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Para que serve a ciência? 01/12/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Utilidade pública.
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(*) Ulisses Capozzoli

A determinação do conglomerado internacional da indústria farmacêutica em processar o governo da África do Sul para impedir a quebra de patentes e assim possibilitar a importação de genéricos, do Brasil e da Índia, como resposta à epidemia de Aids que assola o país, certamente é um acontecimento que exige posicionamento crítico de entidades como a Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC).

A complexidade dos problemas contemporâneos faz com que uma categoria profissional como a dos jornalistas, especialmente os jornalistas científicos, não possa negar-se a reflexões desse tipo, sob pena de omissão e prejuízos éticos, pois o que está em jogo, neste caso. são vidas humanas. Milhões de vidas humanas.

Desde o rádio, passando pela televisão e, especialmente com a popularização da Internet, a alternativa para a mídia impressa é o jornalismo interpretativo, a contextualização histórica dos acontecimentos como forma de se procurar uma inteligibilidade possível. Só assim a sociedade pode fazer a melhor escolha entre as várias alternativas para cada um dos problemas que se apresentarem. A mídia brasileira passa por uma séria crise de qualidade, em parte, certamente, por se recusar a adotar o jornalismo interpretativo como método criativo e indispensável para a nova posição que deve assumir.

Essa recusa ao jornalismo interpretativo – que demanda, de um lado, jornalistas com formação mais sólida e ampla, e de outro, uma nova relação profissional no interior das redações – é um sintoma claro de que o jornalismo convencional está exaurido e sem qualquer futuro. É o jornalismo interpretativo, e não o opinativo, que deve legitimar o posicionamento de jornalistas científicos ao questionarem o direito que teriam as multinacionais do setor farmacêutico a sufocar uma iniciativa legítima do governo sul-africano em recorrer aos genéricos, a preços mais acessíveis, para cuidar de pelo menos 4,2 milhões de contaminados com o vírus HIV.

A reflexão, neste caso, envolve uma pergunta: para que serve a ciência? Essa não é uma pergunta nova, mas nem por isso perdeu seu conteúdo algo perturbador, ou ficou desatualizada. No pós-guerra, horrorizados com as bombas atômicas que vaporizaram o corpo de pessoas, reduzidas a um pálido contraste no leito de ruas, como um negativo fotográfico, homens do porte ético e sensibilidade de Albert Einstein e Bertrand Russell perguntaram a si e aos demais: para que serve a ciência?

Se aceitarmos o que disse Sigmund Freud a respeito da psicanálise, diríamos, no passado e hoje, que a ciência “serve para diminuir o sofrimento humano” Se isso for verdade – se não for assim a ciência não serve para nada que seja verdadeiramente humano – como conseqüência lógica, a atitude das multinacionais, na África, é um ato de barbaridade e enorme irresponsabilidade.

A África do Sul tem, entre 4,2 milhões e 4,5 milhões de soropositivos. O Quênia, que na última 5ª feira anunciou a intenção de quebrar patentes e importar genéricos, tem outros 2,6 milhões. E mesmo essa alternativa pode não ser viável. Laboratórios indianos fizeram oferta de um coquetel antiaids ao custo de US$ 600 ano, mas isso é dez vezes mais que a renda per-capita do País, de miseráveis US$ 60.

A África reúne o maior contingente de soropositivos do planeta. Em muitas regiões, em aldeias e pequenas localidades, não existem mais professores, fazendeiros e líderes comunitários. Todos, à exceção de velhos e crianças ainda não iniciadas sexualmente, foram mortos pela Aids. A epidemia da doença, na África, faz a Peste Negra, demônio que aterrorizou a Europa até o século 17, parecer um mal menor. Ao menos em número de mortos.

A revista World Watch (janeiro-fevereiro), contabiliza, ao longo dos últimos 20 anos, desde o aparecimento da Aids, 20 milhões de mortos e 50 milhões de contaminados em todo o mundo. Estimativas feitas em 96 por um programa da ONU projetavam para o ano 2000 um total de 9 milhões de africanos contaminados pelo vírus HIV. Mas, mesmo preocupante, esse foi um número otimista. Os dados atuais são de 25 milhões de soropositivos, metade da população infectada de todo o mundo. E, ao que tudo indica, o pior ainda pode estar por vir. Pelo menos é o que sugere a situação da China e Índia, com as duas maiores populações do planeta (2,3 bilhões de pessoas, mais de 1/3 da população total).

A China, segundo dados da World Watch, tem 1 milhão de infectados, um percentual baixo da sua enorme população. Mas, como resultado de vários fatores, entre eles uma certa “ocidentalização” da China, no contexto da globalização, o número de doentes está subindo rapidamente. Todas as (31) províncias do país já têm casos de Aids registrados. Em 90, apenas uma província no Sul da China (Yunann), fronteira com o Laos, reunia quase 90% dos doentes. A razão disso era a proximidade com o chamado Triângulo Dourado de consumo de drogas injetáveis. Guangxi, província vizinha de Yunann, viu o número de casos de Aids entre viciados subir de zero em 93 para 40% só quatro anos depois.

No ano passado, o número oficial de viciados em drogas injetáveis na China chegou a 600 mil, o dobro do que havia em 92. Esse tributo a uma mundialização forçada é um dos custos a que o jornalismo econômico raramente se refere, quando discute questões como superávites comerciais, entre outros indicadores. A verdade é que o jornalismo econômico, há muito, rendeu-se a uma lógica impiedosa, uma armadilha perigosa que o jornalismo científico deve evitar.

Na China, o exército de viciados tece uma trágica conexão com a Aids. No interior do país, a venda de sangue ainda é um comércio usual, uma forma de pessoas ou famílias pobres conseguirem um pequeno ganho extra. Esse comércio macabro foi oficialmente banido em 98, mas na realidade nunca se encerrou. Em alguns centros ilegais, transfusões podem ser feitas diretamente, no caso de tipos sangüíneos semelhantes. E, eventuais excessos fornecidos por um doador, segundo revela a Word Watch, podem ser reintroduzidos em seus corpos. Assim, eles poderão fazer novas vendas, com maior freqüência.

O comércio de sangue na China é um convite a crescentes contaminações. Em janeiro do ano passado, uma batida sanitária num banco de sangue ilegal na província de Shanxi capturou 64 bolsas de sangue. O conteúdo de cada uma delas estava contaminado por agentes da Aids e hepatite B.

Na Índia a situação não é menos preocupante. O número de soropositivos soma 4 milhões. Na Índia, o sexo é uma atividade que pesa na economia ao movimentar quase US$ 9 bilhões/ano. E, em Bombaim, a maior cidade da costa oeste, um levantamento feito em 97 mostrou que 70% das prostitutas já eram soropositivas, segundo a World Watch.

Como acontece no Brasil, também na Índia, motoristas de caminhões que fazem longas rotas são vetores de novas contaminações. Uma pesquisa publicada pelo British Medical Journal em 99 e citada pela revista mostra que nove em cada dez motoristas casados e que fazem longos percursos se auto-identificam como “sexualmente promíscuos”. Isso explica o aumento de infecções entre mulheres casadas na Índia. Numa clínica de doenças sexualmente transmissíveis na cidade de Pune, província de Mumbai, mais de 10% das pacientes são soropositivas. Destas, mais de 90% são casadas e só tinham tido contatos sexuais com seus maridos.

Os dados oficiais estimam em 1 milhão o número de viciados em heroina na Índia. Isso é quase o dobro dos dependentes da China. No estado de Manipur, no nordeste do país, as contaminações por HIV entre dependentes dessa droga subiram de praticamente zero, em 1988, para 70%, em 92.

Os argumentos levantados pelas multinacionais do setor farmacêutico no processo que abriram na semana passada em Pretória, na África do Sul, envolvem razões jurídicas, mas esse é apenas um biombo para dissimular o puro desejo de lucro. Uma multidão dançou, cantou e gritou “vidas acima de lucro”, em frente ao Tribunal Superior de Pretoria. Os cenários perturbadores da China e da Índia, especialmente pelo número de suas populações, mostram que os argumentos dos manifestantes é sólido o suficiente para ser levado em conta numa abordagem responsável em termos de saúde pública mundial.

O Brasil está propondo a quebra de patentes para dois de nove medicamentos que integram um coquetel anti-aids, com base na Lei de Patentes, de 96. Mas em novembro do ano passado, os EUA já recorreram à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra iniciativas como essa, alegando violentação de regras internacionais de proteção da propriedade intelectual. Mas, que propriedade industrial poderia ou deveria ser mais valiosa que a vida?

Daí a atualidade da pergunta: para que serve a ciência? Para assegurar um processo civilizatório, capaz de beneficiar toda a humanidade, ou para abarrotar de lucros os cofres de algumas empresas? Como se a existência humana fosse algo banal, como se o homem não tivesse nascido na África, como se o genoma não tivesse acabado de reafirmar que, sob as peles mais diferentes, somos todos uma coisa só.

(*) Ulisses Capozzoli é jornalista especializado em divulgação científica,
historiador da ciência e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo
científico (ABJC). Artigo escrito para o “JC E-Mail”, da SBPC.

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