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Pesquisadores reclamam de preconceito das revistas 16/10/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Utilidade pública.
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Cientistas de fora dos EUA e Europa sentem maior dificuldade para publicar

Herton Escobar escreve para “O Estado de SP”:

A produção científica brasileira – medida pelo número de trabalhos publicados em revistas científicas – vem crescendo consistentemente ao longo dos últimos 30 anos.

Mas a inserção da pesquisa nacional nos periódicos de maior impacto, como Nature e Science, ainda é pequena. Algo que, por um lado, reflete o estágio evolutivo geral da ciência brasileira – ainda longe das pesquisas de ponta feitas nos EUA e na Europa.

Muitos cientistas que tiveram artigos rejeitados, porém, reclamam de “preconceito” ou “discriminação” das grandes revistas contra trabalhos submetidos por autores de países em desenvolvimento.

Associado a isso há uma sensação de que os trabalhos só recebem atenção quando acompanhados do nome de algum pesquisador ou instituição “estrangeira”. De fato, são raros os estudos publicados na Nature e Science com autores e instituições exclusivamente brasileiras ou que têm, pelo menos, cientistas brasileiros como autores principais.

“Preconceito é uma palavra forte, mas certamente existe uma restrição. O filtro para nós é muito mais estreito”, diz o pesquisador do Departamento de Biofísica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), João Bosco Pesquero, que desenvolve projetos com animais transgênicos e há mais de um ano tenta publicar um estudo na revista Nature Medicine.

“Querem que a gente demonstre algo por três metodologias diferentes, quando uma já seria suficiente”.

“É o tipo de coisa que a gente não tem como provar; mas há um sentimento muito claro de que isso, de fato, ocorre”, diz o engenheiro agrônomo Luis Ignácio Prochnow, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP).

“A impressão é que, se o autor é americano, o tratamento é um. Se o autor é ‘de fora’, o tratamento é outro”.

O colega Marcio Lambais, também da Esalq, que em junho publicou um artigo na Science sobre biodiversidade de bactérias na mata atlântica (em colaboração com um americano), também sente o tratamento diferenciado.

“Se fosse um trabalho só de autores brasileiros, não sei se teria entrado”, diz. “O problema maior é a desconfiança. A partir do momento que você estabelece uma relação de confiança com a revista, tudo bem”.

Networking

Segundo o físico e ex-pró-reitor de Pesquisa da USP, Luiz Nunes de Oliveira, a política da ciência depende muito de conhecer e ser conhecido na comunidade.

Para isso, diz, é preciso freqüentar congressos internacionais e apresentar trabalhos no exterior – o que pode ser mais difícil para cientistas de países com menos recursos.

“Tem muita gente boa conhecida, assim como muita gente boa desconhecida”, diz. “Se você não conhece o autor, é difícil saber se ele fez o que está dizendo que fez”.

Ainda assim, Oliveira não acha que haja má fé por parte das revistas, e diz que eventuais dificuldades não devem ser usadas como desculpa para não publicar (ou tentar publicar) em revistas conceituadas. “Acho que faz parte das regras”.

Entre 2001 e 2005, segundo ele, dos quase 70 mil trabalhos publicados por brasileiros em revistas indexadas na base ISI (Institute for Scientific Information), só 65 foram na Nature e Science.

Neste ano, especificamente, dos mais de 8 mil trabalhos submetidos até agosto para publicação na Nature, apenas 50 tinham autores brasileiros, segundo a editora Linda Miller.

A Alemanha, comparativamente, submeteu mais de 500 trabalhos e os EUA, mais de 3 mil. “Os editores só podem selecionar estudos que são submetidos”, diz.

A editora-executiva da Science, Monica Bradford, faz uma observação semelhante. “Para publicar os melhores trabalhos, temos de receber os melhores trabalhos para começo de conversa”, diz.

“Talvez haja essa percepção incorreta de que os trabalhos não serão publicados e por isso muitos estudos não são submetidos. Se a ciência for boa, vamos dar uma olhada nela, não importa de onde venha”.

As duas revistas informaram não ter estatísticas mais precisas sobre trabalhos brasileiros submetidos e publicados.

Clube fechado

Para Antonio Carlos Martins de Camargo, do Instituto Butantã, não basta ser um bom cientista para publicar numa boa revista.

Segundo ele, há um “círculo de influências” que envolve os detentores dos recursos (governo, indústria e agências de fomento), os pesquisadores (que precisam dos recursos) e as revistas e seus revisores (que avaliam e publicam os trabalhos dos pesquisadores).

Um círculo que, dificilmente, é penetrado por pessoas de fora dele.

“Quando você olha o cientista brasileiro que publicou numa revista de alto impacto, vê que quase nunca foi sozinho; foi sempre com algum figurão que participa de um desses clubes”, afirma Camargo.

“Poucos brasileiros com uma linha de pesquisa própria conseguem publicar na Nature e Science. Aí a coisa é fechada”.

Dificuldade pode ser resultado da má qualidade

“Se você recebe um trabalho de uma instituição pouco conhecida, vai fazer uma revisão mais crítica. Não há como evitar isso”

“Muitos pesquisadores reclamam desse preconceito. Em grande parte, acho que as denegações (rejeições) acontecem porque a nossa ciência, no geral, continua mais fraca que a dos países desenvolvidos”, avalia o bioquímico Rogerio Meneghini, coordenador científico do programa Scielo, a principal base de periódicos científicos do Brasil.

“O fato do grau de denegação ser superior para artigos brasileiros em relação aos norte-americanos e do oeste europeu é uma regra. Decidir até que ponto isso acontece por preconceito ou por falta de qualidade não é algo simples de responder”.

“Muita gente se queixa disso, mas eu nunca senti”, diz o também bioquímico Hernan Chaimovich, diretor do Instituto de Química da USP. “Alguns clubes são abertos, outros são fechados. Mas se você não tenta, não entra em nenhum. Não podemos ser provincianos”.

Para o ornitólogo André Nemésio, é preciso fazer uma autocrítica: “Uma boa parcela dos pesquisadores no Brasil não tem conhecimento para escrever um bom trabalho”.

Isso envolve, segundo ele, não só a apresentação de dados, mas a capacidade de discuti-los e de escrever um bom texto em inglês, adequado ao formato das publicações científicas.

“Acho que existe mais um pós-conceito do que um pré-conceito: as revistas devem receber tanta coisa ruim que isso acaba criando uma má vontade”.

Para o físico e diretor do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) José Roberto Drugowich, é natural que uma pesquisa apresentada por cientistas de universidades menores – mesmo dentro dos EUA – seja avaliada com mais rigor do que um trabalho de Harvard, por exemplo.

“Se você recebe um trabalho de uma instituição pouco conhecida, vai fazer uma revisão mais crítica. Não há como evitar isso”.

Apesar da pouca penetração na Nature e Science, lideranças apontam que a produção brasileira cresceu expressivamente dentro de publicações setoriais, também de grande prestígio.

No Physical Review Letters, principal periódico na área de física, por exemplo, o número de trabalhos com autores brasileiros aumentou de 231 no período 1996-2000 para 338, no período 2001-2005.

No geral, levando-se em conta todas as publicações indexadas da base ISI (que reúne quase 9 mil revistas, consideradas as melhores do mundo), a produção científica brasileira aumentou 19% entre 2004 e 2005. Hoje, o País produz 1,8% da ciência mundial.

“Nunca tive dificuldade para publicar um bom trabalho”, diz o físico e diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, João Steiner. “Pessoalmente, nunca tive essa sensação (de preconceito) e desconheço situações em que tenha acontecido. Nem por isso estou dizendo que não aconteça”.

Uma preocupação maior, segundo ele, é a formação de “alianças” para influenciar citações – a referência bibliográfica de trabalhos que tiveram seus dados utilizados para uma pesquisa.

“Acho que isso, sim, existe e tem conseqüências muito mais sérias do que uma eventual dificuldade de publicação”, diz.

“O que vale para o cientista é o número de citações, mais do que o número de publicações”.

Fonte: O Estado de SP, 10/9

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