jump to navigation

Limitações e independência 02/03/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Qualidade de vida.
trackback

Minhas limitações continuam existindo, eu não as supero. Porém, à medida em que se destacam, vou descobrindo formas de contorná-las, para que interfiram o menos possível em minha rotina, sobretudo quando estou sozinha com meus filhotes.

Marcela Cálamo Vaz Silva*

Todo mundo possui limitações, afinal, somos humanos e, mesmo aqueles que pensam que podem tudo, acabam esbarrando em alguma limitação.

Eu tenho várias que crescem à medida que a idade vai aumentando. Há algum tempo, por exemplo, comecei a ter dificuldade de ler letras miúdas. Ía afastando o papel dos olhos até que pudesse ler algo. Às vezes, nem afastar resolvia e eu ficava com raiva de não conseguir ler o que queria. Resolvi meu problema com um par de óculos. Benditos óculos! Hoje leio qualque letrinha com eles.

Minha visão espacial é outro limitação que tenho. Não há como eu imaginar algo em determinado lugar sem que este seja colocado lá. Cada vez que invento de mudar os móveis de lugar aqui em casa, Benê sabe que terá muito trabalho pela frente, pois terá de arrastá-los muitas e muitas vezes.

Também não posso ficar em pé, nem mesmo com aquela cadeira de rodas stand up, pois arriscaria ter uma fratura se forçasse meus joelhos. Benê procura deixar tudo que preciso no dia-a-dia ao meu alcance, mas, às vezes, ele esquece que não posso levantar e deixa coisas essenciais lá no alto. Se é algo que não quebra, uso uma vassoura, um rodo e puxo, caso contrário, fico com raiva, brigo com Benê quando ele chega e ele, coitado, morre de remorso.

Não consigo levantar coisas com as duas mãos, pois não tenho total equilíbrio em meu tronco. Porém, sou bastante forte e, na maioria das vezes, levanto o que preciso com uma das mãos, enquanto com a outra me seguro na cadeira para não desequilibrar. Ultimamente, vou descobrindo limitações em relação a meu pequeno, Luís Felipe de dois anos. Não consigo pegá-lo “na marra” para coisa alguma, já que não tenho como tirá-lo do chão sem a ajuda dele. Se quero que vá para o berço, ele também precisa querer e, assim, sobe em meu colo e do colo eu o ponho no berço. Acontece que, na maioria das vezes, ele não quer.

Finca no chão feito estaca e não há como tirá-lo de lá. Brigar, se estressar, tentar usar a força, não adianta. Já testei e foi só nervosismo à toa. Nessa hora, fiquei com raiva de não poder pegá-lo, mas, em seguida, percebi que era somente mais um teste para achar soluções às adversidades de meu dia-a-dia. Desde então, coloco em ação minha capacidade de contornar limitações com criatividade, achando formas, a cada dia, de tornar a ida ao berço algo atrativo a ele. Funciona e é bem mais tranquilo.

Serão, esses, exemplos de superação? Minhas limitações continuam existindo, eu não as supero. Porém, à medida em que se destacam, vou descobrindo formas de contorná-las, para que interfiram o menos possível em minha rotina, sobretudo quando estou sozinha com meus filhotes.

Achar soluções para problemas diários, sejam quais forem, é algo que se torna natural quando a independência está nos guiando. Não se trata de acordar e pensar “hoje vou superar minhas limitações! Hoje vou superar minhas deficiências!” Mas, sim de pensar “Hoje vou cuidar da vida e ser o mais independente que eu puder!”.

* Marcela Cálamo Vaz Silva
39 anos, é professora particular, mãe de dois meninos e autora do livro infantil RODAS, PRA QUE TE QUERO! (Editora Ática). Aos seis anos, tornou-se paraplégica devido a uma infecção na medula. Para entrar em contato com ela, acesse seu blog em http://tchela.blogspot.com/.

Fonte: Revista Sentidos

%d blogueiros gostam disto: