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Os novos neurônios, a canabis, o Viagra e o budismo 08/01/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Qualidade de vida, Utilidade pública.
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Alysson Muotri

Um dos temas mais atraentes da neurociência atual é a descoberta de que o sistema nervoso tem capacidade de produzir novos neurônios, mesmo no cérebro adulto. Esse fenômeno é conhecido como neurogênese e faz parte da minha linha de pesquisa há alguns anos. Mas nem sempre foi assim. “O tecido nervoso não se regenera” ou “você nasce e morre com o mesmo número de neurônios” são afirmações ainda encontradas em livros de ensino de ciências e foi, por décadas, um dogma da biologia.

Evidências de que neurônios são gerados no cérebro adulto levaram à identificação das chamadas células-tronco neurais. Essas células contribuem para a formação de novos neurônios em pelo menos duas regiões do cérebro: na zona subventricular e no hipocampo. Neurônios nascidos na zona subventricular migram para o bulbo olfatório e contribuem para o reconhecimento de novos aromas, pelo menos para os camundongos. Já os novos neurônios gerados no hipocampo sofrem de crise de identidade: ninguém ainda sabe exatamente o que eles fazem lá.

Curioso também é o fato de que roedores expostos a novos ambientes apresentam um aumento no número de novos neurônios no hipocampo, como se o ambiente estimulasse as células-tronco dormentes no cérebro. Um belo exemplo é o exercício físico. Ao colocarmos animais sedentários em gaiolas com rodinhas giratórias, o número de novos neurônios aumenta significativamente. Esse aumento foi também correlacionado com uma melhoria na memória e capacidade de aprendizado. Dessa forma, quando comparamos a habilidade mental de animais idosos que se exercitaram regularmente notamos que ela era equivalente a de jovens sedentários! Vale notar que o efeito só é válido com exercício voluntário. Por sinal, o estresse causado pelo exercício forçado pode até diminuir a neurogênese.

A publicação desses resultados teve um grande impacto na sociedade, afinal uma das conclusões é que você tem a capacidade de alterar as redes nervosas do seu próprio cérebro, simplesmente expondo-se a novos ambientes — só depende de você! Uma das pessoas interessadas no andamento dessas pesquisas é o líder espiritual Tenzin Gyatso (o Dalai-Lama). Nosso grupo foi convidado a apresentar esses resultados a ele. O Dalai-Lama teve a preocupação de incorporar essas novas informações científicas nas explicações budistas sobre o potencial da meditação.

Tudo isso e o fato de que células-tronco neurais foram também identificadas em humanos trouxe grande entusiasmo e expectativa para o tratamento de doenças do sistema nervoso. Afinal, o aumento do número de neurônios no hipocampo parece estar relacionado a um efeito positivo ao indivíduo. Isso foi observado em pacientes com depressão (o mal do futuro?) ou ansiedade, por exemplo. Hoje sabemos que diversos medicamentos para essas doenças aumentam a neurogênese através de diferentes vias de ação. É o caso de antidepressivos, estabilizadores de humor, a canabis, esteróides e até o Viagra.

Esses experimentos foram feitos em condições experimentais com animais de laboratório e ninguém está estimulando o uso dessas drogas, mas sim tentando entender a amplitude do seu espectro de ação. Afinal, como é possível que a neurogênese melhore a depressão? Ainda não sabemos exatamente qual é o mecanismo por trás dessa melhora, mas acredita-se que a neurogênese altere as conexões do hipocampo com regiões cerebrais envolvidas com emoções, como a amígdala. E se você retirou a “amígdala” em algum momento, você não irá ter depressão –- estou falando de outra “amígdala”, aquela região do cérebro que faz parte do sistema límbico!

Infelizmente, dependendo da doença, o aumento da neurogênese nem sempre vem junto com uma melhora clínica. É o caso da epilepsia: ataques epiléticos freqüentemente aumentam o número de novos neurônios. No entanto, eles não conseguem se desenvolver como esperado. Como conseqüência, temos uma série de novos neurônios capengas que prejudicam, em vez de melhorar as redes neurais. Nesse caso, parece que a redução da neurogênese deve ser beneficial para os portadores de epilepsia.

A busca pelas bases moleculares desse curioso fenômeno do cérebro é uma área em plena ascensão. Desvendar os segredos da neurogênese abrirá novas alternativas para o tratamento de doenças neurológicas e para a compreensão de como funciona nosso cérebro em resposta ao ambiente em que vivemos. E modificando nossas próprias redes neurais mudamos quem somos e, aí sim, poderemos mudar o mundo!

Fonte: G1 – Globo.com (26/01/2007)

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