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Mais EM na TV 30/01/2008

Posted by Esclerose Múltipla in Utilidade pública.
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Esperamos que não seja mais uma abordagem cretina feita por quem não tem a mínima idéia do que seja esclerose múltipla e resolve colocar a doença numa obra de ficção só porque acha o nome pomposo (a palavra “múltipla” confere um certo ar de gravidade).

Alguém no fim dos anos 80, leigo na área médica, “supõe” ter EM… E sem fazer exames! Essa queremos ver.

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Para relembrar e contar

Maria Adelaide Amaral revê a própria história na minissérie Queridos Amigos, a primeira que ela pode chamar de inteiramente sua

Patrícia Villalba

Maria Adelaide Amaral fez diferente desta vez. Depois de uma série de adaptações de obras alheias para a TV – desde o remake da novela Anjo Mau (1997), de Cassiano Gabus Mendes, até minisséries históricas como A Muralha (do livro de Dinah Silveira de Queiroz, em 2000), Os Maias (de Eça de Queiroz, em 2001) e JK (de 2006, que escreveu ao lado de Alcides Nogueira, com base em personagens reais e muita pesquisa) -, ela finalmente estréia na TV uma obra que pode chamar de inteiramente sua. Queridos Amigos, minissérie que estréia no dia 18 na Globo, é baseada num romance dela, Aos Meus Amigos, de 1992.

Com direção de Denise Saraceni e nomes como Dan Stulbach, Matheus Nachtergaele, Denise Fraga e Fernanda Montenegro no elenco, a minissérie retoma o fim dos anos 80, a eleição de 1989 e as ilusões perdidas em meio à abertura política, por meio da história de um grupo de amigos muito unidos. Seqüelas contidas de uma época que ainda não foi discutida o suficiente – daí, a idéia de que, mesmo sendo uma minissérie de época, Queridos Amigos é uma minissérie contemporânea. Sobre ela, a autora conversou com o Estado.

Você já escreveu minisséries ambientadas em diferentes períodos da história do Brasil. Acha que é mais fácil ou mais difícil falar sobre uma época que acabou de acontecer, e fazer uma minissérie que é histórica, mas ao mesmo tempo ainda tão contemporânea?

Não escolhi escrever minisséries históricas. As coisas foram se encaminhando nesse sentido a partir de A Muralha. Devido à boa audiência, na esteira dela, vieram outros épicos: A Casa das Sete Mulheres, Um Só Coração e JK. Foi um prazer resgatar o gosto pela pesquisa que desenvolvi trabalhando 20 anos na Abril Cultural. Mas quase toda a minha obra dramatúrgica e literária é contemporânea, com exceção das peças de caráter biográfico – Chiquinha Gonzaga, Mademoiselle Chanel e Tarsila. Queridos Amigos não será um épico. Ao contrário, trata-se de uma minissérie bem intimista. A História é pano de fundo e parte do drama particular de alguns dos personagens. Minhas fontes principais são os jornais, revistas e telejornais da época, e a memória – minha e dos amigos, aos quais recorro toda vez que desejo esclarecer algum ponto. Entre eles estão Alípio Freire, Vladimir Sacheta, Elio Gaspari e Bete Mendes.

Além da época em que se passa Queridos Amigos ser tão próxima, estar tão fresca na memória, é um capítulo delicado da história do Brasil. Como lidar dramaturgicamente com uma época ainda tão pouco explorada, tanto pela pesquisa quanto pela ficção?

Os personagens falam e agem de acordo com a sua experiência pessoal – e os reflexos dela – na sua vida afetiva, profissional e política. Da mesma forma como em Aos Meus Amigos, que jamais pretendeu esgotar o tema, mas foi definido como um ‘romance de geração’, por José Castello, na época crítico literário do Estado.

Quais as facilidades e as dificuldades de se adaptar um livro de sua autoria para a TV?

A idéia de Queridos Amigos não foi minha. Foi o Dan Stulbach quem observou que o romance Aos Meus Amigos daria uma boa minissérie, quando o chamei para dizer que Nassau tinha sido adiada. Considerei a idéia, escrevi um argumento, achando que o tipo de temática e ‘fauna’ abordadas não interessaria à TV Globo. Para minha surpresa obtive sinal verde para fazer a sinopse. A melhor coisa deste trabalho é a liberdade. Os personagens, embora alguns inspirados em pessoas reais, me pertencem inteiramente, e isto me dá uma liberdade para criar que jamais tive na televisão. Esta é a primeira vez que escrevo uma obra inteiramente minha para a TV. A dificuldade é o desafio de fazer com que o público acolha e entenda personagens e conflitos tão distantes do universo da média das pessoas. A única ponte entre mim e elas é a emoção, mas não posso exagerar na dose. Senão vão dizer que o livro é muito melhor.

Mas o que houve com o projeto de contar a vida de Mauricio de Nassau?

Foi adiado. Li, pesquisei, trabalhei intensamente durante um ano em Nassau. Seria uma pena se ele não acontecesse.

Como dosou as referências políticas na minissérie e até que ponto elas são importantes para definir os personagens?

Quase todos os personagens da minissérie se envolveram direta ou indiretamente em política. Mesmo aqueles que fazem crítica à luta armada, durante a ditadura ajudaram a esconder amigos, ou mobilizaram suas relações para resgatá-los da prisão ou órgãos da repressão, e/ou facilitaram partidas para o exílio. Léo, o protagonista, cineasta e escritor, alinhado com pensamentos de vanguarda, é um exemplo de pessoa que deu esse tipo de retaguarda. Aqueles que estiveram mais diretamente envolvidos com a política são Ivan e Tito, jornalistas, ex-presos políticos; Pedro, autor de romances que denuncia os porões da ditadura militar; Bia, presa e torturada no DOI-Codi, etc. A política, portanto, impregna a vida da maior parte do grupo. Em 1989, estão, cada um à sua maneira, revendo ou reforçando conceitos, se confrontando com ilusões perdidas e vivendo a ressaca das Diretas.

Ainda em referência à pergunta anterior: imagino os personagens como pessoas muito ligadas e afetadas pelos fatos políticos que se desenrolavam naquela época. Acha que hoje somos menos permeáveis ao que acontece em Brasília?

Acho que houve uma grande mudança de mentalidade e de interesse pelo coletivo entre os anos 70 e 80. O individualismo, a ganância explícita e desavergonhada, o chamado capitalismo selvagem ganhou força no Brasil, sobretudo a partir de meados da década de 80. Aquilo que era objeto de críticas nos anos 70 (a lei do Gerson – ‘o negócio é levar vantagem em tudo’) passou a ser um valor e uma condição para ascensão material. Acrescente-se a isso o empobrecimento da grade escolar e o colapso do ensino público, e o resultado é o desinteresse e a ignorância, às vezes voluntária, das pessoas. O que impede uma pessoa de classe média de ler mais e aprender mais? Uma das coisas que mais me impressiona é o reduzido número de passageiros lendo jornal ou qualquer outra coisa nas salas de espera dos aeroportos. Não sou especialista na matéria, mas é possível que a nossa geração tenha se envolvido mais em questões políticas e sociais porque o nível da educação (sobretudo nas escolas públicas) era melhor.

Uma das ‘amigas’ é você?

Um autor está em cada um dos seus personagens, homens e mulheres, vilões e heróis. A maior parte dos personagens do livro é uma mistura de várias pessoas reais. Na minissérie, eles ganharam novas características e autonomia, também por causa dos atores que os interpretam.

Quando soube que o personagem Léo teria uma doença, pensei imediatamente que seria aids. Mas não é. Por que você não optou pela aids, que marcou tanto aqueles anos?

Porque ele não pertence a nenhum grupo de risco, e naquela época se acreditava que a transmissão era restrita a esses grupos: homossexuais, usuários de drogas e pessoas que necessitam de transfusão sanguínea. E também não importa muito o tipo de doença. Léo supõe que seus sintomas sejam de esclerose múltipla. Mas ele sequer fez ou fará os exames para confirmar a suspeita. Ele fugirá de todas as possibilidades de diagnóstico e tratamento porque decidiu morrer. A sua morte tem a ver com questões existenciais e filosóficas. O Léo pertence a uma fatia da sua geração para a qual a grande questão existencial é o suicídio. Ele era leitor de Albert Camus, naturalmente. O Léo do romance se lança da janela do 10º andar. É um gesto impulsivo. O Léo da minissérie tem 20 dias para preparar a sua morte e ninguém o ajudará nessa empreitada.

Fonte: O Estado de S.Paulo

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