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O sucesso das células tronco 29/11/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico.
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A criação de células embrionárias sem usar embriões humanos revoluciona a ciência e aumenta a esperança de novos tratamentos contra males como a diabete e o infarto

Por CILENE PEREIRA E MÔNICA TARANTINO Colaborou Joice Tavares

MURILO CONSTANTINO/AG. ISTOÉ
BENEFÍCIO Tetraplégica, Mara submeteu-se a tratamento com célula-tronco. A terapia a ajudou a melhorar a tonicidade muscular e a consciência corporal

O mundo todo tem muito a comemorar. Na última semana, cientistas americanos e japoneses anunciaram um avanço espetacular no campo das células-tronco, as estruturas curinga que têm o poder de se transformar em novos tecidos do organismo. Por isso, servem como peças de substituição daquelas que, por algum motivo, não funcionam mais. Os pesquisadores reprogramaram células adultas presentes na pele pele humana para se comportar como células-tronco embrionárias, capazes de se diferenciar em qualquer célula do corpo. Essa é a grande vantagem em relação às células-tronco adultas, encontradas em fontes como o cordão umbilical e medula óssea, porém bem menos versáteis. Após a mudança, os cientistas conseguiram fazer com que as novas células se tornassem neurônios e células cardíacas.

A descoberta tem potencial para mudar os rumos da ciência nesta área. “Está no mesmo patamar de importância da clonagem da ovelha Dolly, da primeira extração de uma célula-tronco de um embrião humano e da produção de células- tronco a partir de embriões clonados de um macaco”, explica o neurocientista Steven Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O criador da Dolly, o escocês Ian Wilmut, saudou o achado: “A descoberta terá implicações enormes na pesquisa e, um dia, em tratamentos”, vaticinou. O pesquisador Robert Lanza, da companhia Advanced Cell Technology, foi mais longe: “Este trabalho é como aprender a transformar chumbo em ouro”. O entusiasmo é compreensível porque, pela primeira vez, obteve-se célula embrionária humana sem recorrer a embriões humanos. Este era o grande obstáculo às pesquisas nesta área. Isso porque, até agora, a única fonte dessas células eram embriões descartados por clínicas de fertilização in vitro. Porém, o método é contestado por muitos porque implica na destruição de embriões.

PAULO JARES/AG. ISTOÉ
BRINCADEIRA André recorreu a um banco público de cordão umbilical para se tratar de uma leucemia

A novidade foi divulgada nas revistas científicas Cell e Science. No experimento da Universidade de Kyoto, no Japão, chefiado por Shynia Yamanaka, as células estudadas (fibroblastos) foram tiradas do rosto de uma mulher de 36 anos. O time de James Thomson, da Universidade Wisconsin-Madison, nos EUA, trabalhou com fibroblastos extraídos do prepúcio de um bebê recém-nascido. Além disso, foram feitos testes com fibroblastos existentes no líquido sinovial (encontrado entre as cartilagens) e também no pulmão. Para obter a mudança, os cientistas “infectaram” as células com um vírus que mistura seu material genético ao DNA da célula invadida. Os novos genes alteraram o comportamento das células fazendo com que voltassem a uma etapa anterior do seu amadurecimento, quando não tinham se diferenciado em tecidos específicos do corpo. Depois, estimularam-nas a se tornar células cardíacas e neurônios.

Agora, muita pesquisa será feita para tornar a descoberta realmente aplicável. Um dos empecilhos é o uso dos microorganismos para introduzir genes nas células. “A presença dos vírus pode causar mutações. Buscamos outras estratégias para inserir os genes”, disse à ISTOÉ a cientista Junying Yu, que liderou a equipe americana. Também será imprescindível verificar se as células não têm potencial cancerígeno, uma vez que correm o risco de se multiplicar indefinida e desordenadamente. Outro ponto ainda não totalmente esclarecido é se elas têm o mesmo potencial das legítimas embrionárias. “Por tudo isso, levará anos para fazermos a primeira aplicação clínica”, prevê Junying Yu.

DIVULGAÇÃO
ENTRE IRMÃOS João tinha leucemia. Recebeu célula tirada do cordão umbilical da irmã, Kamilli, e está curado

O estudo teve forte impacto no Brasil. “Os resultados confirmam que o corpo adulto tem as informações para avançarmos no estudo das células-tronco, independentemente do sacrifício de embriões”, diz Hans Dohmann, diretor do Instituto Nacional de Cardiologia, no Rio de Janeiro. Na opinião da geneticista Lygia da Veiga Pereira, da Universidade de São Paulo, a reprogramação de células adultas é um passo importante. “Mas precisa ser concretizado”, pondera.

Ao mesmo tempo que se buscam novas fontes de células-tronco embrionárias, procura-se expandir as opções de locais de onde podem ser retiradas as chamadas células-tronco adultas. Hoje, as principais fontes são o cordão umbilical e a medula óssea. Mas há alguns obstáculos no uso dessas fontes. Um deles é a quantidade de células que se consegue do cordão. Numa coleta padrão, retiramse dele por volta de 86 milhões de células diversas. Mas apenas cerca de 550 mil são as que podem gerar vasos sangüíneos, por exemplo. “E elas são difíceis de serem multiplicadas em laboratório”, conta o cirurgião cardiovascular Paulo Brofman, da PUC do Paraná. Neste ponto, o cientista brasileiro teve uma vitória. Seu grupo criou uma técnica que aumenta em até 70 vezes a concentração de células extraídas do cordão e, tão bom quanto, criou vasos sangüíneos a partir delas.

Outro alvo são as células de gordura, também fontes de células-tronco. Em experiências em animais, a equipe de José Eduardo Krieger, do Instituto do Coração, em São Paulo, fez com que células-tronco tiradas dessas estruturas promovessem a revascularização de áreas afetadas por infarto. “Mas ainda não sabemos se elas produziram vasos ou estimularam sua criação”, explica Krieger. O pesquisador Ithamar Stocchero, da Universidade de São Paulo, também estuda formas de extrair, cultivar e armazenar as células-tronco da gordura. “A área que tem mostrado maior rendimento por grama é o abdome”, diz.

Enquanto parte da ciência se esforça para tornar as células-tronco mais acessíveis, outra testa sua eficácia em várias enfermidades. Na PUC do Rio Grande do Sul, há estudos em animais para avaliar sua eficácia contra a epilepsia. “Elas reduziram em 81% a freqüência das crises”, afirma o neurologista Jaderson Costa, da instituição gaúcha. Em Salvador, o grupo de Ricardo Ribeiro dos Santos, da Fiocruz, avalia a terapia no controle da diabete tipo 2. Em animais, obtêm resultados animadores. “As cobaias voltaram a produzir insulina”, explica Santos. A insulina abre a porta das células para a entrada da glicose circulante no sangue. Na diabete tipo 2, sua produção ou absorção é deficiente.

MARCELO BRASIL/ AG ISTOÉ
CONFORTO Células tiradas da medula óssea permitiram a Leandro baixar a dose de insulina para controlar a diabete

É preciso entender que esses feitos estão restritos aos laboratórios. Não se sabe se as promessas se tornarão realidade. Por enquanto, o que se tem disponível para o ser humano, ainda em caráter experimental, são aplicações de células-tronco adultas contra doenças cardíacas, hepáticas, diabete tipo 1, lesões medulares e derrame, entre outras. Muitos centros brasileiros conduzem experiências nestas áreas. Em 2003, por exemplo, a vereadora Mara Gabrilli, de São Paulo, integrou uma pesquisa do Hospital das Clínicas de São Paulo que tratou 30 portadores de lesão na medula espinhal. Tetraplégica desde 1994 após um acidente, ela está entre os poucos que apresentam melhora significativa. “Tive aumento do tônus muscular, da sensibilidade à dor e da consciência corporal”, diz.

Desde 2005, estão em andamento em 30 instituições pesquisas para avaliar o método no tratamento de doença de chagas, isquemia crônica, infarto e o inchaço do coração, a chamada cardiomiopatia dilatada, causada por várias patologias. As células são injetadas nos locais onde se deseja a recuperação. Em Salvador, o aposentado Eunápio Cavalcante Costa, 68 anos, submeteuse ao implante há oito meses. Portador do mal de Chagas, ele sentia cansaço crônico. Após o procedimento, sente-se bem. “Dou pequenas caminhadas”, conta. A aposentada Sofia Douhan, 62 anos, que convivia com sintomas iguais, comemora o dia em que decidiu participar das experiências para tratar seu coração fatigado. “Se não fizesse, estaria embaixo da terra”, diz. No segmento cardiovascular, há mais evoluções. Brofman, do Paraná, criou uma técnica para tratar corações infartados que tiveram reduzida sua força de bombeamento. Ele une células-tronco com células musculares tiradas da perna do doente para reforçar a capacidade de contração do músculo cardíaco. Dos dez pacientes tratados, sete voltaram à vida normal.

Belos avanços também são registrados pelo imunologista Júlio Voltarelli, em Ribeirão Preto (SP), no tratamento da diabete tipo 1. Nesta versão da doença, células de defesa do corpo atacam as células que produzem insulina. Por isso, células-tronco são usadas para “refazer Chaa fábrica” de células de defesa, impedindo que continue a produzir células defeituosas. Um dos beneficiados é o estudante Leandro Ferreira, 18 anos. Ele fez o procedimento há um ano e agora usa doses muito menores de insulina. “Meu corpo produz 80% da insulina de que preciso”, conta, satisfeito. Regiões muito delicadas, como o cérebro, também estão contempladas pelos estudos. O gaúcho Jaderson e seu colega Maurício Friedrich coordenam uma pesquisa que analisa o desempenho do método contra derrames. Em geral, o problema deixa seqüelas, como a limitação de movimentos. As células-tronco foram aplicadas no local lesado em 20 indivíduos. “Todos melhoraram”, conta Jaderson.

EDSON RUIZ
FÔLEGO Após implante no coração, Eunápio consegue fazer pequenos esforços

Por resultados como esses, está crescendo no Brasil o número de pais que guardam as células-tronco do cordão umbilical de seus filhos. Em dois anos de funcionamento, o banco de cordão Cord- Vida, de São Paulo, armazenou três mil amostras. Duas pessoas precisaram delas. Eram crianças com leucemia (câncer nas células sangüíneas) que receberam células extraídas dos cordões de seus irmãos. Nesse caso, as células também servem para fazer a “fábrica” de células sangüíneas funcionar direito. Um dos casos não teve sucesso. No outro, o pequeno João Roberto Dornelles Junior, seis anos, foi curado. Ele teve a enfermidade diagnosticada aos quatro anos. Durante seu tratamento, sua mãe, Rosiliani, engravidou. Kamilli nasceu e doou células-tronco ao irmão. Mais crianças têm se beneficiado desse método. No Rio de Janeiro, André Lucas Cardoso, oito anos, também atingido pela leucemia, recupera-se graças ao implante de células-tronco feito há um ano no Instituto Nacional do Câncer. As células vieram de um banco público de cordão umbilical. “O tratamento salvou a vida do meu filho”, diz a mãe, Vanessa Salaroli, 26 anos. No futuro, as soluções poderão ser mais fáceis.

Polêmica brasileira
O Supremo Tribunal Federal marcou para dezembro o julgamento do processo que decidirá o futuro das pesquisas com células-tronco embrionárias no Brasil. Elas foram autorizadas pela Lei de Biossegurança, de 2005. Mas, dois meses depois, o então procurador-geral da República Cláudio Fonteles entrou na Justiça pedindo sua proibição. Há uma tendência positiva pela liberação. Aposta-se dez por um que o ministro Carlos Aires Brito, relator do processo, vá se posicionar neste sentido. “É bom saber que a ciência encontrou uma outra via para chegar à célula-tronco embrionária além daquela que envolve a delicada questão do uso de embriões”, disse ele à ISTOÉ. Enquanto a decisão final não sai, os estudos estão liberados.

Fonte: Revista Isto É, edição de 26.11.2007

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