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“Usar embriões em pesquisas pode ser mais nobre que descartá-los” 04/03/2008

Posted by Esclerose Múltipla in Utilidade pública.
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Nesta quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal vai julgar a legalidade da utilização de células-tronco embrionárias em pesquisas e tratamentos, como previsto na Lei de Biossegurança, que foi aprovada em 2005. Enquanto aspectos jurídicos, éticos e religiosos permeiam a discussão, diversas famílias esperam que o de desenvolvimento científico traga a cura para doenças genéticas e recuperação de movimentos perdidos por traumas neurológicos.

Uma destas pessoas que crê na reversão de um trauma que mudou sua vida, mais precisamente, a vida de seu filho é Hermano Vianna, pai do vocalista do Paralamas do Sucesso, Herbert Vianna. Em 2001, o músico sofreu um acidente de ultraleve que lhe causou lesão medular e cerebral.

Mesmo de volta aos palcos, Herbert tem ainda hoje lapso de memória e paralisia dos membros inferiores. Desde que se deparou com as conseqüências que o acidente traria para vida do seu filho, Hermano começou a estudar o que já havia sido publicado na comunidade científica que poderia ajudar a reverter a condição de Herbert. “Percebi que a pesquisa com células-tronco embrionárias representaria uma esperança para o caso do meu filho uma vez que, através dela, pode-se alcançar uma possível cura”, diz.

Divulgação
Herbert Vianna apóia a causa das células-tronco

Ao se encontrar uma esperança de recuperação, Hermano Viana se tornou um militante da legalização do uso das células embrionárias. “Na época a aprovação da Lei de Biossegurança, participei de audiências públicas sobre o assunto no Congresso e defendi junto a deputados e senadores o ponto de vista que não é só meu, mas de muitas pessoas que querem ver este debate livre do aspecto religioso. Vivemos em um país laico e as leis não podem ser conduzidas como bem quer a igreja”, alerta.Para a Igreja Católica, a vida humana começa com a fecundação. Um embrião, portanto, não pode ser manipulado muito menos descartado. Hermano pensa diferente. “Esta questão de quando começa a vida, se o embrião tem alma ou não, é secundária. O que deve ser discutido é se estes embriões descartados nas clínicas de fecundação devem ser jogados no lixo ou usados para um bem maior. As pessoas trazem o aspecto religioso para este debate estão brincando com as vidas de milhões de pessoas que necessitam que estas pesquisas avancem, que precisam ter a esperança de se recuperar”.

Direito à vida

Católica, funcionária pública e portadora de distrofia muscular, Gabriela Costa, de 32 anos, também questiona o argumento do direito à vida levantado pela Igreja Católica contra o uso de células-tronco embrionárias em pesquisas. “Acredito que este argumento é defensável. O direito à vida está sendo garantido na medida em que estamos buscando tratamentos para pessoas que possuem doenças que matam e progridem muito rápido”.

Aos sete anos, Gabriela começou a apresentar dificuldades para subir escadas e se locomover normalmente. O diagnóstico de distrofia veio junto com uma série de medicamentos e injeções para retardar um futuro que é dado como certo em casos como este, que é a perda progressiva de movimentos. Em 2003, uma queda antecipou sua necessidade de usar cadeira de rodas.

A partir de então, Gabriela passou a bater na porta de gabinetes de deputados e senadores em busca de apoio para a aprovação da Lei de Biossegurança, o que acabou ocorrendo em 2005. A ação de inconstitucionalidade sobre o uso de embriões proposta logo depois foi uma decepção, mas não o fim de sua luta.

“Apesar da doença, tenho uma normal. Mas acredito que há uma grande diferença em tocar a sua vida sabendo que há cientistas que estão pesquisando meios de para aumentar o seu bem-estar e prolongar a sua existência”.

Para Gabriela, a lei é “democrática” e preserva não apenas o seu direito de viver, mas o dos católicos que são contra a pesquisa. Segundo a lei, os embriões apenas podem ser utilizados em estudos com a autorização de seus genitores e isto garante que pessoas que consideram que a vida começa com a fecundação sejam respeitadas.

“A lei prevê apenas o uso de embriões já descartados para o desenvolvimento e cujo destino é apenas o lixo ou o congelamento eterno. Ainda acredito que o uso em pesquisa é um destino mais nobre que o descarte”.

Esperança

Idealizador da campanha “Célula-Tronco Esperança”, Cláudio de Deus também teve seu ativismo estimulado por um susto pessoal. Sua filha Lorena recebeu o diagnóstico de esclerose múltipla aos dez anos e, após conversar com médicos e ler o que pôde sobre o assunto, Cláudio concluiu que a pesquisa com células-tronco embrionárias podem alcançar uma cura para casos como o da jovem, hoje com 21 anos.

Divulgação
Cláudio de Deus e sua filha Lorena

“Percebi que as pessoas pouco conhecem do que se trata o debate sobre células tronco. Por isto criei um site para disponibilizar o que encontrasse sobre o assunto e desmistificar a visão que muitos têm de que usar embriões é o mesmo que fazer um aborto, por exemplo”.Onze anos após o diagnóstico, Lorena está bem, trabalha, dirige, namora e leva uma vida normal. Seu tratamento é feito com injeções subcutâneas que custam cerca de R$ 3 mil. Para Cláudio, o preço do tratamento é mais um ponto a favor do investimento em pesquisas nacionais com células-tronco.

“Se a pesquisa for proibida no Brasil, e outros países chegarem à cura de doenças com o estudo de células embrionárias, terei que levar a minha filha para o exterior para se tratar? E como vai dormir um pai que não terá condições de dar a única possibilidade de cura a seu filho?”, questiona.

Católico, Cláudio respeita a posição da igreja sobre o assunto, mas não quer ter sua esperança tolhida pelo princípio religioso. Para ele, a fé não é suficiente para manter sua esperança, é preciso ir à luta para ter o apoio da ciência. “Tenho feito um trabalho de formiguinha com o site, mas tenho lutado diariamente para que a minha filha tenha uma perspectiva de futuro melhor”.

Opinião

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Fonte:  Último Segundo

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