS PECADOS, VELHAS PRÁTICAS”

Há poucos dias, a Igreja Católica divulgou no Osservatore Romano, publicação oficial do Vaticano, um novo elenco de “pecados sociais”, destacando, dentre outros, o que chamou de manipulação genética. Ao meu ver, este anúncio tem um foco principal, o de frear o avanço científico que, ao descobrir o potencial, o de frear o avanço científico que, ao descobrir o potencial contido no uso de células-tronco para substituição de tecidos e órgãos, leva um novo alento à humanidade. É uma transformação sem precedentes.

No Brasil, a permissão para que sejam utilizadas as células-tronco embrionárias congeladas há pelo menos três anos, após longa espera, encontra-se em exame no Supremo Tribunal Federal. Trata-se de um tema de importância crucial cujo resultado, se concedida a autorização, representará uma revolução na medicina e conseqüente elevação brasileira para um novo patamar no avanço científico em termos mundiais. A presidente Ellen Greicie já adiantou seu voto favorável e deixou claro que já postergaram demais.

O obscurantismo, as visões medievais, aquelas mesmas que condenaram Galileu e que queimaram mulheres e livros abrem mais uma guerra contra o progresso e tentam impedir a aprovação da lei. Em relação aos que sofrem e poderão ser beneficiados com o prosseguimento das pesquisas – sua única esperança – não há compaixão.

E, de repente, elevaram o embrião a condição jamais vista, muito acima das vidas concretas. As igrejas passaram agora também, sob orientação superior, a colocar nos altares reprodução de fetos em resina e, segundo o noticiário, exibem filmes assustadores. Apelação é pouco. Nova Cruzada à vista”.

Bem, agora chamo a atenção do leitor para o que segue, ainda do artigo da socióloga Lícia Peres:

“A cientista Mayana Zatz, uma das mais brilhantes pesquisadoras brasileiras, explica de forma acessível: “Quando embrião humano está com quatro ou cinco dias depois da fertilização, é um conjuntinho de cem células, tão pequenino quanto o pontinho do i. A gente não enxerga essas células, a não ser aumentando cem vezes ao microscópio. Nessa fase, há uma capa externa de células, que irão formar as membranas embrionárias da placenta, e um bolinho de células internas. As células desse bolinho interno são as que chamamos de pluripotentes, porque são as que podem produzir todos os tecidos do nosso organismo.

Nessa fase, não se tem o feto. Existe simplesmente um bolinho de células que, de tão pequenas, você precisa aumentar muito ao microscópio para conseguir ver alguma coisa. Há algumas pessoas que chamam que, então, já existe um fetinho com bracinho, perninha… Não. É simplesmente um amontoado de células que, até 14 dias, não tem nem resquício de sistema nervoso. Os embriões que estão congelados em clínicas de fertilização são aqueles que, ou já não têm bom aspecto e não serviriam para implantação, ou já estão congelados há tanto tempo, que, mesmo se fossem implantados num útero, as chances de se transformar em uma vida são mínimas, da ordem de 2% a 3%. Chamar isso de vida é um otimismo gigantesco. Eu creio que se pode falar, isto sim, num potencial muito pequeno de vida. É por isso que estamos lutando para que, ao em vez de jogar esses embriões no lixo, nos permitam usá-los no laboratório, nos permitam aprender como fazê-los se diferenciar nos tecidos que a gente precisa para salvar vidas, para curar doenças e, no futuro, fazer órgãos também.

O que limitam são as crenças religiosas. Existem grupos religiosos – felizmente são a maioria – que acham que, no momento da fertilização, já se tem uma vida. É importante que se diga: isso não é verdade, porque em 70% dos casos, mesmo que ocorra a fertilização, não ocorre mais nada. Essa fertilização pára aí. Não ocorre a divisão do embrião e não se teria nem um blastócito”. Está aí a possibilidade de esses embriões contribuírem para uma vida nova, com qualidade, para um grande número de pessoas necessitadas. Uma nobre função para o que seria descartado.

Nas comemorações do Dia Internacional da Mulher, foi divulgado de forma bem-humorada e criativa o apelo: Tirem seus Rosários de nossos Ovários.

Sempre apreciadora do bom-humor, creio, entretanto, ilusória a possibilidade de dissuadir tais grupos religiosos com qualquer argumento. Suas lideranças sabem muito bem que a matéria-prima com que sempre operaram é a vida e a morte. Uma nova concepção sobre estes temas poderá significar um outro entendimento, uma visão diferente de suas pregações, o que, certamente, não lhes convém. Combater o atraso é nosso dever e nossa salvação”.

Com isso dou por encerrado o assunto.

Francisco Basso Dias (de Porto Alegre)
*Jornalista
chico.jor@hotmail.com

Fonte: Clic Erechim

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