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Preciso ir voando ao banheiro… 02/12/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Qualidade de vida.
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Muita gente passa por essa situação porque sofre da Síndrome da Bexiga Hiperativa, uma vontade urgente e repentina de urinar a todo o momento. Veja as maneiras de resolvê-la – que pode incluir até mesmo o uso de botox

POR YARA ACHÔA
ILUSTRAÇÃO CLEO ALMEIDA

“Em uma viagem de carro, meu marido até já sabe: a toda hora tenho de parar para ir ao banheiro – conheço os toaletes de todos os postos de serviços do caminho”, conta Clarice, 40 anos. Muitos acham isso normal, alguns pensam que essa vontade de urinar a todo o instante não passa de ‘mania’ ou ainda é uma questão ‘psicológica’. Se a coisa acontecer esporadicamente e estiver ligada a uma maior ingestão de líquidos naquele período, por exemplo, não há motivos para grandes preocupações. Mas se o fato se repetir constantemente, a ponto de incomodar e prejudicar a vida da pessoa – imagine toda vez ter de sair no meio de um filme no cinema ou ficar tenso em um lugar onde não há banheiro disponível com facilidade -, aí temos um problema. E o nome dele é Síndrome da Bexiga Hiperativa. “Trata-se de uma alteração funcional da bexiga. O órgão sofre contrações involuntárias, ou seja, elas acontecem ‘fora de hora’, fazendo com que se sinta uma vontade urgente e repentina de urinar a todo o momento, muitas vezes ocorrendo até perdas urinárias. Além de ser desagradável, a doença traz prejuízo para a vida social e para o sono”, diz o urologista Cristiano Gomes, médico assistente da Divisão de Urologia do Hospital das Clínicas, de São Paulo. São três os sintomas, que podem aparecer isolados ou juntos.

 FREQÜÊNCIA AUMENTADA: a pessoa sente necessidade de urinar mais de oito vezes por dia – o que inclui até levantar à noite.

 URGÊNCIA: quando surge a vontade de urinar, o indivíduo precisa realizar a micção imediatamente.

 URGEINCONTINÊNCIA: o desejo de urinar é súbito e intenso e, caso a pessoa não o faça rapidamente, pode haver perda de urina.

Segundo a Sociedade Brasileira de Urologia, cerca de quatro milhões de pessoas no Brasil sofrem com a Síndrome da Bexiga Hiperativa. O problema é mais comum acima dos 45 anos, mas homens e mulheres de todas as idades – inclusive crianças – estão sujeitos a ele. O sexo feminino, porém, é o mais atingido. Sua origem pode estar relacionada a condições neurológicas, como lesões na coluna e esclerose múltipla, ou simplesmente ser de causa desconhecida.

Não se esconda, procure ajuda
O primeiro passo para melhorar a qualidade de vida é decidir-se a buscar auxílio para resolver o distúrbio de controle de micção. Saiba que a bexiga hiperativa pode ser tratada pelo urologista ou ginecologista. Vergonha para abordar o assunto? Imagine… Milhares de pessoas têm o mesmo problema. Já marque a consulta com o objetivo de falar sobre essa dificuldade. Se você procurar o médico por outro motivo (como uma visita de rotina ao ginecologista, por exemplo), mencione, assim mesmo, o incômodo que vem sentindo. Não espere até o final para falar dos sintomas. O especialista precisará de tempo para avaliá-los e determinar se estão relacionados com algum outro tipo de condição patológica. E ele ainda poderá pedir alguns exames para fechar o diagnóstico.

O sucesso do tratamento da Síndrome da Bexiga Hiperativa depende muito do paciente. Afinal, são recomendadas algumas mudanças de hábitos e é preciso ainda ter consciência corporal para auxiliar o controle nas situações de emergência. A solução do problema não acontece da noite para o dia, mas é possível chegar lá. Entre as principais medidas, estão.

 CONTROLAR A DIETA: elimine ou reduza a ingestão de alimentos ou de bebidas que possam piorar os sintomas urinários. A lista engloba chá, café, bebidas alcoólicas, chocolate, bebidas com cafeína (até mesmo chá e café descafeinados podem conter uma certa quantidade de cafeína), frutas e bebidas cítricas, bebidas e alimentos condimentados e ácidos, bebidas e alimentos que contenham adoçantes artificiais.

 MANTER A REGULARIDADE DO FUNCIONAMENTO DO INTESTINO: a prisão de ventre pode aumentar a pressão sobre a bexiga, com efeitos negativos na função urinária.

 CHEGAR AO PESO CORPORAL ADEQUADO: estar acima do peso pode significar aumento da pressão sobre a bexiga, o que certamente contribui para adquirir problemas de controle de micção.

SERÁ QUE VOCÊ TEM?
Esse questionário com oito perguntas de auto-avaliação visa identificar os sintomas da Síndrome da Bexiga Hiperativa.Considerando a escala nada (0), quase nada (1), um pouco (2), o suficiente (3), muito (4), muitíssimo (5), responda e marque os pontos. O quanto você tem sido incomodado por… urinar freqüentemente durante o dia?
 sentir vontade urgente e desconfortável de urinar?
 sentir vontade repentina e urgente de urinar, com pouco ou nenhum aviso prévio?
 ter perdas acidentais de pequena quantidade de urina?
 urinar na cama à noite?
 acordar durante a noite porque teve de urinar?
 sentir vontade incontrolável e urgente de urinar?
 ter perda de urina associada a forte vontade de urinar?

Observação: se você for do sexo masculino, some mais 2 pontos. O total foi de ___ pontos.

Se o resultado atingiu 8 ou mais de 8, você pode ter bexiga hiperativa. É recomendado procurar um especialista


 ABANDONAR O CIGARRO: fumar irrita os músculos da bexiga. Espasmos produzidos pelas tosses repetidas típicas de fumantes podem causar perda de urina.

 BEBER LÍQUIDOS QUE NÃO CAUSEM IRRITAÇÃO: entre 1,5 e 2 litros, distribuídos o mais homogeneamente possível ao longo do dia, evitando- os duas ou três horas antes de dormir. Pessoas com problemas de micção acabam ingerindo menos líquidos para não precisar urinar com tanta freqüência. Acontece que isso causa a produção de uma urina mais concentrada (de coloração amarela escura e cheiro forte, que é irritante para a bexiga e pode causar micções mais freqüentes).

 DECIDIR-SE PELO TREINAMENTO DA BEXIGA: com o passar do tempo, os músculos desse órgão tornam-se condicionados a reagir de um modo específico. Exercitando-os, adquirese melhor controle da micção. Isso envolve trabalhar com um profissional de saúde especializado – que por meio de fisioterapia do assoalho pélvico estimulará a musculatura da região, ensinará técnicas de como resistir ou inibir a sensação de urgência, bem como adiar o esvaziamento da bexiga e urinar respeitando um quadro de horários (e não em resposta a uma sensação de urgência). Seja paciente: o programa completo de treinamento da bexiga geralmente dura entre seis e oito semanas para produzir bons resultados.

 CONTROLAR A MEDICAÇÃO: alguns remédios de venda livre ou que necessitam de receita médica podem piorar os problemas urinários. Informe seu médico sobre o uso de quaisquer medicamentos.

 SEGUIR CORRETAMENTE A RECOMENDAÇÃO MÉ DICA: para o tratamento da bexiga hiperativa, o especialista poderá recomendar uma associação entre treinamento da bexiga e uso de medicamentos apropriados para que se obtenham os melhores resultados possíveis.

Para casos mais delicados
Quando o tratamento clássico – que envolve medidas comportamentais, fisioterapia e medicamentos

O TRATAMENTO CLÁSSICO ENVOLVE MEDIDAS COMPORTAMENTAIS, FISIOTERAPIA E, EM ALGUNS CASOS, MEDICAMENTOS. OS RESULTADOS APARECEM EM CERCA DE OITO SEMANAS

– não surte o efeito desejável, partese para outras soluções mais complexas, como a implantação de um marca-passo na bexiga, uma cirurgia grande e delicada. Recentemente, os médicos também vêm recorrendo à toxina botulínica tipo A (Botox®).

“Funciona da mesma forma que na face, para suavizar as rugas. No caso da bexiga hiperativa, ele é aplicado na parede dos músculos que se contraem fora de hora, controlando-os”, explica o urologista Flávio Trigo, chefe do Departamento de Uroneurologia da Sociedade Brasileira de Urologia, que também participa dos estudos internacionais com Botox® para o tratamento da Síndrome da Bexiga Hiperativa, coordenado pelo urologista americano Christopher Smith.

O especialista faz questão de frisar, no entanto, que esse tratamento deve ser muito bem indicado. Ou seja, somente para pacientes que esgotaram os outros recursos (fisioterápicos e medicamentosos) sem sucesso e especialmente em casos de incontinência ligada à urgência. Até porque também existem inconvenientes, que devem ser considerados. O médico Cristiano Gomes enumera.

 É um procedimento realizado em hospital, que requer sedação e também apresenta riscos.

 Requer reaplicações – aproximadamente uma a cada ano, embora existam pessoas que estejam há três anos sem a necessidade de uma nova dose.

 Para o paciente que urina espontaneamente, há perigo de ocultar a vontade de urinar.

 Ainda não se têm dados a respeito da utilização a longo prazo da toxina, ou seja, não se sabe se no futuro o tratamento poderá trazer algum prejuízo ao paciente.

O urologista Paulo Rodrigues, do Hospital Santa Paula, em São Paulo, alerta ainda que após algumas reaplicações, certos pacientes podem desenvolver anticorpos contra a toxina botulínica e, por isso, não desenvolverem os efeitos pretendidos, por inativação da droga pelos anticorpos.

Os estudos com a toxina botulínica tipo A para tratamento de bexiga hiperativa tiveram início com a médica suíça Brigitte Schurch, no ano 2000.

O primeiro grupo que recebeu as aplicações era composto de 31 pacientes com problemas neurológicos (devido a lesões medulares, paraplegias, AVCs, enfim, casos graves). Os resultados foram bastante satisfatórios. Um pouco mais adiante, o trabalho foi ampliado para uma população maior e sem comprometimentos neurológicos, também com boas respostas – até mesmo em crianças. No Brasil, o procedimento já foi utilizado em mais de 50 pacientes.

Preste atenção a seu corpo e aos sinais que ele dá. Não pense ser normal uma condição que o incomoda, mesmo que outras pessoas digam que também sentem sintomas idênticos aos seus, sem se importar. Informar-se e procurar ajuda adequada é o caminho para viver bem – e sem precisar ir ‘voando’ ao banheiro.

O USO TERAPÊUTICO DO BOTOX
 O que é toxina botulínica? É o veneno produzido pela bactéria Clostridium botulinum – que se desenvolve em alimentos enlatados mal esterilizados -, agente causador do botulismo, doença rara, porém séria.

 Como, então, ela é usada na saúde? Na verdade, o medicamento é obtido a partir da cultura dessa bactéria, utilizada terapeuticamente em doses diminutas e extremamente seguras.

 Como se dá sua ação no organismo? Diferente de outros medicamentos injetáveis, a toxina bo tulínica tipo A não age na corrente sangüínea. Ela atua somente nos locais onde é injetada, inibindo a liberação do neurotransmissor acetilcolina. O resultado é o bloqueio do músculo com problema – no caso da bexiga hiperativa, o que causa contrações involuntárias.

 Em que outros casos pode ser usada? Além de fins estéticos, no tratamento de patologias como estrabismo, espasmo hemifacial (distúrbio neuromuscular), espasticidade (distúrbio neurológico), paralisia cerebral, hiperidrose (suor excessivo) na palma das mãos e axilas.

FONTE: LABORATÓRIO ALLERGAN

Fonte: Revista Viva Saúde, dezembro de 2006.

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