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Doses de ioga 25/07/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Qualidade de vida.
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A recomendação não é só para relaxar ou meditar, nem restrita a vegetarianos ou àquela turminha zen. Agora, até mesmo os médicos têm indicado a técnica milenar para o tratamento de várias doenças. E o que é melhor: praticamente não há contra-indicação

POR RENATA AFONSO

FOTOS CAIO MELLO

Variação da uttkatasana ou ‘postura poderosa’ – aumenta o fluxo de sangue nas costas, aliviando tensões e dores. Massageia os órgãos e coloca o ORGANISMO EM ORDEM

Até pouco tempo, deste lado do mundo, acreditava-se que a técnica indiana milenar, que une exercícios, relaxamento, controle respiratório e meditação, só funcionava para quem adota um estilo de vida zen, não come carne, odeia os padrões de beleza disseminados pelo mundo e se preocupa muito mais em cuidar da mente do que do corpinho. O ocidente, porém, está mudando a maneira de enxergar a ioga.Várias pesquisas têm comprovado – e isso era o que faltava para chamar a atenção dos ocidentais mais céticos – que a prática é capaz de promover maravilhas ao organismo e ajudar a medicina a resolver inúmeros problemas de saúde. Resultado: nas aulas de ioga, é crescente o número de sedentários, fumantes, gestantes, idosos, enfim, de pessoas que procuram a prática por indicação médica. “Tenho vários alunos que fazem aula porque o médico pediu. São pessoas com bronquite, asma, depressão, problemas cardíacos e até lúpus, uma doença inflamatória de causa desconhecida, que ataca o sistema de defesa do organismo. Com a ioga, os pacientes respondem mais rápido aos tratamentos”, afirma a professora Lúcia Sandri, do Centro Integrado de Yoga, Meditação e Terapias.

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virabhadrasana ou “postura do guerreiro” – fortalece os membros inferiores, estimula a força de vontade, a determinação e a disciplina. Desenvolve a CONSCIÊNCIA CORPORAL

Para muitos médicos ocidentais, ela é uma poderosa ferramenta até nas situações mais graves. “Tem paciente que não pode fazer ginástica porque está acamado, mas pode fazer ioga”, afirma Marcos Rojo Rodrigues, professor de educação física da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do curso de pós-graduação de ioga das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). O especialista lembra, porém, que a ioga não substitui o tratamento convencional. “O ideal é que os dois – a medicina e a ioga – trabalhem juntos”, avalia.

O médico naturalista Cesar Deveza, da Clínica Yam, em São Paulo, indica a ioga para todos os seus pacientes. “Ela não surgiu especificamente para tratar doenças, mas para trazer saúde. A ioga reduz o nível de estresse. A pessoa respira, come e dorme melhor. E a qualidade de vida também melhora”, explica.

O ortopedista esportivo Teodomiro Rodrigues da Cunha Neto, do Hospital e Maternidade São Luis, em São Paulo, também concorda com a prescrição da ioga. “Pode-se recomendar para o alívio de quase todas as doenças. É um complemento eficaz ao tratamento clínico e sem efeito colateral”. O médico só ressalta que algumas posições devem ser evitadas, dependendo do problema de saúde. “Eu costumo dizer ao meu paciente o que ele pode ou não pode fazer”, revela. Na opinião do médico, a ioga ajuda na área de ortopedia, porque os exercícios de respiração aumentam a oxigenação dos tecidos inflamados, melhorando a condição das regiões musculares e das articulações comprometidas. “O paciente se sente mais a vontade do que em uma sessão de fisioterapia. Durante as aulas, a sensação é de que ele não está mais doente”, comenta Teodomiro.

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matsyendrasana ou “rei dos peixes” – massageia os órgãos abdominais (estimulando os ovários, por exemplo). Por isso, é indicada em casos de DISTÚRBIOS HORMONAIS. A posição também trabalha a musculatura da coluna, dos glúteos e do quadril

O professor de ioga Rui Afonso, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), lembra que há várias pesquisas feitas no ocidente que confirmam a importância da ioga para a saúde do ser humano. “Há estudos que comprovam as melhorias em casos de epilepsia, problemas respiratórios, enxaqueca e até câncer. Afinal, os remédios e os procedimentos médicos funcionam melhor quando em um organismo equilibrado”, explica. E este equilíbrio a ioga garante. Na Unifesp, Rui desenvolve um mestrado em que aplica a técnica em mulheres que estão na menopausa e que sofrem de insônia. “São praticantes que nunca tiveram contato com a filosofia da técnica, e, mesmo no início, elas já relatam diminuição dos sin tomas da menopausa, como os famosos fogachos”, conta. Mas os benefícios da técnica para as mulheres não param por aí.

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vrkshasna ou “postura da árvore” – a coluna fica estendida, por isso favorece a consciência corporal. Traz harmonia e paz interior. Perfeita para driblar o ESTRESSE

Liberada na gestação

A ioga aumenta o contato da mãe com o bebê durante a gravidez. “Além disso, nas aulas a gestante treina a respiração e chega com mais calma na hora do parto”, revela a professora Márua Pacce, do Núcleo Ganesha, em São Paulo. Segundo a especialista, as diferentes posturas da ioga são adaptadas às fases da vida. “Para as grávidas, selecionamos exercícios indicados para eliminar as dores nas costas e para fortalecer a musculatura pélvica e das coxas. “Elas só precisam da autorização do médico para praticar, especialmente no caso de gravidez de alto risco”, avisa.

A socióloga Luciana de Medeiros Cestari praticou ioga durante a gestação da segunda filha. A pequena Alice nasceu há dois meses. “Na minha primeira gravidez fiz natação. Nesta optei por fazer algo diferente”, ressalta. “Desta vez tive menos dores nas costas e a minha circulação estava bem melhor”, compara.

Para Luciana, que parou com a técnica duas semanas antes do parto, o período dedicado à ioga também foi bom para manter um contato maior com o bebê. “Com a correria do diaa- dia, a gente até esquece que está grávida. Na aula, eu relaxava. Era uma hora do dia totalmente dedicada à minha gestação”, conta.

Por essas e outras razões, a ginecologista Carolina Ambrogini, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), costuma indicar a ioga para as gestantes. “A técnica traz equilíbrio e trabalha a respiração. As gestantes ficam mais tranqüilas, menos ansiosas e com mais autocontrole. E pode ser feita até o final da gravidez, desde que se evite algumas posições”, alerta.

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gonukhafana ou “cara da vaca” – abre o peito e estimula a musculatura respiratória (bom contra DOENÇAS COMO ASMA, BRONQUITE E RINITE ALÉRGICA). Também age no estômago, fornecendo o sistema digestivo

Para pais e filhos

Trabalho feito em uma universidade da Alemanha concluiu que a ioga é um tratamento complementar, indicado para crianças com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), uma vez que exige concentração e reduz a ansiedade. De acordo com a pesquisa, a técnica, mais do que outras atividades físicas e esportes comuns nessa idade, auxilia na redução dos sintomas do distúrbio. Aqui no Brasil, entre outros benefícios, a técnica é aplicada em meninos e meninas com distrofia muscular, doença genética e ainda sem cura, que causa degeneração progressiva nos músculos que envolvem todo o corpo – isso inclui aqueles envolvidos no sistema respiratório.O professor de educação física Marcos Rojo desenvolve um projeto com crianças portadoras dessa doença no Hospital das Clínicas, em São Paulo, como tese de mestrado no departamento de neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Uma vez por semana, noventa crianças, em média com 12 anos de idade, fazem ioga. “Comecei esse trabalho em 2005 e, desde então, as crianças apresentaram uma melhora de 10% na capacidade respiratória”, conta Marcos Rojo. Os portadores de distrofia muscular, explica o professor, costumam ficar dependentes de aparelhos para respirar por volta dos 14 anos de idade. “Com a ioga, eles estão retardando este processo, precisando do aparelho só aos 16 anos”, comemora. Os jovens são orientados para continuar com os exercícios em casa.

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uttkatasana – “postura poderosa” – fortalece as pernas e os músculos das costas. Dá sensação de força interna e melhora a auto-estima. Por isso é indicada contra DEPRESSÃO. Desobstrui os canais de energia dos membros inferiores, o que melhora a CIRCULAÇÃO DO SANGUE e evita DORES NAS PERNAS

Além de um escudo contra doenças

Investir na ioga é um caminho para adotar uma nova postura diante da vida. E, o que é melhor, esta mudança ocorre de forma natural, garantem os especialistas.

Muitos pacientes que começam a praticar ioga por recomendação médica continuam com as aulas, mesmo depois que o tratamento convencional chega ao fim. E os professores garantem: os hábitos desses novos alunos costumam mudar. A começar pela alimentação.

O praticante não vai virar, necessariamente, um vegetariano, mas passa a preferir alimentos mais leves e naturais. “Ele começa a ter enjôo de certos alimentos. O corpo diz o que não quer mais”, diz a professora de ioga Márua Pacce.

Praticante de ioga há dois anos, a aposentada Irene Guilhermina Marceli, de 66 anos, disse que mudou depois da aulas. Carne vermelha não saiu do cardápio, mas agora é só de vez em quando. “Eu me identifiquei com a ioga, fiquei mais leve, mais calma”.

A pessoa presta mais atenção a si mesma, percebe melhor a respiração e aprende a controlá-la. A resposta para a redução do estresse é imediata. “Com as aulas, o aluno se sente melhor, pois tenta encontrar harmonia. Torna-se mais responsável por sua saúde, fica mais consciente. Escolhe melhor os ambientes que freqüenta e até os amigos. A ioga coloca você em outra vibração”, acredita Márua.

O praticante não vai virar, necessariamente, um vegetariano, mas passa a preferir opções mais leves e naturais, frutas, verduras, legumes, versões integrais de produtos. “ele começa a ter enjôo de certos alimentos. o corpo diz o que não quer mais”, afirma a professora de ioga márua pacce

“Achava que só era para relaxar”
Comer estava virando um tormento para Renata Barros Obara. Aos 26 anos, a comerciante não conseguia abrir a boca mais do que um centímetro. “Estava com problema na articulação. Tinha que empurrar o alimento entre os dentes. Muitas vezes só conseguia engolir miolo de pão”, conta. Renata também sofria com as fortes dores. “Tomava remédio e nem sempre adiantava”, diz. Há um ano, além de usar uma placa nos dentes para dormir, a jovem foi aconselhada pelo dentista a praticar ioga. “Nunca tinha feito. Achava que era para quem vivia estressado e precisava relaxar”. Estava enganada. Com as aulas, uma vez por semana, Renata afirma que se sente muito bem. Agora já consegue abrir a boca e se alimentar direito. “Nem imaginava que a ioga poderia me ajudar. E ajudou bastante. As dores passaram”, comemora aliviada.

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janurdwasana – “postura elevada do joelho” – melhora o equilíbrio físico e emocional. Trabalha postura (posição que ajuda em caso de ESCOLIOSE) e alonga os músculos internos da coxa

“Por que não descobri isso antes?”
A aposentada Cleusa Perlato, de 62 anos, já tinha ouvido falar em ioga, mas nunca tinha praticado. O início foi há três anos por indicação de um reumatologista. “Gostei de cara”, diz. Ela sofre de fibromialgia há duas décadas. A doença provoca dores constantes nas articulações. “Já nos primeiros exercícios me senti bem. Fazer ioga ajudou bastante. Ainda tenho dores, mas são menos intensas. Antes, era horrível”, conta Cleusa. Além de diminuir a dor e melhorar a qualidade de vida, a ioga ajudou a aposentada a relaxar. “Você aprende a se controlar quando precisa”. No início do ano, Cleusa não tinha tempo para a ioga e precisou interromper as aulas. Sentiu a diferença. “Eu vejo o resultado negativo quando paro”, avalia. Há pouco tempo, resolveu voltar à prática. A aula com orientação de uma professora é feita uma vez por semana. Mas todas as tardes, durante 20 minutos, Cleusa faz ioga em casa, sozinha. “Quando não pratico fico com o corpo pesado. Sinto falta. E vivo me perguntando: por que não descobri isso antes?”.

“Foi a ioga que me curou”
A advogada Miriam Barone acredita que a ioga foi a responsável pela cura de um problema de saúde que ela teve há 13 anos. “O braço e o punho começavam a formigar, ficavam adormecidos”, lembra. A advogada, que sofria da síndrome do túnel do carpo (problema que causa pressão no nervo mediano, localizado no punho, provocando dormência e formigamento na mão), também perdeu a segurança nas mãos. “Tinha medo de dirigir. A impressão é que não conseguia segurar nada”. À noite, incomodada com as dores, a advogada ficava girando o braço o tempo todo e enrolando-o em cobertores. “Meu marido achava que eu estava louca. Mas era a dor”, conta. Na consulta médica, a advogada foi encaminhada para a cirurgia. Miriam comentou o assunto com a professora de ioga, que resolveu intensificar os exercícios na região dos braços e da mão. “Foi uma ioga localizada”, explica. A medida deu resultado, segundo a advogada. Quando voltou ao médico, a cirurgia foi descartada. “Ele não acreditava no resultado”. As dores foram desaparecendo aos poucos e nunca mais voltaram. “Tenho certeza que foi a ioga que me curou”, acredita Miriam, adepta da ioga há 23 anos.

Fonte: Revista Viva Saúde, julho de 2007

Comentários

1. Yôga e TDA-H « - 27/03/2011

[…] fontes: Folha.com , Esclerose Multipla […]


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