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Lent analisa neurociência no Brasil e proposta do MEC e MCT para fomento 23/03/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Utilidade pública.
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08/03/2007

Mônica Maia

Uma das estrelas da pesquisa científica brasileira, o novo diretor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da UFRJ, Roberto Lent, transcende as fronteiras da academia e dos laboratórios. Professor titular de Neurociência do Departamento de Anatomia do ICB, Lent, fundador da revista Ciência Hoje – agora também um portal de referência em divulgação científica –, é sócio da Vieira & Lent Editores, voltada à publicação de livros assinados por cientistas. Autor de Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais da neurociência – a primeira obra de autor nacional sobre o tema, lançou a coleção de livros infantis Aventuras de um Neurônio Lembrador, publicada em co-edição pela FAPERJ. Este ano ele recebe apoio da Fundação por meio do programa Cientistas do Nosso Estado. Seu tema de pesquisa é Desenvolvimento de Plasticidade do Córtex Cerebral. Nesta entrevista, Lent opina sobre o desenvolvimento da neurociência no Brasil e no Estado do Rio, o papel das agências de fomento, e avalia as políticas de divulgação científica no país.

Boletim da FAPERJ: Durante simpósio no Rio Grande do Norte, em fevereiro, foi inaugurado oficialmente o Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN). A nova instituição deverá promover ciência de ponta, educação científica a jovens e atendimento médico à população carente local. O que isso significa e como a neurociência pode se vincular a projetos sociais?
Roberto Lent: O IINN é um projeto de mérito e tem conseguido captar recursos públicos, correndo por fora dos canais abertos ao restante da comunidade científica. Sendo assim, as expectativas sobre o seu êxito são enormes. Pelo que sei, sua proposta maior é de repatriamento dos neurocientistas nascidos no Brasil, mas radicados no exterior. O retorno desses colegas será importante para somar-se aos que aqui permaneceram todo o tempo, e isso poderá ser aferido dentro de alguns anos. O professor Miguel Nicolelis, no entanto, certamente no entusiasmo pelo seu projeto, tem manifestado um certo desapreço pelo patrimônio construído pelos neurocientistas brasileiros, o que não é sábio para quem deseja repatriar-se e integrar-se à comunidade local. O Brasil conta com uma neurociência madura, com muitos grupos da melhor qualidade e inserção internacional no Rio, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pará e Brasília. A disciplina tem grande presença nos congressos da área biológica e biomédica, como os congressos da FeSBE, possui uma sociedade brasileira (SBNeC) com algum porte, que neste momento discute o convite que recebeu de sediar no Brasil em 2008 o Congresso da International Brain Research Organization. O vínculo a projetos sociais tem objetivos generosos, mas representa um grão de areia no mar de desigualdades em que vivemos no país.

Bases neurofisiológicas do sono, reações ao tecido neural, reações a implantes… Quais são as áreas mais vibrantes e promissoras da neurociência?
A neurociência tem muitas áreas vibrantes. Ela lida com o sistema nervoso, que define a nossa humanidade. Suas questões, então, tocam a nossa curiosidade sobre nós mesmos: como pensamos, como nos emocionamos, como falamos, por que sonhamos. Todas essas capacidades humanas podem estar alteradas nas doenças neurológicas e psiquiátricas, e agora visualizamos alternativas de tratamento ou cura. É impressionante que possamos intervir no cérebro para alterar sua função e isso é ao mesmo tempo instigante e assustador, levando em conta que podemos fazê-lo “para o bem ou para o mal”.

Pesquisadores da PUC-RS, da UFMG e do IINN divulgaram trabalhos que ajudam a esclarecer um dos desafios da neurociência — os mecanismos cerebrais que fazem a memória durar. O que há de novo nesse front específico da investigação científica?
O grupo do professor Ivan Izquierdo, da PUC do Rio Grande do Sul, tem grande tradição de excelência no estudo da memória, que envolve diferentes aspectos, todos muito apaixonantes: como guardamos informações no cérebro, como selecionamos as que vamos guardar e as que vamos esquecer, como guardamos algumas por pouco tempo (horas), outras por muito tempo (anos!). A obra científica do professor Izquierdo — toda construída no Brasil — é uma evidência da maturidade de nossa neurociência.

Que temas estão sendo privilegiados pelos pesquisadores de neurociência no estado do Rio de Janeiro?
O Rio de Janeiro tem muitos laboratórios de neurociência, na UFRJ, Uerj e UFF. Trabalha-se com diferentes abordagens: sistêmicas — como a percepção visual, o registro das emoções, os comandos da motricidade; celulares — como a interação entre neurônios e outras células, o desenvolvimento e a plasticidade do sistema nervoso; e moleculares — como os mecanismos causadores de doenças neurodegenerativas, por exemplo. A FAPERJ apóia o Instituto Virtual de Doenças Degenerativas, que está no ar há alguns anos. A massa crítica fluminense em neurociência é bastante significativa, com presença em diversos programas de pós-graduação de nota 7.

O governo divulgou o Plano Nacional de Pós-Doutorado para coibir a “fuga de cérebros”. Pretende criar um programa gerido pelo MEC e MCT para manter no país doutores recém-formados sem colocação no mercado de trabalho oferecendo bolsas de R$ 3,3 mil mensais mais um complemento de empresas, centros de pesquisas ou instituições de ensino. A ajuda contaria com seleção da Finep, CNPq e complementação de uma fundação de amparo à pesquisa estadual. Como o senhor avalia a iniciativa?
Tenho a impressão de que se trata de um programa interessante. O pós-doutor tem sido, internacionalmente, um profissional de alta qualificação que na verdade toca os laboratórios dos pesquisadores sêniores. No entanto, sua existência reflete um problema. O mercado das universidades e das empresas não absorve os doutores formados regularmente no sistema e por isso é preciso criar para eles uma “isca” para permanecerem no país. Mas se pensarmos bem, poucas dentre as nossas universidades têm mais de 50% de doutores em seus quadros docentes! Portanto, há algo de errado nessa equação.

Professor titular de Neurociência do Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da UFRJ, o senhor acaba de ser empossado na direção do referido instituto. Quais serão as ações prioritárias de sua gestão?
Penso que está madura a necessidade de integrar o trabalho que se faz no Instituto de Ciências Biomédicas aos esforços de pesquisa médica e ao atendimento de pessoas. Trabalhamos no instituto com bioengenharia, neurooncologia, neuropatologia experimental, uso de células-tronco como alternativa terapêutica, desenvolvimento de fármacos, além de vários aspectos básicos da biologia. Pretendemos então integrar esse trabalho ao Hospital Universitário e à Faculdade de Medicina, e unir esforços para abordar questões de interesse médico com a necessária ênfase científica. Os profissionais de saúde se beneficiam da integração com pesquisadores porque isso qualifica o seu trabalho, e estes precisam estar próximos aos doentes para manter um sentido mínimo de aplicabilidade de suas pesquisas. É um equilíbrio delicado, porque a ciência básica é fonte de idéias novas que surgem de seu desapego à realidade. Mas também é verdade que em um país como o nosso, temos que ter um compromisso mínimo para oferecer benefícios diretos aos doentes. Será importante que a FAPERJ possa nos ajudar nesse projeto.

Qual a sua avaliação do panorama da difusão e divulgação do conhecimento científico no país? E as dificuldades que os pesquisadores enfrentam?
A divulgação científica avançou muito no Brasil, desde que começamos a pensar nela nos anos 1970, inspirados pelo pioneiro José Reis. Faz-se divulgação científica de todos os tipos no Brasil de hoje: no teatro, no cinema, na TV, através de revistas, livros, jornais, museus, exposições, até em desfiles de escolas de samba. Isso é excelente, embora ainda seja pouco tendo em vista o grau de desconhecimento do público sobre a ciência. E há um grande obstáculo que falta vencer: precisamos unificar a ciência com as humanidades. Ciência também é parte da cultura, não é algo “especial”. Os programas do MEC que distribuem livros para as escolas, por exemplo, não consideram os livros de divulgação científica. As crianças devem ler muita literatura, muita história, mas também devem ler muita ciência. Darwin e Shakespeare convivem lado a lado dentre as conquistas da Grã-Bretanha e da humanidade, assim como Pasteur e Voltaire na França. Por que não considerar o mesmo para Santos Dumont e Machado de Assis?

Fonte: FAPERJ

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