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Dificuldades da relação médico-paciente diante das pressões do “mercado da saúde” 01/12/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Qualidade de vida, Utilidade pública.
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Crítica de Otávio Cruz Neto, pesquisador titular da ENSP / Fiocruz, sobre a relação pessoal dos médicos com os laboratórios das indústrias farmacêuticas:

A relação pessoal dos médicos com os laboratórios das indústrias farmacêuticas, hoje, não pode ser descartada nem para o avanço do conhecimento das doenças e nem para avaliação da eficácia dos medicamentos. É uma prática que traz benefícios. O que a sociedade, em seus diferentes segmentos, tem de questionar é a forma, os objetivos e a alta capacidade manipulatória dos profissionais desses laboratórios. Em muitos casos, são eles que definem a postura/receita médica em um espaço de tempo que agride os pacientes, “furando”, de maneira desrespeitosa, suas filas de marcação e de espera. Há sempre novos produtos gerados em tão curto espaço de tempo, que o profissional médico, com sua diversificada rotina de trabalho visando a melhores salários, mal tem como alimentar seu contínuo processo de ampliação, revisão e atualização de conhecimento. Em contrapartida, assistimos a vários profissionais enquadrando-se, exemplarmente, às exigências do “marketing farmacêutico”. Esse campo de relações é diferencialmente disputado pela (a) indústria privada, num setor que mais fatura no mundo e tem o olhar totalmente fechado para o significado e a importância social dos medicamentos e pelo (b) setor público, que só recentemente vem crescendo e, mesmo assim, timidamente. Por anos a fio, os gestores de políticas públicas e especialmente os do setor saúde não consideraram essencial a existência de uma eficaz rede pública de produção e de distribuição de produtos essenciais à prevenção e à manutenção da saúde de todos. A efetivação dessa proposta demanda: valorização profissional, infra-estrutura compatível, equipe profissional diversificada, planejamento adequado da produção, controle de qualidade do produto em suas distintas etapas de criação/produção, pesquisa continuada e distribuição garantida. Este é o momento de se retomar o esforço da conquista da saúde como tarefa do Estado e direito de todos, reforçando o espaço público de produção. É também para isso que o cidadão paga seus impostos, visando ter acesso a uma rede pública de qualidade e respeitosa.

CRUZ NETO, Otávio. Dificuldades da relação médico-paciente diante das pressões do “mercado da saúde”. Ciênc. saúde coletiva. [online]. 2003, vol. 8, no. 1 [citado 2006-11-30], pp. 307-308.

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