jump to navigation

O novo mapa do cérebro 20/03/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Você sabia?.
trackback

A ciência começa a solucionar alguns mistérios que envolvem a caixa-preta humana, comprova a eficácia de terapias hoje consideradas clássicas e traz à tona descobertas que podem mudar o rumo dos tratamentos neurológicos

por Fábio de Oliveira, de Natal, com reportagem de Samuel Ribeiro

É impossível apreciar toda a musicalidade de uma sinfonia como a Nona de Beethoven apenas ouvindo uma de suas notas. Com o cérebro acontece algo semelhante. A compreensão das funções e peculiaridades da massa cinzenta dificilmente será alcançada por meio do estudo de uma única célula nervosa. Dessa forma, os cientistas hoje tentam escutar a fundo o concerto neuronal que ecoa via impulsos elétricos dentro da nossa cabeça. Por meio de eletrodos e de exames de imagem capazes de visualizar o que acontece no sistema nervoso eles estão conseguindo decifrar e transcrever fragmentos da partitura conhecida como mente humana e, assim, encontrar meios eficientes para tratar as notas tristes de males como a depressão ou o Alzheimer.Parte desses esforços pôde ser conhecida no Segundo Simpósio Internacional de Neurociências, realizado no final de fevereiro em Natal, no Rio Grande do Norte. O evento contou com mais de 700 participantes e reuniu sumidades provenientes das principais universidades do mundo e do Brasil, que ali expuseram os resultados dos mais recentes estudos da área. O encontrotambém oficializou a inauguração do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra, uma iniciativa que pretende transformar o país em um dos centros de referência na pesquisa sobre a nossa caixa-preta.

Um dos trabalhos apresentados durante a reunião pode ser considerado um marco. Trata-se do primeiro estudo brasileiro a mostrar que a psicoterapia provoca mesmo mudanças na atividade cerebral. Em outras palavras, é a comprovação de que uma técnica subjetiva altera os circuitos neuronais. Conduzida na Universidade de São Paulo, a investigação acompanhou pacientes diagnosticados com um tipo específico de estresse pós-traumático, o parcial, que pode vir à tona depois de um seqüestro relâmpago, por exemplo. Nessa formado problema, nem todos os sinais clássicos do transtorno, como pesadelos e embotamento afetivo, se manifestam. “Nervosismo, irritabilidade e memórias recorrentes do evento desencadeador é que costumam ser os sintomas do estresse pós-traumático parcial, que acomete 30% da população”, explica o psicólogo clínico Julio Peres, autor da pesquisa.

Do total de 27 participantes do estudo da, USP sobre o impacto da psicoterapia, 16 compareceram a sessões de uma hora cada durante dois meses. Todos os voluntários, no entanto, se submeteram à tomografia de emissão de pósitron único no início e logo após a conclusão da pesquisa. Esse exame de imagem fornece uma fotografia do cérebro em determinado momento. Para isso o indivíduo recebe uma injeção com uma substância que fica impregnada no tecido cerebral. É ela que permite visualizar quais áreas se encontram mais ou menos ativas.

Antes do exame os integrantes do grupo da psicoterapia ainda leram em voz alta um texto que evocava o evento traumático. Durante o tratamento eles foram incentivados a falar sobre o ocorrido e orientados a construir uma espécie de banco de memórias positivas, um resgate de boas experiências do passado, como a aprovação no vestibular. O objetivo final era modificar a maneira como aquelas pessoas enxergavam a situação responsável por deflagrar o transtorno.

Os resultados do trabalho revelaram que áreas da massa cinzenta como o córtex préfrontal, região que classifica os eventos, o hipocampo, que é o grande encarregado de processar nossas lembranças, e os lobos parietais, responsáveis pela localização dos acontecimentos no tempo e no epaço, ficaram mais ativas nos indivíduos sob terapia. “Além disso houve uma atenuação da atividade da amígdala, estrutura relacionada à expressão de emoções como o medo”, descreve Julio Peres. Em suma, ocorreu o que os especialistas chamam de neuroplasticidade, um termo complicado que pode ser traduzido como a capacidade que o cérebro tem de se reestruturar. E o avanço das neurociências evidencia que técnicas psicológicas como a psicoterapia têm de fato uma ação no nível biomolecular.

O QUARTEL-GENERAL DA MENTE
No cérebro estão os centros de comando que coordenam tudo o que acontece no corpo humano. São aglomerados de células nervosas cuja única função é ditar as regras

Clique aqui e veja ilustração interativa

01.jpg

OS LOBOS E OS CÓRTICES

Clique aqui e veja ilustração interativa

02.jpg

Um outro estudo, realizado em conjunto por pesquisadores da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, e da Academia Sahlgrenska, na Suécia, reforça a idéia de que as revelações muitas delas inusitadas sobre a massa cinzenta são capazes de mudar o rumo do tratamento de doenças como Parkinson e Alzheimer. Os especialistas suecos e neozelandeses encontraram uma espécie de fábrica de neurônios no sistema nervoso de adultos, atestando que seu cérebro pode, sim, criar células nervosas novinhas em folha – proeza que, acreditavam antes, só podia ser realizada nos anos de infância. Os pesquisadores chegaram até mesmo a localizar uma das maternidades que abrigam células-tronco capazes de se transformar em neurônios. Trata-se da zona subventricular, situada nas paredes dos ventrículos laterais, câmaras entre os hemisférios cerebrais cheias de liquor. Da zona subventricular essas células-tronco migram para o bulbo olfatório, região que processa os odores que sentimos. “Nessa área as células nervosas estão constantemente morrendo. Por isso ela requer substitutas sempre”, explica à SAÚDE! Maurice Curtis, um dos autores da pesquisa. O pulo-do-gato era saber como se dava esse processo migratório.

Em roedores e outros mamíferos já se sabia que existe uma espécie de tubo que realiza a conexão entre a maternidade e o bulbo. Mas isso ainda não havia sido verificado em seres humanos. Por meio do uso de várias técnicas e de um potentíssimo microscópio eletrônico o time de Curtis traçou o mapa desse caminho onde as células-tronco passam por uma verdadeira metamorfose. “Um outro trabalho de minha autoria mostrou que, em resposta a doenças neurodegenerativas, a zona subventricular produz mais células nervosas do que numa situação normal”, conta Curtis. “Se conseguirmos controlar esses novos neurônios e encorajá-los a viajar para áreas que estão morrendo por causa de doenças talvez possamos mudar o rumo do tratamento dos males cerebrais.”

O Hospital Sírio Libanês, na capital paulista, o Instituto Internacional de Neurociência de Natal e a Universidade Duke, nos Estados Unidos, fi rmaram uma parceria em terras brasileiras para pesquisar uma nova cirurgia para portadores do mal de Parkinson, doença degenerativa que se caracteriza pela perda do controle dos movimentos. “O hospital será a primeira instituição fora dos Estados Unidos a realizar esse tipo de operação”, diz o brasileiro Miguel Nicolelis, co-diretor do Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke e um dos maiores nomes das neurociências nos dias de hoje. Trata-se de um implante de um marcapasso cerebral que, por meio de estímulos elétricos, melhora sintomas da doença, como os tremores. O objetivo é chegar a um procedimento menos invasivo e com menor tempo de duração.

A realização dessa modalidade cirúrgica também vai permitir o desenvolvimento de próteses inimagináveis até há pouco tempo para os paraplégicos. Isso porque a operação é feita com o auxílio de finos eletrodos que fazem um mapeamento da atividade dos neurônios de maneira mais precisa e abrangente, localizando o ponto em que o estimulador deve ser fi xado. Além disso, o procedimento é levado a cabo com o indivíduo consciente. Ou seja, o cirurgião pode lhe pedir para movimentar as mãos, por exemplo. Para resumir a ópera, toda essa informação coletada nas células nervosas deverá ser armazenada em um computador. E, num futuro próximo, esses dados serão disponibilizados em um microchip que, implantado lá na cabeça de quem perdeu os movimentos dos braços transmitirá os comandos motores para uma prótese. E o melhor: sem fio. O braço mecânico se mexerá só com a força do pensamento.

Já o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo disponibilizou no início do ano uma técnica até então experimental para o tratamento da depressão. Denominado de estimulação magnética transcraniana, o método, indolor, se vale de uma máquina cuja função é produzir um campo magnético que penetra até 3 centímetros no cérebro. “O equipamento fica 15 minutos encostado na cabeça do paciente”, explica Marco Antonio Marcolin, coordenador do Grupo de Estimulação Cerebral do Instituto de Psiquiatria. “O campo magnético é ligado e desligado para ativar ou desativar regiões cerebrais de acordo com o problema que está em foco”, continua Marcolin. “Sem falar que é um instrumento não invasivo”, conclui.

Os médicos chegam a essas áreasalvo por meio das imagens do sistema nervoso disponíveis na literatura médica. Assim, no caso da depressão, miram-se circuitos que não estão funcionando do jeito que deveriam, como o córtex dorso-lateral-pré-frontal esquerdo. O objetivo, aí, é dar um estímulo extra para normalizar a situação. Dores de cabeça passageiras são o único efeito colateral notado até o momento por quem apelou para a técnica. Os estudos com o método têm apresentado bons resultados no controle da depressão. “Agora queremos verificar se as taxas de recaída da doença são semelhantes com o uso da técnica”, diz Marcolin. Tudo pelo bem da nossa saúde mental.

UM SUPERCOMPUTADOR
Conheça o Blue Brain, o projeto que pretende criar um cérebro artificial

“Não há um neurocientista que acredite ser possível entender o cérebro. É um paradoxo.” Foi o que disse durante sua palestra no encontro de Natal o pesquisador Henry Markram, diretor do Blue Brain, um projeto patrocinado pelo gigante da informática IBM que pretende construir um modelo computacional do nosso sistema nervoso até 2015. Em bom português, trata-se do cérebro eletrônico. Por meio dele os cientistas querem saber exatamente como funciona a massa cinzenta na sua totalidade. Um entendimento que custará caro: Markram prevê o gasto de 3 bilhões de dólares anuais só com eletrecidade para fazer o cérebro artificial funcionar.

AS PARTES DA CÉLULA NERVOSA
Conheça a estrutura de um neurônio

Clique aqui e veja ilustração interativa

03.jpg

POR ONDE ENTRA A INFORMAÇÃO
Veja onde se localiza cada um dos 13 pares de nervos

Clique aqui e veja ilustração interativa

04.jpg

Fonte: Revista Saúde é Vital, edição de abril de 2007

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: