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Cobaias humanas: um negócio da China 11/12/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Utilidade pública.
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O “Fantástico” mostrou no último domingo uma matéria na qual um médico chinês – Dr. Huang – estaria “tratando” pacientes portadores de diferentes problemas com células-tronco. O custo dessas injeções, aplicadas conforme cada caso, seria de R$ 40.000. Se pensarmos que já foram atendidos mil pacientes, não é difícil concluir que ele já se tornou um milionário.

Quando ouvi seu nome, a primeira coisa que me veio à mente foi: “Outro Dr. Hwang?!” Caso não se lembrem, esse é o nome daquele pesquisador sul-coreano que se tornou famoso internacionalmente ao dizer que havia conseguido estabelecer a técnica de ‘clonagem terapêutica’. Isto é: dizia ser capaz de transferir o núcleo de células já diferenciadas (da pele, por exemplo) para um óvulo sem núcleo, e a partir daí poderia formar qualquer outro tecido. A publicação dessas pesquisas também fez dele um milionário, além de um herói nacional. Porém, logo se descobriu que tudo não passava de uma grande fraude — e ele caiu em desgraça.

Embora eles sejam dois, com nomes diferentes (Huang e Hwang), ao avaliar o comportamento de ambos, surgem questões relevantes: Podemos compará-los? Qual é a validade real desses experimentos? É correto denominá-los ‘tratamento’? Essa prática seria aprovada pelos Comitês de Ética? É lícito cobrar por ela?

A matéria divulgada na TV Globo veiculou que Dr. Huang está injetando células-tronco (CT) retiradas do trato olfativo de fetos (abortados, de quatro meses) e injetando-as no cérebro de pacientes com diferentes problemas: lesões medulares, derrames ou doenças neurodegenerativas, como por exemplo a esclerose lateral amiotrófica (ELA).

Na China o aborto é permitido — eu diria que até incentivado (devido à rígida política vigente de controle de natalidade, em que cada casal só pode ter um filho). Portanto, por conta desse sistema, usar essas células fetais não chega nem a ser anti-ético naquele país.

Mas imaginem no Brasil: se existem pessoas acreditando que um embrião de oito células já é uma pessoa, o que diriam de um feto de quatro meses? Seria inaceitável.

Segundo alguns pesquisadores, um alternativa possível seria a de retirar células do trato olfativo de indivíduos adultos — o que resolveria o problema; se, de fato, elas conseguem regenerar neurônios.

Apesar de o próprio Dr. Huang afirmar que, no caso de pacientes com ELA, os resultados são modestos e temporários, o “Fantástico” mostrou um paciente capaz –- aparentemente — de voltar a andar apenas dois dias depois do “tratamento”.
Ora, qualquer benefício decorrente das injeções de células-tronco levaria semanas para aparecer. Seria necessário que as CT chegassem na região da lesão (o que chamamos de “homing”) e se multiplicassem, a fim de substituir as células defeituosas. É impossível que isso ocorra em dois dias.

Então, como esclarecer esse “milagre”? De acordo com o médico psicanalista Jorge Forbes, a explicação é muito simples.Ao saber que tinha ELA, o paciente se identificou com aquele diagnóstico. Logo, “conformado”, assumiu o comportamento “prêt-à-porter” que a sociedade — médica, no caso — esperava dele.

Ou seja: já que tinha uma doença progressiva, que ia levá-lo inevitavelmente à perda da ambulação, por que esperar? Podia antecipar esse desfecho, mesmo que ainda tivesse potencial para andar, sabe-se lá por quanto tempo…

Assim, de fato, ao receber um estímulo externo, ficou claro que era isso que havia acontecido. Ele ainda tinha capacidade para andar, bastava que alguma pessoa com autoridade (nesse caso o Dr. Huang) lhe autorizasse a fazê-lo.

Em resumo: embora no futuro talvez seja possível concluir que CT do trato olfativo tenham o potencial de regenerar células nervosas humanas, os resultados mostrados pelo Dr. Huang não permitem deduzir –- atualmente — que houve algum beneficio desse tratamento.

Pois, antes de tratar pacientes, expondo-os como cobaias humanas, seria necessário fazer experimentos em modelos animais: as chamadas pesquisas pré-clínicas.

Aliás, é exatamente isso o que estamos fazendo no Centro de Estudos do Genoma Humano, com CT de diferentes origens, em colaboração com o Departamento de Veterinária, na Universidade de São Paulo.

Em relação às tentativas terapêuticas aplicadas em seres humanos, só é possível determinar que um tratamento realmente tem efeito depois da realização de testes chamados “duplo-cegos”. Isto é: um grupo de pacientes recebe injeções de CT e outro recebe injeções de placebo — alguma substancia inócua. Para que os resultados sejam analisados de forma imparcial, nem o paciente, nem o cientista podem saber a que grupo pertencia tal indivíduo. Se o primeiro grupo mostrar uma melhora em relação ao segundo, poderemos falar em tratamento — não antes.

Finalmente, é fundamental informar que tentativas terapêuticas ou experimentais não podem ser cobradas (essa é uma regra universal). Porque pagar ou receber por uma experiência é considerado um ato anti-ético. No caso do Dr. Huang, não se avaliou ética ou regras. Simplesmente está se fazendo, literalmente, um negócio da China.

Mayana Zatz

Fonte: Coluna Transcrições – G1.com.br

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