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85 peguntas que podem salvar a sua vida 17/02/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Utilidade pública.
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VEJA ouviu 35 médicos de catorze
especialidades sobre um novo tipo
de paciente: ele chega ao consultório
bem informado sobre a sua saúde


Paula Neiva, Giuliana Bergamo e Camila Antunes

Da internet surgiu um novo tipo de paciente: ele chega ao consultório médico cada vez mais informado sobre sua saúde e os progressos da medicina. Segundo levantamento da consultoria americana Pew Internet & American Life Project, oito de cada dez usuários da rede já recorreram a sites especializados em saúde. No Brasil, estima-se que 10 milhões de pessoas corram para o computador em busca de ajuda para problemas médicos. Os melhores conhecedores dos caminhos da rede conseguem acesso a trabalhos acadêmicos, imagens e até vídeos profissionais detalhando cirurgias complexas. Grupos de usuários da internet dão relatos de seus tratamentos, trocam impressões sobre remédios, informam-se sobre drogas que estão em diferentes estágios de aprovação pelas autoridades de saúde. Com tanta informação, um paciente com algum conhecimento geral pode chegar diante de um médico especialista com uma carga de informações até maior do que a do profissional. Isso ajuda? Muitos médicos acham que não. Saber demais na teoria pode aumentar a ansiedade do paciente e levá-lo a se autodiagnosticar e a se automedicar. Mas, por outro lado, saber mais sobre os limites da medicina pode ajudar o paciente a dialogar melhor com seu médico. Diz Antônio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, com base na experiência dos últimos trinta anos: “O acesso à informação médica na internet criou pacientes mais questionadores e gabaritados para expor suas dúvidas”.

Há pelo menos dois desdobramentos desse fenômeno. O primeiro deles é que o paciente participa mais ativamente das decisões sobre sua própria saúde e pode pesar, junto com o médico, os riscos e os benefícios dos tratamentos. A situação é positiva sobretudo quando a decisão a ser tomada é de natureza delicada – e arriscada – como uma intervenção cirúrgica.

Um segundo resultado benéfico para o paciente bem informado é que ele tem mais condições de avaliar a qualidade de uma consulta e, portanto, de exigir do médico que conheça – e fale – sobre as descobertas mais recentes de sua especialidade. Com pacientes mais curiosos, o tempo de um atendimento típico num consultório particular aumentou. Estimam os especialistas que cerca da metade do tempo das consultas passou a ser gasto com o esclarecimento de dúvidas trazidas pelo próprio paciente. Isso força os médicos a se atualizarem. Em menos de uma década, o número de novos profissionais de saúde que se tornaram usuários da maior biblioteca virtual científica da América Latina, a Bireme, quase triplicou. Por essas razões, os especialistas apostam que o aumento da utilização dos recursos médicos on-line vai levar a uma melhora constante no relacionamento do médico com os pacientes, em benefício de ambos.

Brand X Pictures

O outro lado do mesmo fenômeno preocupa os médicos. O excesso de informações circulando na rede abre caminho para a automedicação – adversária de um bom tratamento médico. Pior ainda: quando isso ocorre, é freqüente que as pessoas tomem suas próprias decisões clínicas, como passar a tomar um novo medicamento, baseadas nos resultados de pesquisas conduzidas por instituições de reputação duvidosa ou a partir de blogs produzidos por leigos, que nada entendem sobre o que apregoam na rede. Um outro efeito colateral comum da abundância de dados na rede, segundo os médicos, é que alguns pacientes ficam tão confiantes que passam a se sentir mais especialistas que o especialista – e desconfiam de toda e qualquer orientação médica que não esteja de acordo com a informação que colheram como autodidatas. É o tipo de paciente que olhará o médico com ceticismo apenas pelo fato de ele não ter prescrito uma droga recém-chegada ao mercado – situação que na maioria das vezes não é resultado da ignorância médica, mas sim da avaliação de que o tal remédio pode não funcionar para o caso em questão. Adverte o cardiologista Otávio Rizzi Coelho, professor da Universidade de Campinas: “O paciente tende a se informar por dados gerais e isso pode criar resistência em entender que, na medicina, cada caso requer um determinado procedimento”.

O ponto ideal para uma boa consulta, portanto, é aquele em que o paciente usa as informações que colheu para fazer as perguntas certeiras – aquelas cuja resposta do médico leve ao melhor tratamento possível. Para cada doença, existe um conjunto de questões consideradas prioritárias. Depois de entrevistar 35 profissionais de quinze diferentes áreas da medicina, VEJA produziu uma lista com as perguntas que, feitas no consultório, têm grande repercussão positiva na precisão do diagnóstico e do próprio tratamento. A resposta para elas pode levar à melhora da qualidade de vida e, em alguns casos, salvar vidas. As perguntas dizem respeito às dez doenças que mais comprometem a saúde dos brasileiros – como a dor de cabeça e as alergias – ou as que ocupam as primeiras posições no ranking das grandes causas de morte no Brasil, como o câncer e as doenças cardiovasculares. O resultado está a seguir.

Doenças virais sexualmente transmissíveis

Orlando

O que são: conjunto de doenças causadas por vírus transmitidos principalmente por via sexual, sendo o HPV e o HIV os mais freqüentes
Quantas pessoas atingem no Brasil:
1 milhão (HIV) e 34 milhões (HPV)
O PACIENTE RECEBE UM DIAGNÓSTICO DE HIV POSITIVO

Outro exame é tudo que o incrédulo paciente quer fazer… Ele deve insistir com o médico?
Um bom médico vai, com toda a certeza, pedir um teste definitivo para detectar a presença do vírus e saber o grau de evolução da doença. Se o médico não pedir novos exames, insista. Pergunte se não seria esse o procedimento correto e por quê.

Vão ser feitos novos exames, mas, por segurança, o paciente deve se comportar socialmente como se já tivesse HIV?
Sim. O médico vai iniciar o tratamento no momento em que não restarem dúvidas sobre a presença do HIV. Mas ele deve recomendar ao paciente que evite desde já contatos sexuais de risco para o parceiro.

O diagnóstico positivo de HIV em geral sugere a presença de outras doenças. Se o médico prescrever remédios apenas para controlar o vírus…
…insista em ser testado para a presença de hepatite B e C e sífilis. Essas doenças podem sabotar o tratamento anti-HIV.

O paciente tem um parceiro ou parceira também com teste de HIV positivo. Se o médico disser que não há problema em continuarem se relacionando sem proteção, ele está correto?
Existem versões geneticamente diferentes dos vírus. O contato com um novo tipo de vírus pode agravar o quadro da doença.

Se o médico insistir no tratamento com o uso de velhos remédios contra o HIV, preferindo-os aos novos, como o Fuzeon, o paciente deve desconfiar?
Não. O fato de o médico não receitar um remédio recém-chegado ao mercado não significa que ele desconheça os mais recentes progressos científicos. Nem sempre uma novidade, como o Fuzeon, é o medicamento mais indicado para o paciente. No caso do HIV, há um tipo diferente de remédio para cada fase da infecção. O Fuzeon faz parte de uma nova geração de remédios que conseguem impedir a entrada do vírus na célula – portanto, uma etapa bem específica da infecção.

O PACIENTE RECEBE O DIAGNÓSTICO DE HPV POSITIVO

Ele deve insistir em fazer um novo exame para confirmar o diagnóstico?
Sim. Lesões semelhantes às causadas pelo HPV ocorrem em 70% da população sexualmente ativa, o que aumenta os riscos de um diagnóstico errado. Por essa razão, o médico deverá pedir ao paciente que faça um exame para analisar o material genético do vírus, para apenas depois disso dar a palavra final.

O médico insiste em tratar o paciente mesmo sem a presença de sintomas. É um exagero?
Não. Quase todos os casos de câncer de colo de útero no Brasil estão associados à presença do vírus HPV. Quando a infecção é tratada no estágio inicial, o risco de aparecer um tumor é quase nulo.

Há motivo para desconfiar do médico se ele não mencionar a vacina contra o HPV?
Não. O fato de não ter falado sobre essa vacina não quer dizer que a desconheça. Ela só chegará ao Brasil nos próximos meses e, aí sim, terá uso preventivo contra quatro tipos de vírus de HPV que causam tumores.

O médico minimiza a possibilidade de existirem infecções paralelas. Ele está certo?
Não. Uma pessoa com HPV está mais propensa a infectar-se com o vírus da aids, por sífilis ou clamídia. O médico deve pedir exames para investigar a presença dessas doenças.

O médico recomenda o uso da camisinha mesmo na ausência das lesões causadas pelo HPV. É exagero?
Não. As lesões causadas pelo vírus são curadas em 90% dos casos, mas mesmo assim persistem os riscos de contaminação.

Diabetes

Orlando


O que é:
aumento excessivo das taxas de açúcar no sangue
Quantas pessoas atinge no Brasil: 10 milhões


O PACIENTE RECEBE UM
DIAGNÓSTICO DE PRÉ-DIABETES

Se o médico concluir que não há necessidade de iniciar um tratamento, o paciente deve se contentar com essa orientação?
Não. Mesmo nos casos mais brandos da doença, o médico no mínimo indicará uma dieta, que deverá ser acompanhada de perto. Se não funcionar, será necessário recorrer a remédios antidiabéticos orais, para o controle da taxa de açúcar.


O PACIENTE RECEBE UM DIAGNÓSTICO DE DIABETES

Ele deve submeter-se a exames cardíacos?
Se o médico não pedir exames como o teste de esforço e o ecocardiograma, desconfie. O diabetes aumenta em pelo menos três vezes o risco de um infarto. Em muitos casos, portanto, esses exames salvam a vida do paciente.

O médico recomenda ter no bolso sempre quatro balas de goma para ser ingeridas nas eventuais crises de hipoglicemia. Não existe remédio menos rudimentar?
As balas são perfeitas para as crises eventuais. No caso de crises freqüentes, pergunte ao médico sobre a necessidade de fazer um monitoramento mais assíduo do índice de glicemia, com a ajuda de um aparelho de uso doméstico.

O médico decide trocar os remédios orais por insulina injetável. Não seria o caso de tentar mais com as drogas orais?
Discuta a decisão com o médico. Recorrer à insulina, porém, não é um recurso extremo. Mesmo casos leves de diabetes podem não ser efetivamente controlados sem insulina.

O médico não tirou nenhum tipo de alimento do cardápio. Isso é um erro?
Não. A diferença na dieta dos diabéticos bem controlados em relação à das outras pessoas está basicamente na quantidade, e não no tipo de comida – o que vale inclusive para os doces.

A taxa de açúcar no sangue está bem controlada. O médico insiste em manter o tratamento. O que isso significa?
Ao insistir no tratamento, o médico está prevenindo o aumento nas taxas de glicose. Sem remédios, esse índice pode subir e, pior, a doença pode se agravar.

O médico diz que o paciente está começando com os remédios uma parceria para a vida toda. Isso é razoável?
Sim. Apesar de os recursos para o controle das taxas de açúcar no sangue serem eficientes, eles não curam a doença e muitas vezes nem mesmo impedem sua progressão.

O médico se preocupa apenas com a leitura dos exames e não leva em conta o estilo de vida do doente. O que ele precisa ouvir nesse caso?
Existe a suspeita forte de que quadros de stress agravam o diabetes, uma vez que a pessoa nessa condição libera hormônios que podem anular o efeito da insulina. Pergunte ao médico se não é o caso de se submeter a terapias complementares, mesmo as alternativas, para diminuir os níveis de stress.


UMA MULHER GRÁVIDA DESCOBRE QUE ESTÁ DIABÉTICA

O médico não prescreve medicamentos e insiste em controlar a doença apenas com dieta e exercícios físicos. Está certo?
Pergunte qual sua opção caso a dieta rigorosa e os exercícios físicos não funcionem. Discuta a possibilidade de usar um monitor a tiracolo que mede os índices de glicemia em intervalos bem curtos. Grávidas diabéticas que não controlam o açúcar no sangue correm mais risco de aborto e coma diabético. O bebê tem maior probabilidade de nascer com deformações e propensão à obesidade.

O médico menciona como possibilidade real recorrer ao novo tratamento por meio de transplante de células produtoras de insulina. Isso é futurologia?
Não. Mas o transplante tem suas limitações. A primeira é que seu efeito não dura mais que cinco anos para a maioria dos pacientes. Ele é indicado para diabéticos do tipo 1 que não conseguem controlar a doença nem mesmo com o uso de bombas de insulina.

Transtornos do humor

Orlando


O que são:
doenças psiquiátricas resultantes de alterações químicas no cérebro e que levam a distúrbios do humor, sendo a ansiedade e a depressão as mais freqüentes
Quantas pessoas atingem no Brasil: 12 milhões (ansiedade) e 9 milhões (depressão)


O PACIENTE OUVE DO MÉDICO
QUE ELE SOFRE DE DEPRESSÃO

Mesmo com todas as credenciais acadêmicas, o médico diz que o tratamento da depressão é um jogo de tentativa e erro. O que pensar?
É verdade. Encontrar o antidepressivo adequado para cada caso é um processo que pode levar tempo. Muitas vezes uma droga que funciona produz efeitos colaterais intoleráveis e precisa ser retirada.

Não são incomuns as dores físicas resultantes da depressão. O médico se recusa a prescrever analgésicos. Por quê?
Não é motivo para indispor-se com o médico quando ele se recusa a prescrever um remédio para dores tão comuns nesse caso, como por exemplo a de estômago. A razão é que nenhum medicamento resolverá o incômodo, já que tais dores não têm como origem problemas objetivos de saúde – mas são resultantes do quadro de depressão, contra o qual o único remédio indicado é o antidepressivo.

A depressão foi diagnosticada como leve. Mesmo assim, o médico insiste em tratá-la com remédios. Isso é errado?
No caso de depressões muito leves, o médico pode indicar a psicoterapia antes de recorrer a um antidepressivo. Se ele prescrever o remédio, insista em saber a razão. Há, de fato, situações em que o quadro da doença não é grave, mas ainda assim o antidepressivo é a melhor indicação.

Não existem testes laboratoriais para depressão. Como o médico pode ter certeza do diagnóstico?
A experiência e a literatura permitem hoje aos bons psiquiatras distinguir com exatidão um quadro de tristeza transitória de uma depressão química. Mas a subjetividade existe, e não se deve dispensar uma segunda opinião em caso de dúvida.

O psiquiatra insiste muito em saber detalhes da vida íntima e, em especial, das manias. Por quê?
Diante de um quadro de psicose maníaco-depressiva, metade dos remédios contra depressão não pode ser receitada. Paciência. O médico precisa saber tudo.


OS PAIS SÃO INFORMADOS DE QUE UM FILHO
ADOLESCENTE ESTÁ SOFRENDO DE DEPRESSÃO

O médico insiste que as estatísticas de suicídio de adolescentes tratados com antidepressivos não invalidam os tratamentos. Deve-se acreditar nele?
Sim. Mas um bom médico vai recomendar aos pais vigilância redobrada em relação aos filhos, sobretudo nas primeiras semanas do tratamento. O uso de antidepressivos aumentou o número de suicídios entre adolescentes americanos nas primeiras semanas do tratamento. As razões são ainda desconhecidas. Duas hipóteses são as mais aceitas. Primeira, o paciente se anima com as doses iniciais, sai do estado de prostração e ganha iniciativa para fazer o que vinha planejando há tempos. Segunda, o remédio não teve tempo de fazer efeito e o paciente se matou por estar realmente deprimido. Ou seja, ele tentaria o suicídio mesmo sem o remédio. De toda forma, a vigilância é essencial nessa fase.

O médico “receitou” apenas ioga e meditação. O que devo pensar?
Questione o tratamento, especialmente se os filhos já tiverem tentado esses expedientes antes. Se não tiverem, é uma satisfação, porque a “receita” equivale ao diagnóstico de que os filhos não sofrem de disfunções químicas no cérebro.


O PACIENTE TEM O DIAGNÓSTICO
DE TRANSTORNO DE ANSIEDADE

O médico mantém os remédios mesmo quando os sintomas acabaram. Isso é correto?
Sim. O abandono precoce do tratamento tende a levar à ocorrência de novas crises. Discuta com seu médico a questão da dependência ao remédio, de seu uso combinado com outros remédios e com a ingestão de bebidas alcoólicas. Essas questões, quando não respondidas direito, podem causar mais ansiedade ainda.

Questione o médico se ele decidir seguir com o calmante por um período de tempo superior a quatro meses.

Obesidade

Orlando


O que é:
excesso de peso que leva o índice de massa corporal a ultrapassar 30 (veja teste)
Quantas pessoas atinge no Brasil: 20 milhões


O PACIENTE OUVE DO MÉDICO
O DIAGNÓSTICO DE OBESIDADE

O médico diz que tem uma receita capaz de fazer o paciente emagrecer rapidamente. O que pensar?
Ele pode ter mesmo. Emagrecer não é difícil. Quase impossível é se manter magro para sempre. Discuta com seu médico qual a abordagem dele para evitar o “efeito sanfona”, o emagrece-engorda-emagrece-engorda que tanto mal faz à saúde.

O médico diz que a privação quase absoluta de carboidratos (massas, pão, açúcar…) é a única maneira de emagrecer rapidamente. Essa dieta não está desacreditada?
Não como tratamento de choque para emagrecer. Ela funciona. Mas há uma unanimidade entre os médicos de que ela não pode ser mantida por muito tempo. O excesso de proteínas e gorduras dessa dieta sobrecarrega os rins e as artérias, e, portanto, ela não deve ser mantida por mais de um mês.

O médico receita remédios para emagrecer, mas a idéia de que eles viciam é ainda muito forte. Como falar sobre isso com o médico?
Com toda a clareza. Os remédios para emagrecer que prejudicam o funcionamento do coração foram banidos da prática médica. Mas ainda são considerados seguros os remédios que reduzem a absorção de gorduras no intestino, os que aumentam a sensação de saciedade (ajudam a pessoa a se satisfazer à mesa com metade da quantidade de comida) ou os que inibem o apetite. Alguns tornam o metabolismo mais acelerado. Pergunte a seu médico se eles agem sobre a tireóide. Em caso positivo, aprofunde a conversa sobre a necessidade do remédio em contrapartida com os efeitos colaterais.

A dieta até funcionou, mas o médico quer manter a medicação. Isso é um erro?
Não. Quando o paciente perde mais de 10% de seu peso corporal, o ritmo de emagrecimento diminui e até se paralisa. É uma reação natural do organismo. O remédio ajuda a driblar esse mecanismo natural.

O médico prefere prescrever fórmulas para emagrecer a receitar remédios de laboratórios. O que isso significa?
Significa muitas coisas. A mais benigna é que o médico está adaptando a formulação especialmente para determinado paciente. Mas é sempre bom discutir as razões que o levaram a desprezar os remédios aprovados pelas autoridades de saúde.

O clínico diz que não tem mais como melhorar a vida do paciente e sugere uma cirurgia de redução do estômago. O que isso indica?
Indica que o médico chegou à conclusão de que o paciente sofre de obesidade mórbida, cujos riscos são ainda maiores do que os da cirurgia. O paciente deve questionar como o médico chegou a tal conclusão. Que dados ele utilizou para fazer a indicação da cirurgia? Não aceite a idéia de que a cirurgia resolve tudo. Pacientes que tiveram o estômago reduzido continuam sofrendo de apetite excessivo (um problema cerebral) e das ansiedades que infernizam a vida dos gordos, com o agravante de que estão fisicamente condenados a uma dieta de líquidos e de porções minúsculas.

O médico diz que a gordura abdominal, o famoso “pneuzinho”, pode matar. É um exagero?
Não. O excesso de gordura abdominal triplica os riscos de infarto e derrame e aumenta em cinco vezes a probabilidade de diabetes. Converse com seu médico sobre essas conclusões recentes da ciência médica. Neste ano deve ser aprovado um remédio que ajuda muito a reduzir os “pneuzinhos”. É o rimonabant. Discuta com seu médico se você é um candidato a esse remédio.

O médico aconselha o paciente a moderar nos exercícios físicos. Isso mostra a maior confiança dele nos remédios, não?
Não necessariamente. Embora se exercitar seja uma das estratégias mais eficientes no combate à obesidade, o médico tem razão ao contra-indicar certos esportes caso avalie que eles estão causando prejuízos às juntas. O perigo é o surgimento de artrose, doença que diminui a mobilidade das pessoas e leva ao aumento da obesidade.

Ao se queixar de apnéia do sono, a interrupção freqüente dos dutos que levam ar aos pulmões durante a noite, o médico diz ao paciente que basta ele emagrecer para o problema acabar. Deve-se acreditar nisso?
Teoricamente, o médico está certo. Mas as pessoas demoram a emagrecer com os tratamentos. Enquanto isso, a apnéia continua atrapalhando a vida delas e dificultando o próprio tratamento da obesidade. O sono reparador emagrece, portanto discuta com o médico as medidas imediatas para diminuir a apnéia. As mais comuns são: dormir de lado, moderar no consumo de bebidas alcoólicas e evitar remédios para induzir ou manter o sono.


UMA CRIANÇA RECEBE O DIAGNÓSTICO DE OBESIDADE

Os pais e a própria criança não se sentem desconfortáveis com a situação. O médico deve concordar?
Não. Uma criança obesa pode parecer absolutamente sadia, mas estará comprometendo a saúde futura. O médico deve aconselhar os pais a ajudar a criança obesa a perder peso com a adoção de dieta e exercícios físicos. É bom que comece logo. Se uma criança chega obesa aos 2 anos, ela tem 50% de probabilidade de se tornar um adulto gordo.

Distúrbios cardiovasculares

Orlando

O que são: conjunto de doenças que provocam o entupimento das artérias ou que prejudicam o funcionamento do coração
Quantas pessoas atingem no Brasil: 300 000 morrem por ano


UM PACIENTE DE MEIA-IDADE SADIO PROCURA AJUDA PARA PREVENIR-SE DA INCIDÊNCIA DE DOENÇAS CARDÍACAS

Ele diz ao médico que seus amigos da mesma idade tomam uma aspirina infantil por dia para evitar o primeiro infarto. O médico não se anima com a automedicação. Ele está certo?
Eis uma situação que deve ser resolvida caso a caso. As estatísticas mostram que de 80 a 160 miligramas de aspirina por dia ajudam a prevenir ataque cardíaco em pacientes que já sofreram o primeiro infarto. Por associação, muitos médicos receitam aspirina para pacientes sadios mas que estão acima do peso ou fumam. Discuta com seu médico se é esse o seu caso, se seu estômago tolera bem a ação corrosiva da aspirina. Discuta com ele a hipótese mesmo remota de você sofrer um derrame hemorrágico e, nesse caso, a aspirina, que atrasa a coagulação, piorar o caso.

O médico prescreve antiinflamatórios para prevenir o infarto. Ele está certo?
O infarto é o lance final de um processo inflamatório. Mesmo assim, o uso de medicamentos antiinflamatórios é contra-indicado tanto para prevenir quanto para tratar distúrbios cardiovasculares. Discuta com o seu médico caso precise usá-los no tratamento de outras doenças.

O paciente reclama de impotência. O médico manda fazer um chek-up completo. Um Viagra não basta?
Não. Pedir um check-up é o procedimento esperado dos médicos diante de um quadro de impotência que, claramente, não esteja associado apenas a doenças do aparelho urinário. A impotência pode indicar um problema circulatório mais amplo e ser um sinal avançado de risco cardíaco.


O PACIENTE RECEBE O DIAGNÓSTICO
DE DOENÇA CARDIOVASCULAR

O médico informa que a pressão sanguínea está dentro dos valores normais, mas opta por continuar com a medicação para controlá-la melhor. Isso significa que ele acha que o estado do paciente é ruim?
Não. Ele mostra que está atento aos estudos epidemiológicos mais recentes, que indicam que a interrupção do uso do remédio provavelmente fará a pressão voltar a subir. Discuta com o médico os efeitos colaterais de tomar diuréticos ou bloqueadores do sistema renina-angiotensina para manter a pressão nos padrões mais aceitos como normais.

O paciente não tem dor no peito, não está sofrendo infarto, mas a recomendação do médico é cirurgia imediata. O que pensar?
A primeira reação do paciente é obter uma segunda opinião. Os bons médicos não se incomodam com esse pedido. Para tornar a conversa com o médico mais produtiva, saiba que a combinação dos dois fatores a seguir sinaliza a necessidade de cirurgia:

1) uma coronária importante apresenta obstrução de pelo menos 70%;

2) o fluxo sanguíneo total no coração apresenta déficit.

Uma vez estabelecida a necessidade de cirurgia, o paciente deve começar a discutir a qual procedimento ele será submetido. Mais e mais as obstruções, mesmo múltiplas, são tratadas de modo menos invasivo por meio de cateteres que viajam dentro das artérias até o local entupido. São cada vez mais raras as cirurgias com abertura do tórax. Se seu médico insistir nessa segunda cirurgia, exija uma explicação detalhada de seu caso.

O paciente tem medo de morrer durante o teste de eletro de esforço, aquele da esteira em que o coração é monitorado. O médico minimiza o risco. O que fazer?
O risco existe. Afinal, o coração será testado em seu limite máximo. Em havendo um distúrbio não detectado pela auscultação e pelo eletro em repouso, existe o risco, ainda que pequeno, de sofrer uma parada cardíaca. Só aceite fazer o teste de esforço em locais com pessoal preparado e equipamentos de ressuscitação.


O PACIENTE JÁ SOFREU INFARTO,
TRATOU-SE E VOLTA AO MÉDICO

O médico receita remédios para trazer as taxas de colesterol para níveis abaixo dos normais. Ele está sendo exagerado?
Não. Os níveis de colesterol nesse caso devem estar sempre abaixo da média considerada ideal. Segundo estudo publicado no Journal of the American Medical Association, essa providência não apenas impede a formação de novas placas nas artérias como diminui as obstruções já existentes. Obter taxas muito baixas de colesterol apenas com o uso das estatinas (as drogas mais receitadas nesse caso) exige a prescrição das mais altas doses. Se esse for seu caso, pergunte a seu médico o que ele pretende fazer para evitar os efeitos colaterais raros, mas graves, associados ao uso das estatinas. São efeitos sobre o fígado e os músculos. Discuta com ele o uso combinado de outra classe de drogas anticolesterol, aquelas que agem apenas sobre a absorção de gorduras nos intestinos sem afetar o fígado.

O médico insiste no tratamento psicológico além do clínico. Isso é dispensável?
Os médicos que aconselham acompanhamento psicológico estão amparados pela boa literatura médica recente: 40% das pessoas que têm o coração operado desenvolvem quadros de depressão e ansiedade – o que pode atrapalhar o tratamento.

Câncer

Orlando


O que é:
multiplicação desordenada das células que leva à formação de tumores malignos
Quantas pessoas atinge no Brasil:
500 000 por ano

O PACIENTE PROCURA AJUDA PARA
PREVENIR-SE DA DOENÇA

O médico proíbe o fumo e corta os dois cigarrinhos por dia que o paciente se dava ao luxo de fumar. Melhor mudar de médico?
Não. Basta um cigarro por dia (mesmo do tipo light) para tornar uma pessoa mais vulnerável ao aparecimento de tumores.

O médico proíbe aquela dose diária de uísque ou as duas taças de vinho que “são boas para o coração”. Melhor mudar de médico?
Não. Mesmo em doses pequenas, o consumo habitual de álcool predispõe ao aparecimento de câncer na boca, no esôfago e no estômago.

O PACIENTE RECEBE O DIAGNÓSTICO DE CÂNCER

A paciente insiste com o médico que ainda assim deseja engravidar. O médico aconselha a focar na doença.
Discuta com ele a possibilidade de congelar óvulos para futura inseminação.

O médico manda parar o uso de qualquer medicamento que contenha hormônios. A paciente insiste em manter as pílulas anticoncepcionais…
Se o médico for conclusivo e mantiver a proibição, não adianta mudar de médico. O controle dos hormônios é vital para o acompanhamento da eficiência do ataque aos tumores.

O médico não recomenda exames de imagem capazes de localizar metástases invisíveis a outros métodos. Isso é estranho?
Discuta com ele, pois essa atitude pode ser a mais correta. Dado o diagnóstico inicial, o importante é que o tratamento seja feito o mais rapidamente possível e com toda a disciplina. Quanto antes se iniciar a terapia, menor é o risco de a doença se espalhar para outros órgãos.

METÁSTASE

Os anticorpos monoclonais são parte dos modernos tratamentos do câncer metastático. O que fazer se seu médico não os receitar?
O médico pode não os prescrever. Até hoje esses remédios foram desenvolvidos para apenas alguns casos de metástase de câncer de mama, colo, o de pulmão e leucemias.

CÂNCER DE MAMA

O médico recomenda de cara a retirada do seio atingido. O que fazer?
Ouvir a opinião de outro médico ajuda a tomar a decisão sem a sensação de que se fez a coisa errada. Todas as cirurgias de câncer retiram uma parte da mama. Discuta com o médico a possibilidade da cirurgia dupla: a retirada do seio e sua reconstrução imediata com prótese de silicone ou com o uso de músculos do abdômen.

O médico sugere a retirada preventiva dos ovários para evitar o reaparecimento da doença. O que se deve considerar nesses casos?
Pergunte a seu médico se o câncer diagnosticado em você é do tipo que tem receptores para o estrogênio ou do tipo que não tem esses receptores. Essa diferença é crucial na definição do tratamento. Se o seu caso for positivo, a retirada dos ovários pode ser recomendada, uma vez que eles produzem hormônios que estimulam o crescimento do tumor.

O uso da radioterapia já durante as operações de extirpação de tumores de mama tem ganho adeptos. Seu médico a descarta como uma inutilidade. O que pensar?
Essa técnica é um avanço em relação à radioterapia convencional pois minimiza os efeitos colaterais. Ela, no entanto, não tem aplicação em todos os tipos de câncer. Discuta com o médico as razões pelas quais ele descarta esse procedimento.

CÂNCER DE PRÓSTATA

Depois da biópsia, o médico não tem dúvida e recomenda uma cirurgia. Vale a pena argumentar?
Sim, e muito. O câncer de próstata é um dos grandes desafios da medicina atual. Os exames não dão resultado apenas negativo ou positivo. Existem dezenas de variáveis que tornam a abordagem desse câncer muito complexa. Discuta com seu médico qual a gradação do seu câncer na escala Gleason. Pergunte sobre o teste de Kattan, questionário pelo qual é possível calcular com objetividade as chances de cura por meio de uma intervenção cirúrgica.

Os remédios funcionam para combater a impotência causada pelo tratamento?
Os médicos precisam informar ao paciente que nem sempre tais remédios dão certo. Ao lado das antigas injeções, eles têm surtido efeito positivo em 70% dos casos. Se não funcionarem, questione o médico sobre a possibilidade de fazer uma prótese peniana.

Reposição hormonal: um dilema
sem resposta simples

Reposição: não há garantia de que a terapia seja segura para o coração

A reposição hormonal, técnica utilizada desde meados da década de 60 para atenuar os sintomas da menopausa, é um dos tratamentos mais procurados por mulheres brasileiras em torno dos 50 anos. É um procedimento que até hoje não obteve unanimidade. São óbvios os benefícios do uso de hormônios, como o estrógeno e a progesterona. As mulheres que fazem reposição hormonal na menopausa livram-se dos incômodos típicos dessa fase da vida, como as ondas de calor e a instabilidade de humor. Há melhora expressiva na vida sexual e até na aparência física.

As dúvidas começam quando se estudam os riscos resultantes do tratamento com hormônios. A mais crucial das divergências diz respeito aos riscos cardíacos causados pela reposição hormonal. O dado mais assustador foi produzido por um estudo de 2002 conduzido nos Estados Unidos pelo National Institutes of Health. Mulheres que fizeram reposição hormonal viram a probabilidade de sofrer um infarto crescer 29%. Os riscos de derrame aumentaram 41%. São números fortes o suficiente para desaconselhar o tratamento. O problema é que os resultados não são conclusivos.

Meses depois, uma equipe de pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, tornou público um trabalho de igual magnitude que chegou a conclusões diametralmente opostas: os hormônios adicionais protegeriam o coração das mulheres na menopausa. Desde então os estudos se revezam, sempre com conclusões que trazem mais confusão à cabeça das mulheres. A última palavra que a ciência tem sobre a reposição hormonal, portanto, é um ponto de interrogação. É frustrante. Mas é isso.

A dúvida tornou os médicos mais conservadores em relação à prescrição da terapia, que passou a ser empregada com todas as ressalvas: o procedimento-padrão, agora, é receitar a reposição apenas quando os sintomas da menopausa forem excessivamente incômodos à paciente. Outro efeito da polêmica científica foi a redução das doses de hormônio aplicadas no tratamento e a sua duração – o tempo médio da terapia caiu de dez para cinco anos. Por fim, os médicos deixaram de indicar o início do tratamento em mulheres com mais de 60 anos, idade a partir da qual os riscos de um problema cardíaco são naturalmente maiores. Conclui o ginecologista César Fernandes, vice-presidente da Sobrac, a sociedade brasileira que reúne médicos especializados em menopausa: “Antes de receitar a terapia, é preciso pesar se os benefícios que ela proporciona podem ultrapassar seus riscos aparentes. Cada caso vai ter uma resposta diferente”.

Doenças cerebrais degenerativas

Orlando


O que são:
males que comprometem o funcionamento dos neurônios no cérebro. Os mais freqüentes são Alzheimer e Parkinson
Quantas pessoas atingem no Brasil: 1,5 milhão

O PACIENTE FICA SABENDO QUE
SOFRE DA DOENÇA DE PARKINSON

O médico informa que pode evitar a progressão da doença. Mas isso é possível?
Sim. Os médicos certamente indicarão uma das únicas medidas preventivas de efeito comprovado: a prática de exercícios físicos regulares – hábito que minimiza as perdas típicas de flexibilidade e mobilidade do corpo, além de ajudar no controle da ansiedade. Funciona tão bem quanto as pílulas para conter a doença, segundo concluiu um recente estudo feito na Universidade Harvard.

O médico proíbe o paciente de dirigir automóvel. Como ele pode saber que a pessoa perdeu essa capacidade?
Com uma detalhada avaliação clínica, ele pode saber, sim. Na dúvida, converse com o médico a respeito de um novo teste neuropsicológico desenvolvido por pesquisadores australianos, justamente para medir a capacidade de dirigir do paciente.

Na primeira consulta, o médico aconselha a cirurgia. Não é afobação?
É estranho. Só se deve recorrer à cirurgia quando todos os outros tratamentos deixaram de surtir efeito. Em havendo a decisão de ir para a cirurgia, o paciente deve se informar sobre os possíveis resultados. A operação é delicada, mas pode aliviar os sintomas. Não tem poder de cura.

O PACIENTE TEM HISTÓRICO FAMILIAR DA DOENÇA DE
ALZHEIMER, MAS NÃO APRESENTA NENHUM SINTOMA

O médico diz que não se deve esperar pelos sintomas e aconselha a agir já. Está certo?
Está amparado em pesquisas. O histórico familiar para a doença de Alzheimer é um sinal de perigo. Discuta com seu médico o grau de parentesco da pessoa que teve a doença na família e pergunte a ele se o fato de você se parecer muito fisicamente com o doente significa risco maior de herdar a doença de Alzheimer. Pesquisas indicam que o uso de antiinflamatórios e estatinas, aliado à prática de exercícios físicos e à atividade intelectual, tem efeito positivo na prevenção da doença.


O PACIENTE RECEBE O DIAGNÓSTICO DE ALZHEIMER

O médico diz que não tem dúvida, mas exige mais exames de imagem do cérebro. É um sacrifício inútil?
Não. Depois de fazer a avaliação clínica do paciente, o médico recorrerá à tomografia computadorizada ou à ressonância magnética para traçar com maior precisão os danos já provocados no cérebro e as áreas mais afetadas.

De posse dos exames, o médico diz que o tratamento vai apenas diminuir o ritmo do avanço da doença. Ele não está sendo conservador?
Infelizmente não. A única abordagem do problema são os inibidores da colinesterase. Em 40% dos casos, eles conseguem manter o paciente no mesmo estágio da doença por um prazo de dois anos.

Doenças pulmonares

Orlando


O que são:
doenças que prejudicam o funcionamento do sistema respiratório
Quantas pessoas atingem no Brasil: 28 milhões

O PACIENTE RECEBE O DIAGNÓSTICO
DE UMA DOENÇA PULMONAR

Não ter fumado teria evitado o problema, diz o médico, para quem agora é tarde para parar. O que pensar dessa recomendação?
Mude de médico. O cigarro perpetua o processo inflamatório típico da maioria das doenças pulmonares.

Exercícios físicos, sim, mas só os recomendados, diz o médico. O que isso significa?
O médico tem razão em manter controle total sobre o tipo e o grau de atividade física que o paciente desempenha. Não saia do consultório sem uma lista dos exercícios recomendados e aqueles que devem ser evitados.


ASMA

O paciente obeso ouve do médico que emagrecer no caso dele não adianta muito. Isso é correto?
Isso exige uma boa explicação do médico. Existe comprovação científica de que o funcionamento do sistema respiratório e a própria ação dos remédios melhoram muito com a perda de alguns quilos.

É mau sinal se o médico demora a diagnosticar a origem das crises asmáticas?
Não. Os deflagradores dessas crises podem ser tão diversos quanto um produto de limpeza, o excesso de poeira ou a temperatura ambiente. Por essa razão, o paciente deverá contar com auxílio médico para fazer um histórico das crises e tentar chegar à sua origem.

Surgiu um medicamento novo para controlar a asma (o Anti-IgE), e o médico nem sequer mencionou o assunto. Ele está desatualizado?
O fato de ele não ter falado sobre o novo medicamento não quer dizer que não o conheça. Provavelmente, o remédio não é indicado para o caso em questão. Prescreve-se o Anti-IgE (cujo nome comercial é Xolair) para portadores da forma mais grave de asma – é o caso de apenas cerca de três de cada 1 000 doentes.


DOENÇA PULMONAR OBSTRUTIVA CRÔNICA

O médico indica cirurgia para tratar um caso crônico de bronquite com enfisema. O que devo pensar?
A cirurgia é indicada para apenas três de cada 100 000 pacientes. Se o médico achar que você é um deles, é o caso de obter uma segunda opinião – até porque a cirurgia é experimental e não existem dados mostrando que ela aumenta a expectativa de vida.


FIBROSE

O médico aconselha mudanças no estilo de vida, mas não receita nada. É suficiente?
O procedimento mais seguro é prescrever remédios para diminuir a deposição de colágeno (cujo acúmulo no pulmão caracteriza a fibrose) e antiinflamatórios. Também cobre do médico uma lista de exercícios respiratórios.

O médico pede uma biópsia para descobrir com precisão a causa da doença. Isso é correto?
Depende. Como a fibrose tem mais de 200 causas, o médico pode não chegar a uma conclusão sobre sua origem apenas com os resultados dos exames clínicos ou da tomografia. Mas o paciente precisa ter duas informações antes de submeter-se à biópsia: em 30% dos casos ela é incapaz de apontar as causas da doença e, como todo procedimento invasivo, também apresenta riscos.

Dor de cabeça crônica

Orlando


O que é:
incômodo na região da cabeça que tem como origem desde alterações na química cerebral até males como infecções e tumores
Quantas pessoas atinge no Brasil: 56 milhões


UMA CRIANÇA TEM VÁRIOS FAMILIARES QUE SOFREM DE ENXAQUECA

O médico recomenda uma dieta rigorosa para a criança. É certo privá-la da comida de que ela gosta para prevenir uma dor de cabeça futura?
Sim. Medidas preventivas tendem a reduzir os riscos da doença. Apesar de haver um forte fator genético para a enxaqueca, a boa notícia é que ela se cura espontaneamente quando surge em crianças de até 10 anos.


O PACIENTE TEM DORES DE CABEÇA FREQÜENTES

Antes de mais nada o médico já manda fazer exames do cérebro com o uso de contrastes. Isso é perigoso?
Existe um risco de alergia aos contrastes injetáveis, mas, com certeza, o médico desconfiou de algo grave. Em 10% dos casos, as dores de cabeça fortes e freqüentes têm como origem aneurismas e tumores. O rigor do médico pode salvar a vida do paciente.

O clínico geral entrega os pontos e sugere ao paciente procurar um especialista em enxaqueca. Isso é certo?
Certíssimo. O resultado do diagnóstico de um profissional não treinado chega a taxas de erro de mais de 90%.

O paciente chega com queixa de dor de cabeça e recebe uma receita para tomar remédios para epilepsia. É erro médico?
Vale uma boa conversa com o médico. Embora esse tipo de remédio seja o que existe de mais moderno no tratamento da dor de cabeça, ele só é indicado em casos de extrema gravidade.

O médico receita remédios para tratar a enxaqueca de um paciente de 86 anos de idade. Isso é aceitável?
Apenas em casos extremos. Em geral, os médicos tendem a contra-indicar tais remédios para pacientes com mais de 65 anos.

Um paciente obeso é tratado com remédios para enxaqueca sem mais recomendações. Tudo bem?
É o caso de perguntar ao médico se ele não pode receitar outro tipo de remédio. Os tradicionais aumentam o apetite.

O médico diz que com apenas mudança de hábitos o paciente pode escapar das crises de cefaléia.
Acredite. Um estudo da American Headache Society concluiu que o principal desencadeador das crises de cefaléia é o stress.

Alergias

Orlando


O que são:
reações inflamatórias causadas pela resposta ao contato com substâncias estranhas ao organismo
Quantas pessoas atingem no Brasil: 74 milhões


O PACIENTE SOFRE DE CRISES ALÉRGICAS

É aceitável que o primeiro procedimento médico seja a indicação de exames para investigar as causas da alergia?
Não. Antes disso, o médico precisará ser informado sobre detalhes do histórico familiar e dos hábitos de vida do paciente para focar sua investigação e, aí sim, indicar os exames que julgar essenciais para confirmar suas suspeitas.


O PACIENTE É COMPROVADAMENTE ALÉRGICO

O médico fala dos efeitos colaterais dos remédios e cita a sedação. O paciente é motorista profissional. O que fazer?
Alguns antialérgicos têm efeito sedativo. Mas existem compostos que alteram menos os sentidos. Discuta isso com o médico.

O médico tem certeza de que as vacinas são o melhor caminho para deter as alergias. Devo aceitar a recomendação sem discutir?
Em 70% dos casos as vacinas são recomendadas. Mas é bom saber que elas não têm efeito sobre alergias provocadas por alimentos. Na suspeita de câncer, elas são contra-indicadas.

É estranho que o médico não recomende instalar um purificador de ar?
Não. Até hoje nenhum estudo científico comprovou a eficácia desses aparelhos para eliminar os ácaros que causam alergias respiratórias. Manter a casa limpa, sem cortinas nem tapetes, funciona melhor.

O médico minimiza o temor do paciente de sofrer um choque anafilático durante uma crise alérgica. Isso é correto?
Não. Ele deve dizer que esses choques não são comuns e receitar o remédio certo para essas ocasiões. Eles podem salvar a vida.

Quando um remédio parece estar causando reação alérgica, é esperado que o médico interrompa seu uso?
Depende. Espera-se que antes de suspender o medicamento o médico avalie se é possível submeter o paciente a um procedimento que tem como objetivo tirar sua sensibilidade em relação ao remédio em questão. Se não for o caso, resta a ele substituí-lo.

Faz sentido ter uma alergia a látex e ouvir do médico que é preciso evitar abacaxi?
Sim. Se for alérgico a látex, questione o médico sobre uma lista específica de alimentos que deve evitar. São duas alergias a que os especialistas se referem como “cruzadas”. Se uma delas se manifestou, vale a pena adotar medidas preventivas contra a outra.

Consultores: Fátima Rodrigues Fernandes e Nelson Rosário (alergistas); Ibrahim Pinto, Otávio Rizzi Coelho, Protásio Lemos da Luz e Raul Santos (cardiologistas); Arno von Ristow (cirurgião vascular); Antonio Carlos Lopes, Jacob Faintuch, Milton Glezer e Maurício Hissa (clínicos gerais); Alfredo Halpern, Freddy Eliaschewitz, João Borges, Saulo Cavalcanti e Walmir Coutinho (endocrinologistas); Artur Timerman (infectologista); Mayana Zatz (geneticista); César Eduardo Fernandes, Gisela Itália Andreoni e Sabino Pinho (ginecologistas); Alfredo Barros e Mário Mourão Netto (mastologistas); Abouch Krymchantowski, Cícero Coimbra, Egberto Reis Barbosa e Paulo Bertolucci (neurologistas); Nataniel Viuniski (pediatra); Daniel Deheinzelin (pneumologista); Márcio Bernik e Ricardo Moreno (psiquiatras); Ademar Lopes, Álvaro Sarkis, Charles Rosenblatt e Miguel Srougi (urologistas)

Fonte: Revista Veja, Edição 1952 . 19 de abril de 2006

 

 

 

 

 

 

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