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Questão de opinião 06/05/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico.
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Há momentos em que o paciente, inseguro ou com dúvidas em relação a determinado diagnóstico ou tratamento, enfrenta um verdadeiro dilema: ele deve ou não ouvir uma segunda opinião médica?

Em certas situações de emergência, o nervosismo pode im pedir o paciente ou a família de discordar da opinião do médico. No caso da enfermeira Patrícia Hirata, de 26 anos, moradora de São Paulo, a sabedoria da mãe impediu que ela fosse submetida a uma cirurgia desnecessária, prescrita a partir de um diagnóstico errado.

Há dois anos, Patrícia começou a sentir fortes dores na região do pulmão esquerdo, além de tonturas, calafrios e febre. Ela foi a um pronto-socorro em Guaianases, zona leste de São Paulo, por meio de seu convênio médico.

“Após esperar muito tempo, fui atendida por um médico que não me deu atenção. Ele me passou uma medicação e disse para eu retornar para casa”, conta. “No dia seguinte, acordei com convulsões e desmaiei. Voltei ao pronto-socorro e acabei sendo atendida pelo mesmo médico, que afi rmou então que eu estava com hemorragia abdominal e teria que operar o baço”, acrescenta.

De acordo com Patrícia, sua mãe não concordou com o diagnóstico e não deixou que ela fosse operada. “Ela sabia que não poderia ser isso, mesmo porque as dores intensas que sentia eram no pul mão. Como eu tenho asma, ela tinha certeza de que meu problema estava ligado ao sistema respiratório, e não ao baço”.

O Ministério da Saúde iniciou em 1994 o programa Saúde da Família, no qual multiprofi ssionais que trabalham em unidades básicas de saúde se responsabilizam pelo acompanhamento de um número defi nido de famílias. Mas há poucos médicos especializados no país. Para preencher esse vácuo, foi criada a Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa), que promove cursos de capacitação e programas de residência médica nessa área

Prescrição médica
– Procure buscar por um profi ssional que se torne o seu médico de confi ança. Ele deve conhecer todo o seu histórico de saúde, além de ser uma pessoa a quem você possa recorrer sempre que houver necessidade.

– Não deixe de perguntar ao médico tudo o que você quer saber sobre o seu diagnóstico ou tratamento. Por outro lado, o profi ssional tem que se dispor a tirar todas as dúvidas do paciente, ser atencioso e aberto.

– Se você achar que deve buscar a avaliação de outros especialistas sobre o seu caso, fale com o seu médico. Em determinadas situações, o próprio profi ssional o encaminhará para a avaliação de outros colegas.

– Em situações de emergência, se você não confi ar no tratamento prescrito no pronto-socorro (como uma cirurgia), recorra a seu médico de confi ança ou peça transferência para outro hospital, se houver tempo hábil.

– A relação médico-paciente é baseada na confi ança. Se você não se sente seguro quanto ao atendimento que está sendo prestado, não hesite em trocar de médico.

A enfermeira foi transferida para outro hospital, onde deu entrada diretamente na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Após um raio X, o no vo médico que a atendeu descartou a hemorragia abdominal e apontou a existência de água acumulada e infecção na pleura (membrana que recobre o pulmão). Foi realizada então uma cirurgia para a colocação de um dreno no tórax (para eliminar o líquido acumulado) e prescritos antibióticos.

Para Patrícia, a decisão de sua mãe de procurar outro atendimento foi a sua salvação. No caso do primeiro médico, faltou ele ouvir a paciente para coletar informações importantes. “Não me lembro nem de ele ter me examinado na primeira vez em que fui atendida.” Segundo a enfermeira, como no fi m tudo deu certo, ela nem cogitou em processar o primeiro hospital. Mas recomenda: “Na dúvida, nunca deixe de ouvir uma outra avaliação médica.”

O outro lado
Quando se fala em consultar mais de um médico sobre um tratamento ou doença, as opiniões divergem. Há especialistas que defendem que o paciente tem o direito de ouvir quantos médicos achar necessário, enquanto outros acreditam que, se pairam dúvidas, é porque não se confi a no profi ssional. O fato é que muitas pessoas se sentem perdidas, quando há incerteza em relação aos procedimentos a serem realizados. Elas temem uma reação negativa do primeiro médico e, ouvindo opiniões diferentes sobre o mesmo problema, podem até fi car mais confusas. O que fazer nesses casos, então?

Para Pablo Gonzalez Blasco, diretor-científi co da Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa), a questão é encontrar um profi ssional de confi ança. “Se a pessoa achar que deve ouvir uma segunda opinião é porque não confi a no médico”, afi rma. “Nesses casos, a solução é simplesmente trocar de especialista.”

Blasco responsabiliza a própria categoria por essas situações. “O problema é que, por falta de vocação, boa parte dos médicos não está comprometida com seus pacientes”, diz. “É realmente difícil, atualmente, encontrar um profi ssional de confi ança, pois faltam especialistas com sensibilidade para lidar com pessoas e que não sejam apenas conhecedores de doenças.”

Na opinião do médico da Sobramfa, no entanto, buscar ouvir mais de uma opinião só vai confundir o paciente. “Mas, em casos muito específi cos, o próprio médico pode encaminhar o paciente para outro colega.”

Já Reinaldo Ayer de Oliveira, professor de Bioética da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e conselheiro do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), afi rma que o paciente é absolutamente livre para procurar quantas opiniões médicas julgar necessárias. “É o que chamamos de autonomia do paciente”, explica.

No entanto, Oliveira alerta que é preciso não desconstruir a relação médico-paciente já estabelecida. “O paciente sempre deve comunicar ao profi ssional que gostaria de se submeter a uma segunda avaliação.”

Um problema que difi culta a construção dessa relação sólida de confi ança é o sistema de saúde brasileiro. O serviço público é precário e os convênios médicos acabam fazendo com que o especialista tenha pouco tempo para se dedicar a cada um de seus pacientes.

“Essa relação acaba existindo somente nos consultórios particulares. Nesses casos, os médicos são procurados, geralmente, por meio da indicação de outras pessoas que confi am neles”, diz o infectologista Paulo Olzon Monteiro da Silva, chefe da Disciplina de Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

CONSENSO SOBRE OS EXAMES
Evite lê-los antes de serem avaliados pelo médico; somente o profi ssional tem condições de interpretá-los.
Muitos pacientes também fi cam inseguros em relação aos resultados de exames laboratoriais. Pablo Gonzalez Blasco, da Sobramfa, comenta que há pessoas que abrem o exame antes de o médico analisá-lo. “Elas não sabem interpretar o resultado e isso acaba gerando uma ansiedade desnecessária. Somente o médico pode dizer o que os resultados signifi cam.”

Para Reinaldo Ayer de Oliveira, conselheiro do Cremesp, exames complementares fazem parte dos procedimentos médicos. Por isso, o paciente não deve fazer check-ups ou outros exames sem a solicitação do especialista. “Esses exames podem ser feitos em condições não apropriadas para se chegar a determinado diagnóstico.” No entanto, se o exame prescrito pelo médico apresentar um resultado discrepante, o próprio profi ssional – e só ele pode determinar isso – deve pedir que ele seja refeito.

Olzon também defende a fi gura do médico da família, que, na maioria das vezes, é um clínico-geral – no caso das mulheres, esse papel pode acabar sendo exercido pelo ginecologista. “É ele quem pode ajudar na escolha do especialista certo para cada caso. Nem sempre as indicações feitas por amigos ou parentes próximos do paciente têm um bom embasamento”, explica.

Para o infectologista, o paciente deve procurar uma nova opinião médica, sempre que tiver dúvidas sobre a conduta a ser adotada, sem que isso, necessariamente, signifi que desconfi ança no primeiro profi ssional. Segundo ele, os tempos são outros. “Já se foi a época em que o médico se ofendia com isso”, garante Paulo Olzon.

DECISÃO COMPARTILHADA

ALGUNS ESPECIALISTAS ACREDITAM QUE CONSULTAR OUTRO PROFISSIONAL PODE CONFUNDIR O PACIENTE EM VEZ DE AJUDÁ-LO

Uma prática, ainda pouco freqüente no Brasil, vem conquistando espaço: trata-se da chamada decisão compartilhada, em que o médico apresenta ao paciente todas as opções de tratamento de uma doença, com todas as vantagens e desvantagens envolvidas. Diante disso, o doente tem autonomia para decidir o que é melhor para ele. A decisão, em geral, é tomada de comum acordo com o especialista.

Nem todos os médicos concordam com essa autonomia. Para Pablo Gonzalez Blasco, da Sobramfa, o doente não tem condições de decidir qual tratamento deve ser adotado.

“Isso é passar a bola para o paciente”, afi rma. “O que o médico tem obrigação de fazer é ouvir o paciente, saber quais são as suas expectativas, para então chegar a uma conclusão”, acredita. No entanto, para Reinaldo Ayer de Oliveira, do Cremesp, a decisão compartilhada faz parte de uma relação médico-paciente bem construída. “O paciente precisa ser sempre ouvido pelo médico”, enfatiza.

Fonte: Revista Viva Saúde, março de 2007

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