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A ciência questiona seu sensacionalismo 15/10/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Utilidade pública.
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Estudos polêmicos publicados em grandes revistas atraem a atenção do mundo, mas expõem críticas de cientistas preocupados com os exageros

Herton Escobar escreve para “O Estado de SP”:

Um cientista coreano que foi o primeiro a produzir células-tronco embrionárias clonadas de pacientes. Um pica-pau considerado extinto que renasceu das cinzas em uma floresta alagada dos EUA.

Um homem tetraplégico capaz de controlar um braço robótico apenas com o poder do cérebro.

Uma fraude completa, um bicho que ninguém nunca mais viu e um experimento de resultados limitados, obtidos com um único paciente.

Três estudos publicados em grandes revistas científicas internacionais e que viraram notícia no mundo inteiro, mas deixaram muitos pesquisadores descontentes.

Críticas ao conteúdo e ao processo de revisão das principais revistas científicas do mundo ganharam fôlego recentemente com a publicação de alguns trabalhos controversos e de mérito científico duvidoso.

O caso das células-tronco na Coréia do Sul (publicado pela Science e depois retratado, após investigação) é certamente o mais escandaloso de todos. Mas não o único.

Pesquisas nem sempre tão fantásticas e nem sempre tão relevantes são muitas vezes divulgadas com estardalhaço pelas revistas, ao mesmo tempo em que trabalhos aparentemente de melhor qualidade estariam sendo ignorados ou nem sequer publicados.

No foco das atenções – e das críticas – estão a britânica Nature e a americana Science, os dois periódicos científicos de maior influência no mundo.

Entre os críticos está o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que há quase dez anos dirige o Centro de Neuroengenharia da Universidade de Duke, nos EUA, e que já publicou diversos trabalhos nas duas revistas.

Segundo ele, as grandes publicações científicas estão seguindo o caminho dos grandes conglomerados de mídia, onde o entretenimento e os interesses de anunciantes têm prioridade sobre o conteúdo e a notícia – ou, nesse caso, a ciência.

“Há uma crise muito grande na área de publicações científicas”, disse Nicolelis ao Estado. “Não há transparência e o sistema de revisão virou uma guerra. Ninguém mais entende qual é o critério dessas revistas para aceitar ou rejeitar trabalhos”.

Critérios duvidosos

Ao ler um estudo recente sobre o controle cerebral de próteses – uma das áreas com a qual trabalha – publicado na capa da revista Nature, Nicolelis disse ter ficado “enojado”.

“Quando um trabalho fraco como esse sai na capa da Nature, é a prova cabal de que a integridade das revistas está comprometida por interesses comerciais”, disse.

“Minha impressão é de que elas entraram na onda de fazer publicidade delas mesmas. O que importa agora é sair nas manchetes”.

O trabalho em questão, assinado por cientistas de universidades renomadas como Harvard e Brown, relata o desenvolvimento de uma “interface cérebro-computador”: um programa que permitiu a um paciente tetraplégico mover um cursor digital e um braço mecânico por meio de comandos cerebrais.

A tecnologia está sendo desenvolvida junto a uma empresa americana chamada Cyberkinetics.

Na avaliação de Nicolelis, o estudo apresenta resultados extremamente fracos e já demonstrados por outros grupos de pesquisa – inclusive o dele. “Não sei quem revisou esse estudo para ser publicado na Nature, mas certamente não foi nenhum pesquisador de ponta na área”.

Influência comercial

Nas revistas médicas, como New England Journal of Medicine, Lancet e Journal of the American Medical Association, a principal preocupação é com relação a influência da indústria farmacêutica sobre dados científicos que são ou deixam de ser publicados.

“A comercialização da medicina vem substituindo de maneira assustadora o rigor científico de trabalhos publicados por revistas de alto impacto”, diz o cientista Antonio Carlos Martins de Camargo, diretor do Centro de Toxinologia Aplicada (CAT) do Instituto Butantan, que pesquisa novas drogas a partir de moléculas naturais da biodiversidade.

“Os trabalhos freqüentemente contêm resultados não reproduzíveis, deixam de citar trabalhos pioneiros, omitem dados conclusivos depositados em bancos de dados oficiais, tudo para manter a reputação do grupo ou algum interesse econômico que o favoreça”.

Ele cita o exemplo do Vioxx, antiinflamatório da Merck que teve de ser retirado do mercado após a constatação de que aumentava o risco de doenças cardiovasculares, inclusive enfarte e derrame.

A apuração do caso, segundo Camargo, indica que evidências de risco foram omitidas na publicação dos ensaios clínicos.

“Mesmo em estudos que comprovadamente tenham mostrado o risco do uso de certos medicamentos, publicações ‘encomendadas’ em revistas especializadas de alta reputação substituem o rigor científico”, critica o pesquisador.

O sumiço do pica-pau

Outro caso recente é o do pica-pau-bico-de-marfim (Campephilus principalis), uma ave americana considerada extinta há 60 anos e que teria sido redescobertaem 2004 numa reserva florestal do Estado de Arkansas.

O estudo que relata a “ressurreição” foi capa da Science de 3 de junho de 2005 e atraiu grande atenção da mídia internacional. As evidência apresentadas, porém, foram (e continuam sendo) duramente contestadas.

As únicas provas visuais da existência do pica-pau são imagens de um vídeo feito a longa distância e com baixíssima definição.

“A imagem é tão ruim que tiveram de fazer um desenho ao lado para explicar o que estão tentando mostrar”, diz o ornitólogo André Nemésio, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Não há evidência nenhuma, há apenas uma hipótese. É Deus, só vê quem acredita”.

Para ele, a revista errou ao publicar um trabalho com evidências tão fracas. “Acho que foi uma decisão muito mais política do que científica”, diz. “Há muita gente grande envolvida e a pressão deve ter sido muito forte.”

Nemésio não está sozinho. Tanto que, em março, a Science publicou dois artigos de reavaliação do estudo: um com críticas de outros pesquisadores e outro, com a resposta dos autores, reafirmando a interpretação dos resultados. O estudo é liderado por cientistas das Universidades de Cornell e Arkansas.

Até hoje, apesar de muitos esforços, ninguém nunca mais avistou o pica-pau extinto. Ainda assim, os efeitos da publicação continuam a ser sentidos. No mês passado, um juiz federal barrou um projeto de irrigação de US$ 320 milhões por causa do risco de o hábitat do pica-pau ser afetado.

Opiniões

João Steiner, Diretor do Instituto de Estudos Avançados/ USP

“Acho que existe um certo sensacionalismo, um pouco de forçação de barra. O número de pessoas que estão preocupadas com isso não é pequeno. É ruim para a ciência porque estão dando uma visibilidade falsa a um trabalho cujo valor não corresponde”.

Luiz Nunes de Oliveira, Físico e ex-pró-reitor de Pesquisa da USP

“Não acho que seja uma questão de chamar a atenção da mídia, mas da comunidade científica. Essas são revistas que definem sua missão como publicar estudos de alto impacto, que produzam muitas citações. Se é algo que tenha potencial para gerar discussão, eles aceitam”.

José Roberto Drugowich, diretor do CNPq

“Essas revistas têm sua função, e é bom que elas chamem a atenção. Isso cria uma competição salutar para que os cientistas produzam coisas interessantes e não só ciência do dia-a-dia. É algo estimulante ao pensamento e à criatividade. Elas cumprem esse papel”.

Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp

“Acho que a decisão sobre o que vai na capa das revistas tem uma boa dose de subjetividade. O interesse da mídia deve entrar na conta, mas não vejo nada de muito impróprio nisso”.

Marcelo Nóbrega, Geneticista da Universidade de Chicago

“As grandes revistas sempre veicularam artigos sensacionalistas e continuarão a fazê-lo. Elas dizem que têm inserção na sociedade leiga, e aí fica fácil ver porque há exageros. Tente vender uma lista telefônica ou uma revista de fofocas e veja qual sai primeiro”.

Fonte: O Estado de SP, 10/9

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