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Emoções à flor da pele 07/05/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Qualidade de vida, Utilidade pública.
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Manchas, descamações, espinhas, verrugas, vitiligo, psoríase e até rugas… Você sabia que essas marcas e doenças dermatológicas são causadas por situações crônicas de estresse e ansiedade? Entenda por que a sua pele grita quando há um descontrole emocional e descubra como evitar esses problemas

Por mais que a gente cuide da pele, usando diariamente cosméticos adequados e protetor solar e até se submetendo a tratamentos estéticos para melhorar a aparência e prevenir o envelhecimento, nem sempre nossos esforços impedem o ataque de um vilão silencioso: o estresse. Isso porque a pele, o maior órgão do corpo humano, reage progressivamente aos hormônios do sistema nervoso central, como a adrenalina e o cortisol, cuja produção aumenta em situações de tensão ou ansiedade. Em excesso, eles prejudicam o sistema imunológico e aumentam a produção das glândulas sebáceas, duas conseqüências atrozes para impulsionar o surgimento de problemas dermatológicos — dos mais simples, como dermatites e micoses, até mais graves, como vitiligo e psoríase.

A pele tem relação estreita com a nossa mente e reflete muito do que se passa em nosso interior, pois é altamente sensível às nossas emoções. “Muita gente desempenha a atividade diária sob alto nível de estresse. É comum, porém, que após a conclusão da tarefa desenvolva uma gripe ou contraia algum outro vírus. A pressão contínua pode acabar com a resistência da pessoa, diminuindo a eficiência do sistema imunológico”, explica a psicóloga Ana Maria Rossi, diretora da Clínica de Stress e Biofeedback, em Porto Alegre (RS), e presidente da unidade brasileira da International Stress Management Association (Associação Internacional para Gerenciamento do Estresse — Isma-BR), com sede na mesma cidade.

Vários dermatologistas norte-americanos associam acnes, dermatites, irritações da pele e determinadas alergias ao nível de estresse do paciente. “Outra reação comum desencadeada pelo estado emocional são erupções causadas por vírus, como verrugas e herpes”, completa Ana.

“Há muita chance dos distúrbios aparecerem nas fases de esgotamento físico e mental e de noites maldormidas. Nas mulheres, o período da tensão pré-menstrual também pode ser crítico”, afirma a dermatologista Sandra Hugenneyer, de São Paulo.

E não é só o estresse negativo (o chamado distresse) — aquele que tensiona os músculos e causa dor de cabeça — que desencadeia disfunções cutâneas. O positivo, chamado eustresse, é gerado por situações felizes (casamentos, viagens, promoções, nascimentos) e pode acarretar as mesmas conseqüências se a pessoa transformar o motivo de alegria em paranóia. Não acredita? Quem nunca presenciou uma debutante eufórica, às vésperas do baile, ter um ataque histérico ao notar uma feridinha nos lábios? Ou, ainda, noivas que são surpreendidas por brotoejas ou vermelhidão no rosto ou nas mãos?

Em 2003, um estudo do Departamento de Psiquiatria da Universidade Western Ontario, no Canadá, concluiu que mais de 40% das manifestações cutâneas estão associadas a transtornos psíquicos. As chamadas psicodermatoses podem acometer ambos os sexos, em qualquer idade ou raça. Nas crianças, geralmente, os distúrbios acontecem por causa das pressões emocionais dos pais — para estudar, emagrecer, não faltar à aula…

Dos pés à cabeça
  Assim como a pele somatiza nossas emoções, o mesmo acontece com o couro cabeludo e o cabelo. Nervosismo, irritação constante e estresse funcionam, juntos, como o passaporte perfeito para a proliferação de fungos que provocam dermatite seborréica (a caspa). Nos períodos de extrema preocupação, as defesas do nosso organismo diminuem e os fios também ficam opacos, ressecados e sem brilho. Pior: podem despencar. A chamada alopecia aerata faz cair grandes tufos de determinadas áreas do couro cabeludo. O problema é mais comum entre os homens, mas as mulheres não são imunes ao distúrbio. “Nem as crianças, embora a queda seja menos significativa”, diz Sandra Hugenneyer. Por dia, nós perdemos cerca de cem fios de cabelo. Caso você note uma queda mais agressiva, procure um dermatologista. O tratamento é à base de loções tópicas e remédios via oral.
   

Difíceis de disfarçar
Das heranças que o estresse pode contribuir para deixar na pele, duas doenças dermatológicas são os principais alvos de estudo: o vitiligo e a psoríase, que, assim como as demais disfunções cutâneas, surgem na epiderme, a camada superficial da pele, mas têm efeitos devastadores para a aparência e a auto-estima.

O vitiligo é o resultado da autodestruição dos melanócitos, células que produzem os pigmentos que dão a cor à nossa pele. Face, mãos, braços, pernas e genitais ganham manchas esbranquiçadas, visíveis até na tez bem clarinha. “Protetores solares com alto fator são indispensáveis, porque a ausência de pigmentação torna a pele mais vulnerável ao câncer de pele”, explica a dermatologista Adriana Vilarinho. Já na psoríase, caracterizada pela formação de placas vermelhas, espessas e que descamam em regiões localizadas ou no corpo todo, a pele se renova em ritmo mais rápido que o normal. Em uma pessoa saudável, o tempo médio de vida de uma célula da epiderme é de 28 dias. Em quem tem a doença, essa renovação ocorre em apenas três dias. Daí a descamação — que causa aflição em muitas pesso as. Na verdade, a pele só está se renovando de forma acelerada. Fato curioso: ao contrário do vitiligo, em geral, a exposição aos raios solares ajuda a manter essa moléstia sob controle.

A maior parte dos estudos sobre o vitiligo e a psoríase acredita que eles são resultado de um desarranjo do nosso sistema de defesa. Ou seja, enquanto não existe nenhuma conclusão mais efetiva, especialistas destacam como teoria principal a de que o vitiligo seja uma doença autoimune. Em uma explicação leiga, seria como se a pessoa fosse alérgica a ela mesma. No caso da psoríase, o fator hereditário conta muito: segundo as estatísticas clínicas, cerca de 30% dos pacientes têm familiares com o mesmo problema. Entretanto, médicos e cientistas são categóricos em afirmar que o aspecto emocional tem grande peso no surgimento do vitiligo e na reincidência da psoríase — enfermidades que têm momentos de melhora e piora. E as crises pioram com o estresse. “Traumas emocionais na infância, como a morte de um ente querido ou dificuldade de adaptação em uma nova escola, podem gerar tanto vitiligo quanto psoríase em uma criança. A doença fica latente durante anos até que em um momento de crise ou de queda do sistema imunológico a traz à tona”, garante a dermatologista Áurea Lopes, de São Paulo, que também aponta o uso de determinados medicamentos como responsáveis pelo aparecimento dessas doenças.

A psoríase e o vitiligo não são contagiosos, portanto nesse sentido não exigem cuidado específico. O problema é que elas provocam forte abalo na auto-estima dos portadores, pois em muitos casos não há como disfarçar as marcas deixadas na pele. Para piorar: ainda há quem associe, mesmo que inconscientemente, essas enfermidades à sujeira, principalmente no caso da psoríase.

No ano passado, a psicóloga Juliana Tigre da Silva recebeu o prêmio de melhor pesquisa na categoria Trabalhos de Investigação no 610 Congresso da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). O estudo defendido na pós-graduação de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica, do RS, observou que pacientes com psoríase têm tendência de utilizar estratégias específicas para enfrentar estresse e tensões causados pela doença — como fuga, autocontrole e o costume de não manifestar as emoções — situações que só agravam o problema. Assim, as pessoas acabam evitando participar de situações sociais, com receio de que os outros vão observá-las com repulsa. Daí, há a possibilidade de acontecer uma espécie de círculo vicioso: o isolamento causa tristeza, que causa estresse, que debilita o sistema imunológico e que o deixa mais suscetível às crises.

MAIS DE 40% DAS MANIFESTAÇÕES CUTÂNEAS ESTÃO ASSOCIADAS A TRANSTORNOS PSÍQUICOS. SÃO AS CHAMADAS PSICODERMATOSES QUE PODEM ACOMETER HOMENS E MULHERES DE QUALQUER FAIXA ETÁRIA OU RAÇA. NAS CRIANÇAS, NA MAIOR PARTE DOS EPISÓDIOS, OS DISTÚRBIOS CUTÂNEOS SÃO RESULTADO DE PRESSÕES EMOCIONAIS DOS PAIS — PARA QUE A GAROTADA ESTUDE, EMAGREÇA, VÁ PARA A CAMA CEDO, NÃO FALTE À AULA…

13 ATITUDES QUE FAZEM A PELE GRITAR
Se você quer manter a sua cútis lisinha e livre de qualquer enfermidade, tente manter distância dessas atitudes nocivas à sua saúde e ao seu bem-estar físico e psíquico:

1. Traçar objetivos fora da realidade.
2. Temer o fracasso.
3. Sentir pressão para tentar manter o controle.
4. Irritar-se com tudo, até com as pequenas coisas.
5. Praticar a intolerância.
6. Remoer frustrações e remorsos.
7. Reprimir a raiva ou a excitação.
8. Ter dificuldade de comunicação e/ou de relacionamento.
9. Se preocupar muito e antes da hora.
10. Abusar do esforço mental ou físico.
11. Cultivar mágoa ou tristeza.
12. Ser perfeccionista ou se cobrar demais.
13. Recusar o perdão aos erros alheios — e aos próprios.

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COMO APAGAR OS SINAIS
  Não é simplista, de maneira alguma, afirmar que os distúrbios de pele são uma maneira desse órgão avisar que é preciso relaxar e desacelerar o ritmo. Aquela dorzinha na coluna a gente vai levando, para as crises de enxaqueca muita gente se entope de remédios e a gastrite incomoda em alguns dias, em outros não. Vale o velho ditado popular: “o que os olhos não vêem, o coração não sente”. Quando a questão envolve a aparência, entretanto, mexe também com a vaidade e a auto-estima. A busca pela cura ou por cuidados paliativos que melhorem o aspecto do rosto ou de regiões do corpo se torna a principal prioridade. Infelizmente, como já foi dito, muitas das moléstias de pele não têm cura, mas podem ser mantidas sob controle com o aumento do espaçamento entre as crises. Os tratamentos médicos vão desde a prescrição de loções e cremes tópicos até o uso de medicamentos via oral. Alguns médicos recomendam sessões de laser ou luz pulsada para acelerar a cicatrização de herpes. Para o vitiligo, a dermatologista Sandra Hugenneyer (SP) conta que existe a possibilidade de injetar células com pigmentação nas áreas esbranquiçadas pela doença. O resultado não fica perfeito, mas dependendo da extensão do problema ajuda a disfarçá-lo. Distúrbios que incluem maior produção de glândulas sebáceas, como dermatites, exigem banhos mais frios e diminuição de comidas gordurosas no cardápio. Mas o melhor remédio mesmo é relaxar.Apesar dos recursos disponíveis para minimizar os males, a maioria dos especialistas aconselha: manter hábitos saudáveis e lidar com a vida e as dificuldades de maneira positiva são as formas mais eficazes de manter bem longe o risco de contrair doenças de pele. Afinal, se é o estado emocional que vem prejudicando o paciente, não adianta nada só usar remédios. Para os portadores, essas atitudes diminuem o índice de recidivas. A dermatologista Áurea Lopes recomenda, ainda, o apoio de acupuntura e psicoterapia. “A acupuntura ajuda a equilibrar o organismo. Já as sessões de terapia ajudam a pessoa a se entender melhor, a compreender os próprios limites e emoções”, finaliza a especialista Áurea.
   

MARCAS DO ESTRESSE
ACNE: comum na adolescência, pode atingir também adultos. “O estresse impulsiona o aumento da produção das glândulas sebáceas e deixa a pele mais oleosa e sujeita a cravos, espinhas e pontos de sebo”, explica a dermatologista Sandra Hugenneye
ALERGIAS: é fruto da ação do estresse na circulação. Ele faz com que os mastócitos (células do tecido conjuntivo ligadas às reações alérgicas) liberem substâncias na corrente sangüínea — a sensação é de incômodo, prurido, coceira.
DERMATITE SEBORRÉICA: é uma inflamação crônica, originada pelo fungo pityrosporum ovale, que se alimenta do sebo produzido pelas glândulas da pele. O resultado surge em forma de lesões avermelhadas e descamativas, principalmente na testa, nos supercílios, no nariz, nas orelhas e no tórax. Pode acometer até recém-nascidos, em função dos hormônios maternos que ainda circulam no seu sangue.
FURÚNCULO: infecção causada pela bactéria estafilococos, é mais comum em regiões com dobras ou pêlos, como a virilha e as nádegas. Causa um nódulo endurecido, vermelho e bem dolorido que, se não tratado logo, vira uma ferida com pus que leva dias para cicatrizar.
HERPES: feridinha em formato de bolha, que aparece nos lábios ou nos genitais, é provocada por um vírus — incurável, aliás — que fica adormecido no organismo da maioria das pessoas, e pode nunca manifestar os sintomas (sim, você pode ter herpes e não saber). Sol, menstruação, febre e, é claro, o estresse despertam o problema.
LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO (LES): doença auto-imune crônica, de origem desconhecida, acomete principalmente as mulheres. Além de motivos de ordem genética, o estresse é comprovadamente um disparador do LES. Hormônios como adrenalina e cortisol (liberados na corrente sangüínea em situações de tensão) são tidos como impulsionadores.
MICOSE: infecção provocada por fungos que se proliferam em ambientes úmidos, quentes e fechados. Daí a micose aparecer, principalmente, nas unhas dos pés. Elas também são um sinal de que o sistema imunológico está deficiente, e que provavelmente você está vivendo um momento de estresse.
ROSÁCEA: é uma vermelhidão no rosto, mais comum em mulheres de pele clara (a cútis negra raramente apresenta o distúrbio). Pode vir acompanhada de inchaços, nódulos, pus e vasinhos. Além da tensão, ansiedade e preocupações diárias, acne adulta e distúrbios gastrintestinais são fatores detonadores da rosácea, cujo quadro piora com o consumo de álcool e a exposição ao sol.
VERRUGAS: tumor benigno, também provocado pelo Papillomavirus, o HPV. Costuma acometer principalmente os dedos. A eficácia das famosas simpatias para curar a verruga é discutível. Na verdade, elas provocam uma auto-sugestão de cura. Isso pode estimular seu sistema imunológico a combater o vírus, eliminando a verruga. A melhor maneira de curá-la é mesmo por cauterização química.

Envelhecimento precoce
  Todas as células do corpo necessitam de oxigênio para converter os nutrientes dos alimentos em energia vital. A queima do oxigênio pelas células (oxidação) libera moléculas instáveis que se associam a outras de carga positiva, danificando o DNA celular e outros materiais genéticos. Surgem, assim, os famosos radicais livres que, se estiverem em excesso, estão associados ao envelhecimento precoce e ao aparecimento de doenças. Nosso corpo tem enzimas protetoras que reparam 99% dos danos causados pela oxidação. O estresse, porém, prejudica esse processo, fazendo com que esses radicais se acumulem. E não pára por aí. Pesquisa da Universidade da Califórnia (EUA), em 2004, provou que a tensão crônica afeta os telômeros (complexos protéicos de DNA, que envolvem os cromossomos). A cada divisão celular, os telômeros se encurtam — processo que serve como marcador celular da idade biológica. O estresse acelera essa ação e, por fim, o envelhecimento. Resultado: sulcos, linhas finas ao redor dos olhos, manchas e marcas de expressão precoces.
   

Fonte: Revista Viva Saúde, março de 2007

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