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Entrevista sobre o tratamento da EM 30/08/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Qualidade de vida, Utilidade pública.
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SPEM Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla (Boletim n.º 72 – 2º Trimestre 2006) entrevista a Dra. Ângela Valença, neurologista

Boletim da SPEM (SPEM): O conceito dualista de “cura ou abandono” que existia nos anos 70 e contra o qual se bateu o saudoso Dr. António Magalhães veio a ser progressivamente alterado, nomeadamente na década de 90, com o aparecimento de meios terapêuticos que permitem aos médicos “atrasar” ou mesmo “suspender” a evolução natural da doença. Concorda? Poderia dar-nos uma muito breve informação, acessível aos nossos leitores, das muitas moléculas que permitem modificar a evolução
natural da doença?
Ângela Valença: Como diz, os conceitos simplistas do “tudo ou nada” ou “branco ou preto”, não nos levam normalmente a boas posições. Na esclerose múltipla há terapêuticas que actuam! Para a forma mais frequente, que é a forma por surtos e remissões, há dois tipos de medicamentos experimentados por esse mundo fora nos últimos 10-15 anos. Os resultados foram comprovados em muitos milhares de pessoas com esclerose múltipla, de várias países, etnias e idades: interferões beta e Copaxone.

SPEM: Considera, então, que se encontram disponíveis diversas formas de intervenção para tratar as pessoas com esclerose múltipla? Existem critérios definidos que permitam ao médico neurologista fazer opções terapêuticas diferentes? Permitem escolher o medicamento mais adequado?
ÂV: Certamente que há tratamentos eficazes para tratar a esclerose múltipla (não completamente eficazes, como acontece aliás também nas outras doenças, mas eficazes, de alguma forma). Desde a forma mais frequente, de que já falámos, aos surtos, até às complicações que podem surgir, ou às formas menos frequentes. Há ainda medicamentos que se podem utilizar em alternativa, quando os medicamentos indicados em primeira linha não podem ser usados ou não estão a ser completamente úteis. Há critérios que permitem tomar uma ou outra opção. Evidentemente que há ainda um caminho a ser percorrido para tornar os medicamentos mais actuantes, mais específicos, mais fáceis de utilizar, mais acessíveis. E esse caminho está a ser percorrido agora, neste momento, com a enorme quantidade de investigação que está a ser feita em todo o mundo nesse sentido.

SPEM: Contudo, se todos os medicamentos (e estamos a falar de esclerose múltipla) têm o mesmo objectivo perante a doença, porque não optar por apenas um e só um dos existentes? Por aquele, por exemplo, que se apresente com menos custos para o erário publico?
ÂV: Quer uma resposta curta? Porque as pessoas, mesmo as que têm esclerose múltipla, são todas diferentes umas das outras.

SPEM: Das suas palavras podemos depreender que o tratamento tem a ver com a pessoa doente? A medicina e seus agentes (médicos) devem prescrever em função da pessoa doente e muito menos, ou mesmo nunca, em função da doença? Quer dizer que um mesmo medicamento pode não ser o melhor para duas pessoas distintas com o mesmo tipo de doença diagnosticada?
ÂV: Bom, como já viu, eu tento evitar as palavras como “sempre” ou “nunca”. Mas tem razão. A situação para a qual se tende é que cada pessoa doente, antes de ser medicada, tenha um estudo das suas características específicas genéticas e outras, de forma a que a medicação seja “talhada” por assim dizer para a sua doença, mas contando com a tal outra informação.

SPEM: Então, existindo vários medicamentos, com indicações terapêuticas semelhantes, compete ao médico, pelo conhecimento clínico que tem da pessoa doente, prescrever o que melhor sirva os interesses dessa pessoa. Admite, mesmo assim, que lhe possam ser dadas instruções, a si ou a colegas seus, para que prescreva um ou uns pré determinados medicamentos?
ÂV: Já se sabe que nós não vivemos no “mundo ideal”. Que o digam as pessoas que têm esclerose múltipla, por exemplo. Julgo que a questão está menos na indicação da prescrição do que na restrição de prescrição. Ou, dito de outra forma, pode haver restrições para que os dinheiros públicos paguem uma determinada terapêutica que poderia ter alguma vantagem sobre outra terapêutica. Essa é uma questão política. Os médicos não são a ela alheios e devem ser os advogados naturais dos doentes.

SPEM: Concluímos, então, que a liberdade de prescrição do médico só pode ser condicionada pela própria pessoa doente (não aceitando a prescrição) e que pode e deve utilizar todos os fármacos que existam legalmente à disposição da medicina humana?
ÂV: Julgo que não se pode formular a questão dessa maneira. Parece-me muito “branco ou preto”.

SPEM: Se se começar a constatar na prática, a nível local, regional ou nacional, que apenas um ou dois medicamentos modificadores do comportamento da esclerose múltipla são preferencialmente utilizados, nomeadamente em doentes de primeiro diagnóstico, a SPEM concluirá que se está perante uma situação anómala que denunciará na defesa dos interesses dos seus associados. A pergunta é a seguinte e para terminar: Mesmo sem que ninguém assuma a responsabilidade de uma estratégia dessa natureza, mas perante a evidência dos casos, devem os médicos (assumidos primeiros defensores da saúde) e a respectiva Ordem, denunciar essa eventual politica?
ÂV: Há critérios reconhecidos internacionalmente para o tratamento da esclerose múltipla. Esses critérios devem também ser aplicados em Portugal. Estou convicta que a Sociedade Portuguesa de Neurologia e o seu Grupo de Estudos da Esclerose Múltipla terão o maior empenho em garantir toda a colaboração para que os portadores de Esclerose Múltipla possam ter o nível de cuidados técnico-científicos necessário. Por outro lado, parece-me fundamental que as Associações de doentes, neste caso a SPEM, se mantenham vigilantes e reforcem a (boa) colaboração com os médicos. Não vejo aliás outro caminho.

SPEM: Muito obrigado por nos ter concedido esta entrevista.
ÂV: Foi uma honra ter podido colaborar.

Fonte: SPEM Online

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