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Você agüenta a PRESSÃO? 26/02/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Qualidade de vida.
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Tem gente que enfrenta o baque. Cai, mas logo ergue a cabeça. O segredo tem nome: resiliência. Ela é a chave para lidar melhor com as vicissitudes

por Gabriela Cupani | design Robson Quinafélix | fotos Dercílio

O catarinense Vanderlei Quintino ficou arrasado com a morte do piloto de F-1 Ayrton Senna. Ele assistia à corrida preso a uma cama de hospital, onde tinha sido internado na véspera, vítima de um acidente de moto que lhe custou uma perna. A dor pela morte do ídolo, numa curva do autódromo, foi maior do que a da própria amputação, garante. “Mas logo o impacto daquela notícia se tornou a mola propulsora e comecei a pensar nas próteses que poderia usar e nas soluções para o meu problema”, lembra-se. “Encarei a perda como um desafio.” Cheio de determinação, tocou a vida. Trocou o futebol pela natação — e não como simples hobby, já que passou a competir nessa modalidade, colecionando medalhas. Casouse, teve uma filha e começou a estudar educação física. “Quero ensinar crianças com deficiência”, diz, entusiasmado.O segredo de Vanderlei para encarar sua tragédia pessoal é uma característica descrita há relativamente pouco tempo pelos psicólogos — a resiliência. O termo, tomado por empréstimo da física, se refere à propriedade que alguns materiais têm de se deformar quando submetidos a pressão e em seguida voltar ao estado anterior, sem alterações. Pessoas resilientes conseguem superar um trauma sem sofrer as conseqüências negativas do estresse, como doenças físicas e emocionais. Tudo graças a uma grande energia interior.

Resiliência não significa ausência de sofrimento. A diferença é a forma de vivenciá-lo. “Pessoas resilientes têm grande capacidade de adaptação”, aponta a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da filial brasileira da International Stress Management Association, entidade voltada para a prevenção e o tratamento do estresse. “Elas sofrem, mas reúnem forças e se reposicionam”, acrescenta a psicóloga Carmem Rittner, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Também é certo que, depois de encarar uma situação adversa, as pessoas tendem a aprender a lidar melhor com outros acontecimentos negativos — como se ficassem imunizadas. Recentemente um estudo americano desvendou os circuitos cerebrais dessa vacina antitrauma. Os pesquisadores mostraram que viver uma experiência estressante gera uma espécie de bloqueio contra a ativação exacerbada de neurônios que acontece diante de um choque, criando uma espécie de blindagem capaz de provocar resposta mais positiva a uma nova adversidade. Vanderlei sentiu na prática esse mecanismo. Oito anos depois do acidente em que perdeu a perna, ele deparou com o diagnóstico de retinose pigmentar, doença ocular que pode levar à perda da visão. “As coisas acontecem, não adianta ficar chorando”, diz ele, que novamente foi à luta em busca de informação, tratamento e até, eventualmente, preparo para começar a praticar esportes como deficiente visual.

Será que a resiliência é totalmente inata ou pode ser aprendida? O que faz com que pessoas que nasceram e cresceram enfrentando todo tipo de obstáculo muitas vezes se saiam melhor do que aquelas que tiveram uma vida fácil? “A capacidade de resiliência se define na interação do indivíduo com o meio ambiente e é construída na história da pessoa”, explica Carmem Rittner, que justamente por isso critica os pais que dão tudo de mão beijada aos filhos. “O que define a resposta do indivíduo às situações é a combinação entre suas características e o sentido que dá às experiências vividas”, faz eco Maria Ângela Yunes, psicóloga da Fundação Universidade Federal do Rio Grande, em Porto Alegre, que defendeu tese de doutorado sobre o tema.

Há componentes essenciais ao resiliente, como otimismo e nível de energia, que parecem vir de berço. Mas eles podem ser fortalecidos com um estilo de vida saudável que adota posturas mais favoráveis. “O resiliente acredita na sua própria capacidade de criar as habilidades necessárias para resolver o problema, mesmo que ainda não as tenha”, diz Eugênio Mussak, educador e consultor de empresas no desenvolvimento de executivos. Aí mora um bom exemplo dos resilientes que pode servir de inspiração.

Gerenciar de maneira mais positiva as emoções não é uma tarefa fácil — principalmente quando a vida dá seus baques. Mas é possível. “A pessoa precisa ter consciência de seu potencial e investir nele”, ressalta Mussak. “Deve-se conhecer as características que fazem o resiliente se reprogramar”, acrescenta Ana Maria Rossi. Até com ajuda de terapia, se necessário.

MAIS CABEÇA, MENOS PAIXÃO

Com algumas mudanças de atitude é possível encarar melhor os desafios do dia-a-dia e até mesmo aqueles momentos que, à primeira vista, nos fazem perder o chão. “Tente avaliar a situação como um todo, diagnosticar o ambiente para ver as alternativas”, recomenda Carmem Rittner. “É importante ter uma visão menos apaixonada, menos emocional”, concorda Eugênio Mussak. Isso ajuda a dimensionar corretamente qualquer questão e encontrar alternativas de saída. Faça um esforço para manter uma atitude positiva e tente observar os riscos e as oportunidades que o mundo oferece ao mesmo tempo que se conscientiza de suas próprias forças e fraquezas.
À PROVA DE CHOQUES

Um estudo conduzido pela ISMA-Br revela as características dos resilientes

Auto-estima
97% dos resilientes têm essa qualidade em alta. Eles transformam obstáculos em desafios, com a certeza de poder superá-los.

Flexibilidade
86% mostram grande capacidade de adaptação, lançando mão da criatividade para superar as situações adversas.

Sentido de vida
78% possuem objetivos bem definidos e um claro porquê para sua existência.

Aos 20 anos Vanderlei Quintino teve que aprender a viver sem uma perna. Hoje, aos 33, é presidente do Centro Esportivo para Pessoas Especiais, uma ONG de Joinville, Santa Catarina, que busca integrar os deficientes na sociedade por meio do esporte. “Descobri novas capacidades em mim depois do acidente”, diz.

Fonte: Revista Saúde, Fevereiro de 2007

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