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Combinações Explosivas 21/05/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Qualidade de vida, Utilidade pública.
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Muita gente nem imagina o que está detonando ao tomar medicamentos diferentes e de uma tacada só. Os danos para o organismo podem ser fatais

 

Valer-se de remédios ao belprazer. Deixar de ler bulas. Ingerir cápsulas ou comprimidos para fins diversos. Eis aí a receita de um coquetel molotov capaz de mandar a saúde — em alguns casos, a própria vida — para o espaço. Trata-se do que os especialistas denominam de interação medicamentosa. Em outras palavras, é o que acontece quando o princípio ativo de uma determinada droga, a substância que produz os efeitos terapêuticos esperados, interfere na atuação do composto de outro remédio. A combinação química, então, é capaz de gerar resultados diversos.Pode ocorrer o que é definido como sinergia. “Nesse caso, uma medicação acaba potencializando a ação da outra”, explica Roberto Belo Pereira, coordenador do Centro de Informação e Assistência Toxicológica do Rio de Janeiro, que fica na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Situação inversa também pode ocorrer, ou seja, uma droga anularia o efeito da outra, configurando-se o chamado antagonismo. A interação medicamentosa é um problema mais comum do que se supõe. “Não só no Brasil, mas em todo o mundo”,revela o clínico geral Paulo Olzon, da Universidade Federal de São Paulo. “No entanto, não temos idéia de sua dimensão”, completa o médico sanitarista José Ruben de Alcântara Bonfim, coordenador executivo da Sociedade Brasileira de Vigilância de Medicamentos.

Em terras brasileiras o quadro talvez seja até mais grave. Isso porque, como lembra Bonfim, as pessoas têm acesso indiscriminado a quase todo tipo de remédio nas farmácias nacionais, mesmo àqueles que requerem a apresentação de receita. “Além disso, mesmo os medicamentos de venda livre, os OTC*, podem interagir com aqueles adquiridos sob prescrição”, alerta o médico sanitarista. “O pior é que há muitos indivíduos que não consideram os OTC como verdadeiros remédios”, acrescenta Bonfim. Sem falar, é claro, de quem tem preguiça de passar os olhos pela bula, que obrigatoriamente deve informar sobre prováveis interações. Médicos que se esquecem de indagar aos pacientes que tipo de medicação eles estão tomando também facilitam a ocorrência de misturas desastrosas. “Em geral, poucos fazem esse tipo de pergunta nos pronto-socorros de hospitais”, lamenta Olzon.
*SIGLA EM INGLÊS PARA “OVER THE COUNTER”, OU “SOBRE O BALCÃO

No nosso organismo, o fígado é o grande palco onde se desenrola essa história de interação medicamentosa. “Grande parte dos remédios é quebrada ali”, diz Roberto Belo Pereira. No órgão há um sistema de enzimas de nome complicado, o citocromo P-450. Sua função é justamente dar cabo de forma rápida dos medicamentos que aportam por lá. Dessa forma, quando duas medicações diferentes são ingeridas num curto intervalo de tempo, é como se essa estrutura não desse conta de tanto trabalho. “O citocromo começa a degradar uma substância e, logo em seguida, chega mais um composto para ser processado. Ele provavelmente não será destruído e ficará circulando por mais tempo no corpo”, explica Pereira. Daí o efeito de um remédio pode sair pela culatra ou ser turbinado.

“Algumas drogas também se ligam a proteínas para serem transportadas pela corrente sangüínea”, conta Paulo Olzon. Assim, com mais de uma medicação em cena, inicia-se uma espécie de competição pelo veículo que as carrega. No final do jogo, uma delas fica solta no sangue, causando confusão. Os remédios, entretanto, não reagem somente entre si. Até bebidas e alimentos podem influir na sua absorção. É o caso do suco de laranja.
“A eficácia do atenolol, um remédio para pressão alta, diminui em 49% quando ele é ingerido com o suco”, exemplifica Patrícia Medeiros de Souza, professora de farmacologia da Universidade de Brasília. A especialista fez um levantamento de combinações desastrosas como essa. A seguir você confere algumas delas e outros exemplos de interações pesquisados pela SAÚDE!

Evite tomar medicamentos com chás ou outras bebidas. O mais aconselhável, quando for o caso,é ingeri-los com a boa e velha água

ANTICONCEPCIONAL + ANTIBIÓTICO

Está na bula do anticoncepcional: seu efeito é reduzido quando é consumido com um antibiótico. Isso ocorreria porque, lá no fígado, as enzimas responsáveis por processar os remédios passariam a trabalhar a mil, o que diminuiria por tabela a ação da popular pílula. Ou seja: se os dois medicamentos forem tomados conjuntamente, aumentarão as chances de a cegonha anunciar uma gravidez.

ANTICONCEPCIONAL + VITAMINA C (ACIMA DE 1 GRAMA)
Doses elevadas do suplemento vitamínico aumentam os níveis do hormônio da pílula, o etinilestradiol, no sangue. Com isso, seus possíveis efeitos colaterais — para mulheres sensíveis a eles, claro — também vão às alturas.

ANTIÁCIDO + ÁCIDO ACETILSALICÍLICO
Eis uma interação pra lá de comprovada. Da dupla, quem sai perdendo nesse encontro farmacológico é o ácido acetilsalicílico, ingrediente de analgésicos bem famosos, cujo efeito despenca.

ANTIÁCIDO + ANTIINFLAMATÓRIO
“O pH do estômago precisa ser ácido, ou seja, em torno de 3, para que o antiinflamatório seja bem absorvido”, explica Patrícia Medeiros de Souza. Como o próprio nome entrega, o antiácido tem uma ação contrária. Dessa forma, diminui-se a absorção do medicamento contra inflamações.

CUIDADO COM OS CHÁS
Eles não combinam nada, nada com medicamentos. O de camomila, por exemplo, interage com o ácido acetilsalicílico, exacerbando seus efeitos. “Há uma inibição da agregação das plaquetas, moléculas envolvidas com a coagulação do sangue, o que favorece a ocorrência de hemorragias”, alerta Patrícia Medeiros de Souza. Além disso, os chás em geral diminuem a motilidade do estômago. No final das contas, isso pode interferir no processo de absorção do remédio.

ANTIÁCIDO + SUPLEMENTOS DE VITAMINA C
Essa associação deve ser evitada em indivíduos que sofrem de insuficiência renal. Com a vitamina, o alumínio presente em alguns antiácidos acaba sendo absorvido em maior quantidade pelo sistema digestivo, o que pode não ser bom quando os rins já não trabalham direito. Pode ocorrer uma intoxicação aguda, provocando de convulsões a coma.

ANTIÁCIDO + ANTIBIÓTICO

Os antibióticos da classe das quinolonas, como a tetraciclina, perdem até 75% de sua atividade quando engolidos com antiácidos em um curto intervalo de tempo.

ANTIINFLAMATÓRIO + LÍTIO
O lítio é um antidepressivo que pode apresentar toxicidade se associado a um antiinflamatório.”Essas drogas diminuem a eliminação do lítio”, revela Roberto Belo Pereira. Resultado: fraqueza, tremores, sede intensa e confusão mental.

ANTICONCEPCIONAL + ANTIBIÓTICO

ÁCIDO ACETILSALICÍLICO + ANTIINFLAMATÓRIO
O duo dá um basta em inflamações. Até por isso mesmo, quando consumidos juntos, há um aumento de seus efeitos colaterais, como a irritação da parede estomacal. “Essa interação é mais forte com o antiinfl amatório cetrofeno”, avisa Roberto Belo Pereira. O dicoflenaco, por outro lado, reduz a eficácia do ácido acetilsalicílico.

ÁCIDO ACETILSALICÍLICO + INSULINA
As taxas de açúcar no sangue vão lá pra baixo. Isso porque a atuação da insulina se torna bem mais acentuada com essa dupla.

ÁCIDO ACETILSALICÍLICO + ÁLCOOL
Eleva-se o risco de sangramentos no estômago. Não à toa. O ácido acetilsalicílico irrita a mucosa estomacal. O que seria um leve transtorno pode ser potencializado pelo álcool, que, convenhamos, não deve ser consumido com nenhum medicamento.

 

TETRACICLINA + LEITE
Ela e outros antibióticos como a ciprofloxacina e nofloxacina se anulam na presença da bebida. O cálcio do leite precipita o princípio ativo desse tipo de medicamento, que deixa de funcionar como deveria.

DIMENIDRINATO + DESCONGESTIONANTE NASAL
A combinação desse remédio para enjôo com o descongestionante nasal é responsável pelo aumento da freqüência do coração. Em indivíduos doentes, existe até o risco de uma parada cardíaca.

ANTIESPASMÓDICO + DESCONGESTIONANTE NASAL
Esse dueto estimula o sistema nervoso simpático, o encarregado de funções involuntárias no nosso corpo, como o controle da freqüência cardíaca. Ou seja, a dupla acima faz o coração trabalhar acelerado, além de dilatar os pulmões.

ANTIESPASMÓDICO + BRONCODILATADOR
A escopolamina, um tipo de antiespasmódico, por si só já eleva a freqüência cardíaca. Com o broncodilatador, o indivíduo pode chegar a sentir tremedeira ou ter convulsão e parada cardíaca.

ANTIESPASMÓDICO + ANTIDEPRESSIVO TRICÍCLICO
Boca seca, constipação, sonolência e aumento da freqüência cardíaca são alguns dos sintomas que vêm à tona devido a essa interação.

ANTIDEPRESSIVO TRICÍCLICO + ANTI-HIPERTENSIVO
Anti-hipertensivos como a clonidina e a metildopa têm sua atividade reduzida quando usados com esse tipo de antidepressivo.

ESTATINAS…
…não combinam com sucos e refrigerantes à base de grapefruit, fruta muito consumida nos Estados Unidos e que no Brasil é conhecida como pomelo ou toranja. Bastam 200 ml do suco para que as enzimas do fígado deixem de degradar o medicamento por 48 horas, o que pode levar a uma intoxicação. “Além disso, há o risco de haver perda do tônus muscular e parada cardíaca”, alerta Patrícia Medeiros de Souza.

Fonte: Revista Saúde é Vital, maio de 2007

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