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CARIOCAS PROMOVEM MANIFESTAÇÃO CONTRA VIOLÊNCIA 11/02/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Qualidade de vida, Utilidade pública.
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luto.jpgCerca de 300 pessoas se reuniram na última sexta-feira num ato público organizado pelo movimento Rio de Paz contra a violência, na Praça da Cinelândia, Centro do Rio. A iniciativa tem por objetivo protestar publicamente contra o estado de violência do Rio de Janeiro. Batizado de “Luto pelo Rio”, o evento seria todo realizado em silêncio, “como expressão de indignação e tristeza por tudo o que tem sido visto nos últimos dias na cidade” segundo seus organizadores, não fosse a passagem do Bloco Cordão do Bola Preta, que vinha sambando da Praça Tiradentes e chegou até a Cinelândia.

Os carnavalescos se encontraram com os manifestantes, que já estavam terminando a cerimônia que iniciou às 20h15m, interromperam a festa, e pediram licença para se juntar ao grupo em sinal de solidariedade. Os dois grupos fizeram ali um minuto de silêncio e consternação. Vestindo preto, os manifestantes destacaram-se dos foliões. Faixas e cartazes com os dizeres: “Olho por Olho e a cidade acabará Cega“, “A Cidade do Rio está manchada de Sangue” e “Clamamos por Justiça” foram erguidas. O protesto ocorre dois dias depois do assassinato brutal do menino João Hélio Fernandas Vieites, de apenas seis anos, na noite da última quarta. A notícia da morte do menino causou uma forte comoção e bateu o recorde de comentários de leitores no Globo Online.

Corrente na internet pede luto pela morte de João Hélio

Corre também na internet um chamado para uma manifestação de luto pela morte do menino João Hélio. A leitora Carla Ramos pede que todos que são pais, filhos, avós, netos, tios, sobrinhos “saiam na próxima terça-feira vestindo preto “em luto pela morte do anjo João Hélio Fernandes, de seis anos, vítima da violência urbana no dia 07/02/2007“.

Carla argumenta que “é preciso fazer alguma coisa para que as autoridades enxerguem a necessidade de mudança nas leis deste país. É preciso que nós, brasileiros, que pagamos impostos e cumprimos com nossas obrigações, tenhamos leis que nos favoreçam e não os bandidos. Estamos vivendo num Rio de Janeiro onde é extremamente proibido sair à rua com tranquilidade e sem medo. Não sabemos se quando saímos para trabalhar logo cedo retornaremos ao nossos lares são e salvos e quando isto acontece devemos agradecer a Deus pela graça conseguida. Quando é que vamos poder ter a nossa liberdade de volta?”

Ela termina a mensagem dando seu apoio aos pais de João Hélio: “Este é o apelo de uma mãe de família que ama suas filhas e que abraça o sofrimento de Rosa Cristina Fernandes, mãe que agora chora a perda de seu bem mais precioso, João. Repassem este e-mail a todos os seus amigos e familiares para que juntos façamos uma corrente de alento ao coração desta família que se rompeu de forma tão brutal.

Da Agência Globo

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Comentários

1. Esclerose Múltipla - 12/02/2007

Peço licença à Bianca e reproduzo abaixo o post de um amigo (Roney Belhassof) sobre a tal proposta de luto:

(…) “Creio que um dia de luto não mudará nada. Uma semana de luto também não. Um mês de luto quebrará nossos espíritos pois este luto de certa forma não é pelo menino que foi assassinado com chocante indiferença, é um luto pelo colapso dos mais básicos sinais de humanidade. É um luto que nos conduz ao desespero.

Quando vemos o descaso com as leis já que reina a impunidade estamos diante de um problema que pode ser resolvido pela lei. Quando estamos diante de pessoas que arrastam uma criança por kilômetros sem o menor sinal de consciência não estamos diante de um problema que pode ser resolvido pelas leis, estamos diante de um sério sintoma de doença social.

Um câncer. Este crime é como um tumor causado por um câncer generalizado e atacá-lo com aumento de penas e rigidez das leis é como esperar que os tumores apareçam para tirá-los.

O câncer é a doença do ódio e apenas com o desenvolvimento de um espírito capaz de compreender e sublimar o ódio é que podemos realmente curá-lo. Do contrário nossa vida se limitará à espera da morte enquanto arrancamos com mais ódio os tumores que afloram.

Temo que estejamos longe deste tipo de compreensão e, ao ver um crime revoltante como este, levantemos bandeiras como esta:

É preciso que nós, brasileiros, que pagamos impostos e cumprimos com nossas obrigações, tenhamos leis que nos favoreçam e não os bandidos

Alimentando o ódio que separa as pessoas em dois grupos: as boas que pagam impostos e as más que não pagam.

Embora eu nem mesmo seja cristão duvido que exista dois tipos de humanos. Paguem impostos ou não, cometam crimes ou não, são humanos; mesmo que demonstrem um comportamento desumano…. Dividir os humanos em dois tipos de humanos, seja brancos e negros, de bem ou de mal, também é desumano.

Estamos, portanto, diante de duas desumanidades. Uma de pessoas como os que arrastarm o pequeno João por 4 quilômetros, outra que nos leva a
ignorar a doença social que acomete a humanidade tentando escondê-la com o rigor da lei e demonização dos fascínoras.

Demonstrar nossa indignação e manter luto é fácil, mas temo que apenas alimente ainda mais o câncer que nos atingiu. O câncer do medo, do ódio, da indiferença. “(…)

Post original em http://www.roney.com.br/blog/?p=1315

2. Bianca Muniz - 12/02/2007

Cláudia,

É desnecessário pedir licença, o objetivo do blog é o diálogo. Não, certamente não concordo com o trecho do depoimento da Sra. Carla:

“É preciso que nós, brasileiros, que pagamos impostos e cumprimos com nossas obrigações, tenhamos leis que nos favoreçam e não aos bandidos.”

Mostrou falta de compreensão do que ocorre de fato, o que não desmerece a sua dor e iniciativa. A morte do menino João foi um sinal, uma manifestação deste câncer que o Roney fala, câncer em fase terminal. Terminal, pois sabemos que muitos Joãos morrem nas favelas e periferias diariamente e continuarão a morrer de formas tão brutais quanto esta. Por outro lado, se não aprendermos a olhar a moeda dos dois lados, nunca sairemos do lugar. Sim ela pecou no depoimento, mas repito, caímos no mesmo erro ao desmerecermos a iniciativa de luto, não como uma manifestação contra este medo, ódio e indiferença (como disse Roney) que nos corrói, mas no sentido de generosidade.

Dentro de todos os contextos possíveis de serem abordados no caso do João, o luto pode e deveria ser um ato de generosidade aos pais dele, conseqüência e signo de uma transformação social que passa, inevitavelmente, pelo pessoal. Nas palavras de Sponville: A generosidade trata-se de agir, e não em função de determinado texto, de determinada lei, mas além de qualquer texto, além de qualquer lei, em todo caso humana, e unicamente de acordo com as exigências do amor, da moral ou da solidariedade. Neste contexto, o luto pelo amor, moral e solidariedade são manifestações dignas sim. O luto como estado de espírito pode ser representado por uma roupa, mas não o contrário. Demonstrar indignação momentânea é facil, mas manter o luto não é fácil não.
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Agradeço a Soraya Silveira Simões, pois através do seu estudo e trabalho sobre urbanismo, pude ter a compreensão da imbricação da falta de generosidade com os conflitos urbanos.


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