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Células-tronco – sem data marcada 02/04/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico.
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Terapia com células-tronco não tem data marcada, afirma pesquisador brasileiro

Uso médico ‘pode vir em cinco, dez ou 50 anos’, diz Stevens Rehen, cientista da UFRJ. No entanto, trabalho de brasileiros na área já estaria rendendo resultados promissores.

Divulgação

O biólogo Stevens Rehen, da UFRJ.

Cientistas e portadores de doenças degenerativas do Brasil todo comemoraram quando, em março de 2005, o Congresso aprovou a Lei de Biossegurança, que permitia a pesquisa com células-tronco embrionárias humanas (CTEHs) no país. Essas células são a grande esperança biomédica deste século, graças à sua capacidade de assumir a função de qualquer tecido do corpo humano, dos músculos aos nervos.

A revolução, no entanto, está longe de ser instantânea, como pode testemunhar o biólogo Stevens Kastrup Rehen. O pesquisador da UFRJ e presidente da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento é um dos principais cientistas da área no país e tem ajudado a articular parcerias entre as várias instituições que estudam o tema. Em entrevista ao G1, ele disse que qualquer previsão sobre possíveis terapias com as CTEHs é inútil neste momento.

“Não gosto de fazer previsões”, afirmou Rehen. “Dizem que, quando alguém afirma que em cinco anos haverá terapia, na verdade não faz a mais vaga idéia de quando a terapia de fato estará disponível. Não dá para arriscar, podem ser cinco, dez ou 50 anos. O que posso afirmar, entretanto, é que nenhuma terapia estará disponível se não houver investimento em pesquisa”, completa.

O biólogo também avaliou que os pesquisadores têm o apoio da população brasileira para estudar CTEHs, uma área eticamente controversa porque os estudos exigem a destruição dos embriões das quais as células são extraídas. Mesmo se tratando de embriões que sobraram nas clínicas de reprodução assistida, e que seriam destruídos de qualquer maneira, muitas pessoas consideram que a extração das células equivaleria a um assassinato. Confira abaixo a entrevista.

G1- Faz dois anos que a Lei de Biossegurança foi aprovada. Para o sr., o que mudou efetivamente no dia-a-dia de quem pesquisa ou quer pesquisar células-tronco embrionárias no Brasil?

Stevens Kastrup Rehen – Não é possível responder o que mudou efetivamente quando não havia nada antes. Com a aprovação da Lei de Biossegurança, sociedade e governo legitimaram as pesquisas envolvendo células-tronco embrionárias humanas (CTEHs) em nosso país.

Sem tal lei não poderíamos realizar as pesquisas, e sem as pesquisas nenhuma aplicação terapêutica poderá eventualmente surgir (por mais que não seja possível afirmar quanto tempo irá demorar, nem mesmo garantir que de fato essa aplicação existirá).

G1- A impressão que se tem é que ainda existem muitos problemas regulatórios — por exemplo, como conseguir o consentimento das famílias que fazem reprodução assistida para usar embriões inviáveis, como obter cooperação das clínicas, como definir quais embriões podem ser usados — no caminho das pesquisas com CTEHs. Os srs. têm sentido isso no dia-a-dia?

Rehen – De fato há problemas regulatórios a serem resolvidos, mas o governo e cientistas vêm buscando formas de solucionar alguns entraves à derivação de CTEHs no Brasil.

Cabe ressaltar que, no momento, tão importante quanto derivar linhagens de CTEHs no Brasil é aprender a cultivar essas células, doadas de laboratórios no exterior. A derivação de linhagens de células-tronco embrionárias humanas no Brasil será em vão se não houver grupos capacitados a cultivar e realizar experimentos com tais células.

G1 – Com a situação indefinida sobre liberar ou não as pesquisas na área em muitos países, pelo menos no papel a impressão é que o Brasil está numa posição até privilegiada pela clareza legislativa. Isso se reflete na prática? Ou seja, o sr. vê uma chance de o país se tornar um dos líderes nessa área emergente de pesquisa?

Rehen – Nosso país confirmou mais uma vez ser um Estado laico, onde governo e igreja são instituições distintas. A clareza legislativa em questão é muito importante. Entretanto, não garante que nós tenhamos um papel importante nas pesquisas envolvendo células-tronco embrionárias humanas.

Não quero dizer com isso que futuramente não possamos exercer um papel de liderança nessa área (assim como ocorre com as pesquisas envolvendo células adultas). A Lei de Biossegurança foi o primeiro passo. Mas, para consolidar o processo, investimentos precisarão continuar existindo, assim como políticas que incentivem a formação de recursos humanos no setor.

Cabe mencionar ainda que a situação indefinida sobre liberar ou não as pesquisas não é característica de tantos países assim. Na verdade, a grande maioria dos líderes mundiais em pesquisa biomédica já realiza estudos com células-tronco embrionárias humanas, e países emergentes, como Cingapura e Espanha, estão investindo maciçamente na criação de parques biotecnológicos, para também virar líderes no setor.

No caso dos Estados Unidos, o governo de George W. Bush veta a disponibilização de recursos federais para estudos envolvendo células-tronco embrionárias humanas produzidas após agosto de 2001, mas isso não significa que estejam “fora da competição”. Seus cientistas têm acesso a recursos federais para trabalhar com células-tronco embrionárias humanas produzidas antes de agosto de 2001 e podem buscar financiamento privado, além de recursos estaduais, para trabalhar com linhagens geradas mais recentemente.

Divulgação

Em laboratório, cientista obtém células-tronco de embrião.

No Brasil ainda precisamos treinar pessoal, gerar massa crítica para discutir internamente o assunto. Não havia tradição no estudo de células-tronco embrionárias em nosso país. Em 2005 (imediatamente após a aprovação da Lei) foi organizado o primeiro Encontro Brasileiro sobre Células-Tronco Embrionárias Humanas (evento gratuito que reuniu mais de 500 pessoas). Em 2006 foi realizado o primeiro curso teórico-prático sobre o assunto (pelo Programa de Ciências Morfológicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro), evento novamente gratuito. Nele, participaram 20 alunos de diferentes estados, que levaram o que aprenderam para suas instituições e laboratórios. Desde então, diversos outros encontros vêm acontecendo por todo o país.

Para nos tornarmos competitivos precisaremos nos organizar. Com esse intuito e apoio de diversos parceiros, continuamos investindo na criação do Instituto Virtual de Células-Tronco (www.ivct.org). O IVCT tem como objetivo contribuir para o avanço dos estudos sobre células-tronco (embrionárias, adultas etc.) em nosso país, incentivando a promoção de pesquisas e do ensino sobre o tema. Pretende também funcionar como interface entre a comunidade científica, grande imprensa, empresas de biotecnologia e público em geral para assuntos relacionados a pesquisas envolvendo células-tronco, além de esclarecer pacientes. É muito importante informar a população, principalmente os pacientes, sobre o avanço nas pesquisas.

G1 – A controvérsia ética em torno da pesquisa com CTEHs, apesar da aprovação da lei, continua. Mas o curioso é que, no Brasil, a oposição parece ter sido muito menos estridente do que nos EUA, por exemplo. Como cientista, o sr. sente que tem um mandato ético da população brasileira para trabalhar com CTEHs?

Rehen – Nos EUA, a oposição ocorreu de forma tão estridente justamente porque misturou-se em demasia religião e ciência; o Partido Republicano e seu presidente têm um viés religioso e desvirtuou a discussão. Curiosamente, quando plebiscitos estaduais sobre o tema foram realizados naquele país, percebeu-se que a população apóia as pesquisas. Foi o que ocorreu na Califórnia (aprovação pública para o investimento de US$ 3 bilhões nas pesquisas) e em outros estados americanos.

Considero que temos o apoio da população brasileira para estudar as CTEHs, contribuir para a geração de conhecimento nessa área e abrir perspectivas para o desenvolvimento de terapias (mais uma vez, não podemos afirmar quanto tempo será necessário ou mesmo se de fato existirão tais terapias, o que podemos afirmar é que sem pesquisa não haverá quaisquer novas terapias ou tratamentos).

No Brasil, os primeiros recursos voltados especificamente para a pesquisa com células-tronco embrionárias humanas (e também derivadas de outras fontes) foram liberados no início de 2006, ou seja, há pouco mais de um ano. Em nenhum lugar do planeta, seja Brasil, China ou Estados Unidos, é possível gerar publicações, patentes e muito menos terapias em tão curto espaço de tempo.

Foram liberados aproximadamente US$ 5,5 milhões para dois anos de estudos, e 43 grupos foram contemplados. O governo brasileiro agiu com muita sensibilidade, percebendo a importância de investir nessa área do conhecimento, mas temos de estar conscientes sobre até onde iremos chegar nesse primeiro momento.

Lembremos mais uma vez a Califórnia: os primeiros recursos estaduais lá liberados para se estudar células-tronco embrionárias humanas alcançaram US$ 45 milhões. Setenta e dois grupos de pesquisa receberão entre US$ 250 mil e 800 mil dólares para até cinco anos de estudos — é preciso dar tempo ao tempo.

Posso garantir que, aqui no Brasil, a maioria dos grupos contemplados com verbas já começou a gerar resultados. Mas, para que esses se transformem em artigos científicos ou patentes, vamos precisar de mais tempo e possibilidade de competir por novos recursos, de preferência com contratos de duração mais longa — o atual tem a duração de somente dois anos.

G1 – Como o sr. vê a campanha que levou à aprovação da lei do ponto de vista ético? Pergunto isso porque em alguns momentos parece ter faltado, do lado do cientistas, enfatizar o quanto ainda não sabemos sobre a biologia de CTEHs, e a distância que isso cria para a chegada de possíveis terapias. O sr. sente que as pessoas estavam devidamente informadas sobre esses percalços?

Rehen – Na época da campanha eu trabalhava num centro de pesquisa no exterior e não pude acompanhar em detalhes o processo.

De qualquer forma não acredito que os cientistas que participaram dos debates deixaram de ser éticos ou de enfatizar o que não se sabe sobre as células-tronco embrionárias. Sem pesquisa não há perspectiva terapêutica, acredito que essa tenha sido a principal mensagem para a população.

Imagino que tenha sido bastante difícil todo o processo de discussão e informação. Nossa sociedade carece de educação científica.

G1- O que o sr. espera que seja, no médio prazo, a principal aplicação da pesquisa com CTEHs?

Rehen – Dos projetos aprovados pelo CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], não há nenhum que proponha utilizar células-tronco embrionárias para ensaios clínicos, mas somente para pesquisa básica e testes pré-clínicos (ou seja, com animais de experimentação). Essa é a principal aplicação nesse momento em todo o mundo, e é assim que tem de ser. Justamente por conta disso, a cada dia surgem novos resultados, sugerindo que as CTEHs são capazes de reverter a progressão de várias doenças.

Quanto à aplicação clínica em humanos, eu não gosto de fazer previsões. Dizem que, quando alguém afirma que em cinco anos haverá terapia (seja essa terapia celular, gênica ou qualquer outra), na verdade não faz a mais vaga idéia de quando a terapia de fato estará disponível (e se depois dos cinco anos esse alguém for novamente questionado a respeito, repetirá que em cinco anos a terapia irá surgir).

Não dá para arriscar, podem ser cinco, dez ou 50 anos. O que posso afirmar, entretanto, é que nenhuma terapia estará disponível se não houver investimento em pesquisa. Nunca surgirão novos tratamentos sem pesquisa biomédica.

Cabe mencionar ainda que as pesquisas com células-tronco adultas não substituem os estudos envolvendo células-tronco embrionárias. Pesquisas com células derivadas da medula óssea, tecido adiposo, entre outras fontes, devem ser incentivadas, mas não eliminam a importância de se pesquisar CTEHs. São células distintas, com potencial distinto e aplicações idem.

As células-tronco embrionárias humanas foram isoladas pela primeira vez em 1998, ou seja, há menos de dez anos. Não se pensa (ou não deveria se pensar) em terapia com essas células neste momento, apesar de seu potencial para utilização terapêutica ser (e continuar sendo) imenso. Precisamos pensar em pesquisa.

Fonte: G1

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