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Sonorexia, a mania de não querer dormir 16/10/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Qualidade de vida.
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Junte as exigências de estudos e de trabalho com a oferta de lazer e serviços 24 horas e você tem tudo para entrar nesta perigosa rotina

SÍMBOLO IMAGENSTodas as noites é a mesma coisa. Humberto M, 28 anos, executivo, sai do trabalho após as 20 horas, enfrenta 45 minutos de trânsito, e vai buscar a namorada para pegar a última sessão de cinema ou encontrar com os amigos num pub. Dormir? Só depois das duas da madrugada.

Com Cynira W, 31 anos, é diferente. Ela usa o horário pós-trabalho, em torno das 21 horas, para ir às compras, papear com os amigos ou malhar na academia. Chega em casa ‘religiosamente’ à uma da madrugada. Toma um bom banho e vai para a cama com o notebook para responder e-mails, conversar com os ‘net amigos‘… Sim, ela dorme, mas sempre com o relógio apontando para as 2h30.

Tudo estaria bem, se os dois entrevistados não precisassem chegar ao trabalho às 8 horas da manhã — o que significa acordar às 7, isto é, dormir cerca de cinco horas por noite. Na verdade, o que eles melhor fazem é engrossar as estatísticas de pessoas que exageram na privação do sono, ou seja, praticam a sonorexia, termo não oficial para definir o problema.

UM NOVO TERMO
Sonorexia, palavra que une sono + anorexia não é ainda o nome científico para o exagero da privação do sono — e entende-se como exagero dormir menos de sete horas por noite de segunda a sexta-feira.“Para o termo ser adotado é preciso uma série de análises, pesquisas e estudos. Nos anos 1969/70, a hipertensão só teve seu nome oficializado após este processo”, explica Flávio Aloe, neurologista e especialista em medicina do sono do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo.

O que leva alguém a esse ponto, geralmente, é a sensação de não conseguir dar conta de tudo o que se quer ou precisa fazer nas 24 horas do dia. Aí, voluntariamente — sim, pois a sonorexia não é uma síndrome, mas um mau hábito com conseqüências diversas sobre a saúde — a pessoa se priva das horas de sono a que o seu organismo precisa e tem direito.

A PESSOA QUE SOFRE DE INSÔNIA SE ESFORÇA PARA DORMIR. NA SONOREXIA, O ESFORÇO É PARA SE MANTER MAIS HORAS ACORDADA

O problema pode até começar devido a uma real falta de tempo, mas tende a se tornar crônico quando a pessoa ‘descobre’ que dormir menos significa aproveitar mais o tempo.

Isso pode chegar a ponto de dormir apenas duas ou três horas por noite — as baladas, os bares e os restaurantes estão lotados de ativos sonoréxicos.

Argumento de peso para mulheres
Estudo realizado nos Estados Unidos, pela Sociedade Torácica Americana, revelou que mulheres que dormem em média cinco horas ou menos têm 32% de chances a mais de ganhar peso e 15% de probabilidades de se tornarem obesas — percentuais que não assombram as que dormem pelo menos sete horas por noite. “A tendência do organismo é ‘recompensar’ o pouco sono com maior ingestão calórica e melhor aproveitamento das refeições. O pior é que o corpo se reprograma para este novo ritmo e mesmo que a pessoa volte para uma rotina saudável, por um bom tempo ela vai manter a tendência para engordar”, alerta o neurologista Flávio Aloe. Isso foi comprovado.

SÍMBOLO IMAGENS

Atrasando o cérebro
É verdade que cada organismo tem a sua própria quota saudável de horas dormidas e que este número varia de pessoa para pessoa. Mas a boa média é entre sete a oito horas diárias. Ao perder mais da metade desse tempo, o sonoréxico priva áreas-chave do seu cérebro de processos importantes, que só ocorrem enquanto dormimos.

“A rotina de dormir menos pode comprometer, por exemplo, a capacidade de julgamento do indivíduo sobre coisas simples como virar à esquerda ou à direita”, explica Flávio Aloe, neurologista e especialista em medicina do sono do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Algumas conseqüências da privação de sono são conhecidas e fáceis de perceber, como a sonolência diurna e reflexos menos rápidos e certeiros. “Mas outras ocorrem no processo de produção ou retenção de substâncias químicas que agem no cérebro, e a extensão de seus danos ainda não são conhecidas a fundo”, ilustra Aloe.

Os efeitos podem ser ainda mais danosos no cérebro das crianças, especialmente quando estão em fase de estudo e aprendizado.

A MANIA PODE COMEÇAR POR PRESSÕES TEMPORÁRIAS DE TRABALHO. O RISCO É SE TORNAR ROTINA PARA FAZER O TEMPO RENDER MAIS

RISCO TAMBÉM PARA AS CRIANÇAS
A chamada sonorexia é uma ameaça também às crianças, que, para acompanhar a rotina dos pais que dormem tarde, passam a perder horas de sono assistindo TV ou jogando games no computador. Os especialistas alertam que os pequenos precisam dormir de 9 a 11 horas por noite, para que não fiquem irritadiças durante o dia e não sejam prejudicadas na sua capacidade de aprendizado e de concentração. É importante lembrar ainda que a produção do hormônio do crescimento, o GH (Growth Hormone), diminui quando se dorme menos
AFINAL, O DIA TEM 24 HORAS…
Cada vez mais as grandes cidades oferecem serviços noturnos, até ou durante 24 horas — de restaurantes a supermercados e academias. Isso pode levar a pessoa a deixar algumas coisas para ‘mais tarde’, dando início a um perigoso círculo vicioso. Os estudiosos garantem: sete a oito horas de sono é tão importante para a saúde de um adulto quanto a alimentação correta e a prática de exercícios. Dormir menos diminui o vigor físico, causa envelhecimento precoce e torna a pessoa mais propensa a infecções, obesidade, hipertensão e diabetes. Também dificulta acumular conhecimento, traz alterações de humor e compromete a criatividade, a memória e o equilíbrio.

“As microlesões cerebrais que se criam a partir da privação de sono num cérebro em formação são irreversíveis, comprometem o aprendizado e o futuro da pessoa”, ressalta o neurologista. “À medida que se recupera o tempo perdido de sono, os efeitos e sintomas tendem a diminuir, mas nunca todo o prejuízo será compensado”, alerta o médico do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Desconstruindo o sono
O publicitário Marcelo de Freitas, 27 anos, é um exemplo de que a sonorexia não tem preferência só pelos que gostam de uma baladinha ou varam a noite se distraindo de alguma forma.

No caso dele, foi o excesso de compromissos profissionais — o que é comum hoje em dia — que o fez optar pelas horas da madrugada para trabalhar no computador e garantir o fim de semana livre e agradável. “Eu dormia às 8h15 e estava de pé às 9h30. Todos os dias, durante semanas”, relembra.

“Num dado momento me acostumei, achei que seria possível ficar nesse esquema. Mas no sábado e domingo eu estava tão cansado e atordoado que não conseguia aproveitar meu tempo livre”, desabafa.

AS HORAS PERDIDAS DE SONO NÃO SÃO RECUPERADAS DORMINDO A MAIS NO FIM DE SEMANA. A LEI DA COMPENSAÇÃO NÃO FUNCIONA NESTE CASO

O administrador de restaurante André Barbosa e a namorada também vivem sob a ameaça da sonorexia crônica. “Eu e minha namorada temos horários diferentes”, diz Barbosa, que encerra seu turno geralmente às 3 horas da madrugada. “Ela trabalha numa ótica e sai às 17 horas. Quando eu chegava em casa, ela já estava dormindo. Um dia resolvemos mudar isso e passamos a dormir em escalas, dormindo menos para ficarmos juntos algumas horas por dia”.

Mas como no filme ‘Feitiço de Áquila’, em que o marido amaldiçoa a mulher que o traiu e o amante, transformando-os em dois animais que precisam de horários diferentes para viver, o esquema não está funcionando. “A gente não dorme direito durante a semana e estica o sono no final da semana. Mas continuamos cansados”, conclui.

Isso acontece por um simples motivo: está cientificamente comprovado que quando dormir menos se torna uma rotina, não é possível recuperar horas de sono para o organismo.

Inversão perigosa
Antes de justificar o ‘roubo’ das suas horas de sono é importante saber:
● A queda na produção do hormônio do crescimento pela privação do sono abala o organismo. O GH é responsável pelo tônus muscular, evita o acúmulo de gordura, melhora o desempenho físico e combate a osteoporose.
● A leptina, que responde pela sensação de saciedade, também tem a sua produção diminuída com a rotina de dormir menos. Isso nos faz ingerir mais carboidratos e engordar.
● A falta de sono eleva o cortisol, hormônio do estresse que aumenta as taxas de açúcar no sangue. Resultado: o estudo mostrou que homens que dormiram quatro horas por noite durante uma semana apresentaram pré-diabetes.

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Fonte: Revista Viva Saúde – outubro de 2007

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