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Tudo por uma segunda vida 18/07/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Qualidade de vida.
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Ser outra pessoa, ter coisas que você não tem e dizer o que não tem coragem são propostas tentadoras de universos virtuais como o Second Life. Mas até que ponto toda essa fantasia pode mexer com a sua cabeça?

POR STELLA GALVÃO | ILUSTRAÇÃO BUSSADORI

Quem um dia já não sonhou ser um empresário famoso, um ícone pop mundial ou até mesmo o superman? Em Second Life, você pode ser e ter o que sempre quis. Dizer o que está preso na garganta. “Neste universo paralelo, a sua imaginação é o verdadeiro limite!” É exatamente assim que aquele que acessa o site http://www.secondlifebrasil.com.br é recebido, com promessas de uma nova vida moldada pela fantasia.

O recente fenômeno acompanha a onda tecnológica que envolve a exploração de recursos de entretenimento para as milhares de pessoas que acessam a cada fração de tempo, em escala planetária, a rede mundial de computadores. Febre do momento, o SL quer reproduzir a vida como ela é, mas com glamour e sem as neuroses do cotidiano. Já despontam, por exemplo, lojas, bancos, estúdios de TV, shows de rock e boates.

O Second Life foi lançado há quatro anos pela empresa norte-americana Linden Lab, mas estourou mesmo a partir de 2006, alcançando mais de seis milhões de cadastrados. A versão em português conta com mais de 230 mil residentes, como são chamados os que ingressam na condição de avatares, clones digitais, cuja forma e aparência são determinadas pelo interessado. Os donos do universo digital esclarecem: “não se preocupe se não ficar bom na primeira vez, você pode trocar sua aparência a qualquer hora”. É cirurgia plástica instantânea e em tempo integral mesmo!

Universo paralelo
“As pessoas que se cadastram são mais do que internautas ou usuários. São residentes de um universo on-line onde é possível voar ou se teletransportar, trabalhar, fazer novos amigos, estudar, criar produtos e obras de arte, passear, namorar, fazer compras, vender, dançar, anunciar”, explica Emiliano de Castro, diretor de marketing do Second Life Brasil. O fenômeno já foi abarcado até pelas telenovelas. Em junho, por exemplo, a rede Globo de televisão resolveu inovar e, em vez de oferecer uma festa real para lançar a sua nova novela Sete Pecados, patrocinou uma balada no Second Life. Compareceram os avatares do autor e do diretor da novela e também dos personagens, neste caso uma redundância. Afinal, avatares já são personagens.

Várias empresas dedicam-se a lançar produtos nesse universo on-line. E não apenas por uma questão de imagem. Os avatares podem fazer compras no SL com o cartão de crédito emprestado dos humanos que os produziram. “É um mundo virtual em termos. À medida que esse avatar entra na loja da Nike e compra um tênis com o crédito nominal real e não com o nome avatar, há nesse momento uma duplicidade de personalidade”, diagnostica o psicoterapeuta e psiquiatra José Thomé, coordenador do Departamento de Psicoterapia da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e professor no Instituto Sedes Sapientae (PUC-SP).

E como fica a saúde mental?
Além da tremenda oportunidade de marketing e comércio, mundos paralelos virtuais podem simplesmente ser uma forma extra de diversão e de maior interação social, como avalia o psiquiatra Aderbal Vieira, coordenador do Ambulatório de Tratamento de Dependências Não Químicas do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Proad- Unifesp). É uma forma, também, de fantasiar desejos não satisfeitos. “Em uma sociedade de consumo como a que vivemos, as pessoas podem criar personagens com poder, sedução e beleza que estão longe de corresponder à vida real”, explica o psiquiatra.

Por outro lado, como no mundo virtual o risco das ações desses ‘clones’ ter alguma conseqüência é muito menor, a proteção do anonimato pode ressaltar características pessoais, boas ou más. “Se o indivíduo é razoavelmente saudável aqui fora, ele apenas veste um personagem que pode até ser preconceituoso, mas deixa a fantasia de lado ao desligar o computador”, observa o médico. Nesse aspecto, ele pondera, a criação de um avatar pode funcionar até terapeuticamente, porque a pessoa pode usálo para exorcizar seus monstros no ambiente virtual. Para José Thomé, da ABP, tais ambientes são uma forte evidência de que a experiência afetiva na relação humana está decaindo, com a permanência do desamparo e do isolamento social do ser humano. “Ninguém mais vai a festas, mas a eventos massificados”, critica.

O risco de dependência
Um dos pacientes do psiquiatra Cristiano Nabuco, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP), resumiu assim o estágio em que se encontrava em relação a ambientes on-line: “a internet é meu antidepressivo virtual”. É a tal dependência psicológica, demonstrada em relação a diversos artefatos tecnológicos, como os blackberry (misto de celular e palm top com acesso à internet), recursos que vão se somando e colaboram para criar mais ansiedade. “O risco é justamente que a pessoa se torne dependente ou usuário com pulsivo desses mundos virtuais, como forma de tentar conter a própria insatisfação e, eventualmente, uma depressão”, alerta o médico que trabalha no Ambulatório de Transtornos do Impulso do HC-USP, onde são também tratados casos de uso exagerado da internet.

Esse tipo de dependência, ainda pouco descrita na literatura médica, é abordada basicamente com psicoterapia. No programa de 18 semanas criado no Instituto de Psiquiatria do HC, os dependentes aprendem a lidar com as frustrações e as expectativas que os levaram a esse grau de compensação via on-line.

Não se trata, conforme esclarece Cristiano Nabuco, de simplesmente condenar a novidade. “Não é só porque se usa a internet que a pessoa corre o risco de se viciar. Se fosse assim, todo barman seria alcoólatra, e não é o caso”, compara. Ele observa, porém, com base em dados reais do grupo atendido no HC e no seu consultório, que a maioria dos usuários de ambientes virtuais procura, de fato, um refúgio para algo que não consegue vivenciar de modo satisfatório na vida real. E, segundo o médico, essa busca desenfreada em direção ao universo on-line se enquadra na categoria dos transtornos do controle do impulso — na qual são incluídos ainda o jogo, o sexo e as compras compulsivas, sem freios. “Não se trata de restringir o acesso, portanto, mas de devolver a perspectiva do autocontrole a esses pacientes.”

DIVULGAÇÃO

UM ATRATIVO PARA QUEM?
Segundo especialistas, todo mundo é candidato a fascinar-se com a ilha da fantasia proposta por modelos de universo paralelo como o Second Life. “Por outro lado, os sites não teriam poder de exercer fascínio se as pessoas já não estivessem carentes”, acredita Cristiano Nabuco. “Quem tem dificuldades de viver as relações é mais propenso a buscar guarita em um mundo fantasioso”, afirma o psiquiatra Aderbal Vieira, coordenador do Proad. De modo geral, são pessoas muito tímidas, com baixa autoestima, síndrome do pânico e agorafobia que necessitam buscar contato com o mundo real. Se apenas usarem a internet como um recurso extra, ok. Mas… “Quem tem este perfil tende a exagerar no uso dessa espécie de escape da realidade”, diz o especialista. É só imaginar um deprimido, que pega o restinho de ânimo que sobrou para entrar no Second Life. Será que ele melhora? Não, diz o médico, porque o problema só mudou de endereço.

GLOSSÁRIO SECOND LIFE
• METAVERSO: é um ambiente virtual que mimetiza o mundo real.
• SECOND LIFE: um metaverso, universo em três dimensões on-line.
• AVATAR: é a representação de cada pessoa no Second Life. As personagens virtuais têm rosto e corpo personalizados e interagem com os outros residentes.
• RESIDENTE: é o habitante do universo tridimensional on-line.
• RL: sigla em inglês para “real life”, ou vida/mundo real.
• IN-WORLD: é a vida dentro do metaverso.

Fonte: Revista Viva Saúde, julho de 2007

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