jump to navigation

Felicidade a qualquer preço 02/05/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Qualidade de vida.
trackback

Para superar todos os problemas e ser feliz, muitas pessoas não saem de casa sem os antidepressivos. O uso indiscriminado dessas drogas, porém, só tem aumentado a insatisfação e a falta de ânimo para lidar com os altos e baixos da vida


Em 1861, o poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867) publicou um ensaio que causou frisson na época. Paraísos Artificiais narrava não só suas experiências com haxixe e ópio como ainda tratava das motivações das pessoas que procuravam refúgio nos tóxicos e o prazer da satisfação momentânea, em contrapartida à realidade. Mais de um século depois, uma outra obra tem provocado repercussão parecida – mas que nada tem a ver com plantas alucinógenas. O livro felicidade Artificial (Editora Planeta), do médico anestesiologista norte-americano Ronald W. Dworkin, é uma crítica ferrenha ao uso de antidepressivos como condutores de um estado de felicidade imaginária e passageira. Segundo o autor, a utilização sem necessidade ou prescrição desses medicamentos, desde os anos 1990, tem gerado uma multidão de pessoas alienadas. Afinal, a sensação de torpor acaba, mas os problemas continuam. “O que caracteriza a felicidade artificial é seu poder de se opor à vida. Quando desfrutam dessa felicidade, as pessoas conseguem não se sentir miseráveis, mesmo quando a vida é miserável. (…) Não importa o quanto as coisas fiquem ruins, a felicidade artificial faz as pessoas sempre se sentirem bem; você jamais conseguirá incutir nelas o sentimento de total desesperança”, escreve Dworkin.

Ser feliz é…

Para o especialista, a felicidade provocada pelos antidepressivos é traiçoeira, pois impede os indivíduos de enxergar a realidade como ela se apresenta e, ainda, de lidar com ela. “Às vezes, as pessoas precisam de uma massa crítica de infelicidade para empurrá-las para fora de uma má situação de vida, dando-lhes, desse modo, outra chance para serem felizes; as pessoas artificialmente felizes perdem esse impulso para a mudança”, avisa o autor.

Infelizmente, hoje, em dia, paira no ar a sensação de que para alcançar a felicidade as pessoas precisam ser belas, magras, bem-sucedidas, equilibradas e famosas. “Essas características nada mais são do que modismos impostos pela sociedade de consumo, através dos meios de comunicação, que acarretam frustrações pessoais e profissionais, além de problemas psicológicos, como a depressão”, comenta a psiquiatra e psicóloga Vera Lemgruber, chefe de psicoterapia do Serviço de Psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. Segundo Vera, a constante insatisfação tem levado as pessoas a buscar cada vez mais recursos substitutos para alcançar a sensação de perfeição – cirurgias plásticas, tratamentos estéticos, dietas e, sobretudo, medicamentos. “Se a pessoa está buscando quimicamente uma maneira de ser feliz, já é um indicativo de que não está bem. Dependendo do caso, pode ser necessário até o uso de uma medicação, mas somente sob avaliação e prescrição médica. A automedicação pode levar à intoxicação”, explica José Paulo Pinotti, psiquiatra do Hospital e Maternidade São Camilo, de São Paulo.

“Quem não precisa de fato dos remédios não deve tomá-los, pois seu uso desnecessário só traz danos em vez de vantagens”, destaca o médico.

As pílulas da felicidade

ESSES REMÉDIOS
SÓ DEVERIAM SER
INDICADOS POR
MÉDICOS E EM
ALGUNS CASOS

Os antidepressivos devem ser indicados apenas em casos de depressão ou ansiedade crônica. Problemas neurológicos e doenças ligadas, direta ou indiretamente, ao cérebro também podem ser tratados com a ajuda desses remédios – é o caso da herpes zoster, uma enfermidade de pele que também atinge o sistema nervoso.

Mesmo que essas drogas não causem dependência física, como os tranqüilizantes, a automedicação e o uso prolongado, porém, podem levar à dependência psicológica. Ou seja, de acordo com os médicos, ficar dependente do uso de antidepressivos tem mais a ver com uma vulnerabilidade pessoal do que com uma imposição bioquímica. No entanto, cerca de 90% desses medicamentos causam constipação intestinal (prisão de ventre) crônica, bruxismo (roçar de dentes), retenção urinária, perda de libido, obesidade, etc.

De acordo com o psiquiatra Montezuma Pimenta, do Hospital Sírio Libanês, de São Paulo, o uso de antidepressivos sem autorização médica pode gerar episódios de exaltação do humor. Já o psiquiatra Leonard F. Verea, especialista em medicina psicossomática e hipnose clínica, explica que nosso organismo e nosso humor têm um biorritmo próprio, que atravessa momentos de altos e baixos. A mulher, principalmente, é moldada por ele por causa das variações hormonais (sim, a TPM é um reflexo disso). Para quem não sofre nenhum distúrbio emocional, o antidepressivo simplesmente não faz efeito durante a fase de “altos”. Já quando a pessoa os toma durante os períodos ruins, pode acabar girando em círculos e, inclusive, entrar em depressão. “É um gasto de energia que não leva a lugar algum”, diz Verea. Até porque remédio algum tem o poder de apagar os problemas da nossa vida.

Um dos antidepressivos mais procurados é o Prozac, à base de fluoxetina, lançado em 1987. Ele inaugurou a era dos inibidores seletivos de recaptação da serotonina (ISRS), que agem aumentando os níveis cerebrais do neurotransmissor serotonina, responsável pelas sensações de prazer e bem-estar. O problema é que, em excesso, essa substância pode afetar drasticamente o sistema nervoso central. O resultado do uso indiscriminado é de dar medo: tiques nervosos, insônia, vertigens, alucinações e comportamentos suicidas ou homicidas.

Para superar todos os problemas e ser feliz, muitas pessoas não saem de casa sem os antidepressivos. O uso indiscriminado dessas drogas, porém, só tem aumentado a insatisfação e a falta de ânimo para lidar com os altos e baixos da vida

POR HELOÍSA NORONHA
FOTOS FERNANDO GARDINALI

O PARAÍSO, SEM COMPRIMIDOS
  CULTIVE LAÇOS AFETIVOS
As relações de amizade são fundamentais para oferecer o apoio necessário nos momentos difíceis.PRATIQUE EXERCÍCIOS
O velho ditado “corpo são, mente sã” é uma das verdades mais incontestáveis da humanidade. Os esportes elevam a produção de endorfinas, que, como a serotonina, dão sensação de prazer e bem-estar.VIVA OS SENTIMENTOS
Está triste, alegre, irritado? Dê uma pausa e avalie o motivo. Fazer de conta que uma dor-de-cotovelo, por exemplo, não incomoda, é bobagem. Quanto mais rápido você encarar os problemas, mais depressa será capaz de contorná-los.

FAÇA PLANOS
Quem cultiva um objetivo se sente mais forte e tem disposição extra para enfrentar os desafios. Pode ser uma viagem internacional, uma mudança de emprego ou de casa, a troca do carro, o planejamento de uma festa. Lembre-se, porém, de traçar metas realistas.

NÃO LEVE TUDO TÃO A SÉRIO
Pode apostar: as pessoas mais bem-sucedidas (no sentido emocional) são aquelas que conseguem extrair humor dos percalços e rir de si mesmas.

PEÇA AJUDA
Se estiver sentindo ansiedade ou tristeza profunda, sem motivo aparente ou há muito tempo, não hesite em buscar o auxílio de um psicoterapeuta. Não ignore as suas necessidades nem apele para a automedicação.

   

Conquista real

ESTUDOS SUGEREM QUE A MAIORIA DAS PESSOAS COM SINTOMAS DEPRESSIVOS, NA VERDADE ESTÁ ENFRENTANDO AS CONSEQÜÊNCIAS PSICOLÓGICAS NORMAIS DE UM RECENTE TRAUMA, COMO UMA SEPARAÇÃO MATRIMONIAL OU A PERDA DE UM EMPREGO

Diante de tantos riscos, a pergunta é: será que os prós, então, compensam os contras? Em vez de engolir as frustrações e preocupações com um copo de água, talvez a chave para a felicidade seja olhar para dentro de si e avaliar quais são, na verdade, nossos desejos, anseios e vontades. “É claro que precisamos ver atendidas as nossas necessidades básicas, como alimentação, moradia e alimentação. No entanto, várias pesquisas demonstraram que ter cada vez mais dinheiro, um corpo esbelto e acesso a bens de consumo não aumentam a sensação de felicidade”, afirma o médico Alberto Ogata, presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV). “Observou-se que as relações familiares e afetivas; um trabalho estimulante, criativo e remunerado adequadamente; e boa saúde são os valores que tornam, de fato, as pessoas felizes”, conclui.

De nada adianta, portanto, somente se tratar com medicamentos, sob orientação médica ou não. Segundo Alberto Ogata, a psicoterapia, particularmente a cognitivo-comportamental, pode ser útil em casos de depressão, pois “o tratamento atua principalmente na percepção da realidade. O paciente aprende a buscar metas e objetivos realistas”, diz. “Na minha opinião, uma causa freqüente de infelicidade é a tendência que as pessoas têm de se comparar a outras. Elas colocam a aparente felicidade alheia como o seu objetivo. É importante valorizar nossos próprios julgamentos, valores e opiniões, e não os dos outros”, pontua. O psiquiatra Leonard F. Verea acredita que a felicidade é a soma de três fatores: desejo, necessidade e motivação – justamente aqueles que ficam “mascarados” com o uso de antidepressivos. Ou seja, é praticamente impossível viver todos os dias como se fizéssemos parte da família feliz de um comercial de margarina. Mas, quando estamos conscientes do que queremos e traçamos objetivos de vida, fica mais fácil atravessar os períodos de tempestade.

AS MULHERES TÊM O DOBRO DE CHANCE DE VIR A DESENVOLVER DEPRESSÃO, EM RAZÃO DA INSTABILIDADE EMOCIONAL A QUE ESTÃO SUJEITAS POR MOTIVOS HORMONAIS, POR EXEMPLO. ELAS JÁ SÃO RESPONSÁVEIS PELO CONSUMO DE 70% DOS ANTIDEPRESSIVOS

Fonte: Revista Viva Saúde, maio de 2007

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: