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Células-tronco, células ainda contaminadas… 06/11/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico.
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Por Alysson Muotri *

Parte do processo científico consiste na reprodução de dados gerados por um grupo de cientistas por outro grupo independente. Dessa forma, resultados consistentes se mantêm “vivos”, enquanto resultados não-reprodutíveis são eliminados e esquecidos. Apesar de parecer simples, essa fórmula nem sempre funciona, pois existe uma série de variáveis que influenciam a reprodutibilidade de um trabalho científico. Uma dessas variáveis é a própria interpretação dos resultados, que varia com o conhecimento do pesquisador, ou seja, do seu “background” científico.

Ano passado, publicamos um artigo polêmico, descrevendo a contaminação por produtos animais das células-tronco embrionárias humanas (Martin et al, Nat Med 2005, 11:228-232). A contaminação inviabiliza um futuro transplante celular em pacientes humanos, jogando um balde de água fria na idéia de que essas células auxiliariam na cura de doenças como diabetes, mal de Parkinson, distrofia muscular etc. em um curto espaço de tempo. Isso porque o sistema imune humano possui anticorpos contra produtos animais e, assim sendo, células transplantadas não seriam reconhecidas como humanas, mas sim como se fossem de animais, gerando um processo de rejeição no paciente transplantado. No trabalho, além de descrever o problema, também apontamos possíveis soluções como o uso de reagentes livres de produtos animais durante o cultivo ou no isolamento de novas linhagens de células-tronco que nunca fossem expostas a produtos animais.

O trabalho teve uma repercussão sócio-política interessante, sendo amplamente divulgado nos EUA e em todo o mundo. Grupos políticos e religiosos tiveram que repensar suas posições sobre a derivação de novas linhagens celulares, novas questões éticas surgiram… seria essa a solução mais rápida para a cura? Nos laboratórios, cientistas ávidos para testar a eficácia das células-tronco em humanos começaram uma corrida para descobrir novas formas de “purificar” ou isolar células-tronco humanas livres de contaminação animal. No meio dessa discussão toda, vários centros de pesquisa confirmaram nossos dados, utilizando diversas metodologias e outros tipos de células-tronco, tanto adultas como embrionárias.

Tudo parecia de acordo até que, recentemente, recebemos o comunicado pelo editor da Nature Medicine de que cientistas canadenses irão publicar nessa mesma revista dados contradizendo nossas conclusões (Cerdan et al, Nat Med 2006, 12 – a ser anunciado). O trabalho do grupo demonstra que as mesmas células-tronco embrionárias humanas usadas por nós não sofrem ataque do sistema imune humano num modelo in vitro. Com isso, o grupo conclui de forma dogmática que não seria necessário descontaminar as células para prosseguir com os ensaios clínicos em humanos! Assustados e preocupados com o perigo dessa conclusão, pedimos para ler o artigo antes de ser publicado (uma vez que já estava aceito).

Durante a leitura cautelosa dos métodos usados no trabalho, percebemos que o grupo canadense tratava as células-tronco com uma enzima chamada de tripsina. A tripsina é usada para facilitar a dissociação entre as células através da clivagem de algumas proteínas na membrana celular. Pois bem, já sabíamos (mas com certeza o outro grupo não!) que, ao tratar as células com tripsina antes da análise imunológica, eliminamos grande parte dos antígenos presentes na membrana celular, mascarando a contaminação. Dessa forma, sempre optamos por dissociar nossas células com métodos alternativos, evitando o uso de tripsina. Esse pequeno detalhe é o grande responsável pela interpretação contrastante do grupo canadense. Como isso passou despercebido pelos autores, editores e revisores? Diversas são as causas, inclusive o fato de os autores poderem excluir grupos competidores (e portanto especializados) do processo de revisão ad hoc para publicação.

Alertamos o editor da revista, que nos forneceu direito de resposta para explicar a divergência e pediu a edição das conclusões no artigo a ser publicado, uma vez que poderia colocar em risco de vida diversos futuros pacientes a serem tratados com células-tronco imunogênicas.

Vale notar que, tanto no nosso trabalho original como no deles, nunca foi demonstrado que a contaminação das células é prejudicial ao paciente humano. Temos apenas resultados indiretos, em condições artificiais, indicando essa possível reação. O experimento para demonstrar a reação imunológica de forma definitiva é anti-ético, pois precisaríamos realizá-lo em humanos. Mas no final o que realmente importa é o “risco em potencial” que a contaminação pode trazer tanto ao clínico quanto ao paciente. E esse é apenas o topo do iceberg, podendo haver muitos outros tipos de contaminantes. Sabendo-se desse risco, faço a seguinte pergunta ao leitor: caso você, ou alguém próximo a você, precisasse de um transplante de células-tronco e tivesse a chance de escolher entre uma célula contaminada e uma não-contaminada, por qual das duas você optaria? Pois é, acredito que seria melhor focarmos nossos esforços em eliminar a contaminação de forma prática e acessível, em vez de divagar se ela seria ou não prejudicial aos futuros pacientes.

E assim caminha o processo científico, num interessante jogo de argumentação onde só o que é reprodutível prevalece!

* Alysson Muotri é pesquisador do Instituto Salk, em La Jolla (Califórnia, EUA). Formou-se em ciências biológicas pela Unicamp em 1995 e é doutor em genética pela USP. Seu trabalho aborda temas da fronteira da genética e biologia atuais, como o desenvolvimento dos neurônios e as células-tronco.

Fonte: G1 – O Portal de Notícias da Globo, Coluna Espiral (3/11/06)

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