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Oito razões para permitir a pesquisa com células-tronco embrionárias no Brasil 07/03/2008

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Utilidade pública.
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Stevens Rehen, da UFRJ, defende liberação dos estudos com as células no país. Chance de terapia é maior com elas; área de investigação é estratégica.

Arquivo pessoal

O pesquisador Stevens Rehen, da UFRJ (Foto: Arquivo pessoal)

O debate sobre a liberação da pesquisa com células-tronco embrionárias humanas no Brasil tem importância estratégica para a saúde pública e para o avanço da ciência brasileira. Entenda abaixo os principais motivos que levam os cientistas a defender esses estudos.

1. As células-tronco embrionárias são o tipo celular de maior potencial terapêutico descoberto até hoje

Experimentos com animais indicam um potencial terapêutico inigualável para as células-tronco embrionárias humanas. Essas células foram capazes de aliviar ou curar sintomas de diversas patologias, incluindo mal de Parkinson e lesão de medula espinhal. No caso específico dessas doenças, há perda de neurônios, incapazes de serem produzidos a partir de células-tronco adultas oriundas da medula óssea, do cordão umbilical ou do tecido adiposo, por exemplo.

2. A obtenção de células semelhantes às embrionárias a partir de tecidos adultos depende justamente da possibilidade de se trabalhar com as células-tronco embrionárias genuínas

Novas metodologias para a obtenção de células semelhantes às células-tronco embrionárias a partir de tecidos adultos foram recentemente anunciadas por pesquisadores japoneses e americanos. Cabe mencionar que essas descobertas só foram possíveis graças à liberdade que esses cientistas têm de trabalhar com as células-tronco embrionárias genuínas. Somente a partir de uma comparação entre células adultas e embrionárias foi possível criar células-tronco potentes derivadas da pele de pessoas adultas.

Se o Supremo Tribunal Federal decidir pela proibição das pesquisas com células-tronco embrionárias humanas, a possibilidade de gerar células-tronco semelhantes às japonesas e americanas jamais irá acontecer em nosso país.

3. Proibir pesquisas com células-tronco embrionárias humanas tornará o Brasil dependente dos países onde esses estudos são realizados

A lista de países que aprovam e realizam pesquisas com células-tronco embrionárias humanas inclui: Austrália, Inglaterra, Bélgica, Dinamarca, Coréia do Sul, Espanha, Cingapura, Suécia, Suíça, Taiwan, Finlândia, França, Índia, Islândia, Grécia, Israel, Japão etc.

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Nos Estados Unidos a pesquisa é permitida, desde que não realizada com financiamento federal. A Alemanha permite a pesquisa com células-tronco embrionárias criadas antes de 2002 e seu parlamento discute neste momento uma legislação ainda mais permissiva.

Os países que proíbem a pesquisa com células-tronco embrionárias são poucos: Lituânia, Áustria, Irlanda e Itália. Em todos esses casos, a proibição teve um viés religioso marcante.

4. A Lei de Biossegurança estabelece que somente embriões considerados inviáveis ou congelados há mais de três anos sejam utilizados em pesquisas

Embriões considerados inviáveis são aqueles que inevitavelmente serão descartados pelas clínicas de fertilização in vitro, pois, mesmo se transferidos para o útero materno, não conseguirão se desenvolver. Um embrião produzido em laboratório, sem quaisquer condições de se desenvolver, deveria ter as prerrogativas legais de um bebê, uma criança ou um adulto?

A Lei de Biossegurança permite ainda que embriões congelados há mais de três anos, não implantados no útero, sejam utilizados em pesquisas que busquem o tratamento para doenças hoje incuráveis ao invés de descartados. Em ambos os casos é necessária a autorização dos genitores.

5. Pesquisas com células-tronco adultas não substituem pesquisas com células-tronco embrionárias

Pesquisas com células-tronco adultas não substituem os estudos envolvendo células-tronco embrionárias. De fato, são contraproducentes para a ciência as discussões baseadas em especulações sobre qual seria o melhor tipo de células-tronco, pois possuem potencial distinto e aplicações idem.

Podemos inclusive especular que as maiores promessas estão nos estudos que envolvem a combinação de células-tronco adultas e embrionárias. É justamente por isso que a grande maioria dos cientistas brasileiros que trabalham com células-tronco adultas também é a favor das pesquisas com células-tronco embrionárias.

6. Células-tronco embrionárias de outros mamíferos não substituem as células-tronco humanas

Por serem de espécies diferentes, têm comportamentos distintos. Portanto, células de outros mamíferos não podem ser utilizadas para responder todas as questões relacionadas ao desenvolvimento dos seres humanos.

7. O estabelecimento de novos tratamentos com células-tronco, sejam adultas ou embrionárias, não tem data marcada

Em 1998 as células-tronco embrionárias humanas foram descobertas, e hoje há inúmeros experimentos com animais indicando que são capazes de exercer efeitos terapêuticos. Mas dez anos é muito pouco tempo em ciência, e por isso é imprescindível a liberdade de pesquisa. Só assim será possível progredir para a eventual utilização terapêutica dessas células.

As próprias células-tronco adultas, descobertas na década de 1960, ou seja, há mais de 40 anos, têm seu uso rotineiro restrito ao tratamento de doenças hematológicas (do sangue) pelo transplante de medula óssea ou sangue de cordão umbilical. Suas demais aplicações clínicas, por mais anunciadas que sejam, têm caráter experimental, ou seja, estão em fase de testes.

É impossível afirmar quando um paciente irá entrar num hospital e se beneficiar de terapias com células-tronco, adultas ou embrionárias, para infarto, diabetes, lesão da medula espinhal, derrame, Parkinson etc. O que se pode afirmar, entretanto, é que nenhuma terapia estará disponível se não houver liberdade para o progresso científico.

8. O momento em que começa a vida humana não possui um marco científico definitivo

A grande polêmica sobre a manipulação de células-tronco derivadas de embriões surgiu por manifestações de segmentos religiosos específicos, como os católicos e evangélicos. Para tais grupos a vida é sagrada desde o momento da concepção, e conseqüentemente um embrião formado por algumas células seria equivalente a crianças ou indivíduos adultos. Para outras religiões não há problemas em utilizar embriões inviáveis, e que serão descartados, em pesquisa científica.

Quando começa a vida? Há pelo menos sete formas científicas de defini-la. Uma delas sugere que o início da vida humana ocorre pela formação do sistema nervoso, a partir do 14o dia após a fecundação. Tem referência na definição legal para a morte – baseada na interrupção de funcionamento do cérebro – e que possibilita a realização de transplantes de órgãos.

Stevens Rehen é neurocientista e pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Fonte: G1

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