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O senhor Lucidez 26/08/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Qualidade de vida.
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Por Marcelo Canellas

Isso que é nome bem dado: Lucídio. Vem do latim: iluminado, lúcido. Tudo o que aquele senhor de 85 anos revelou ser logo no nosso primeiro encontro. A cabeça de Lucídio é um espanto. “A memória da gente é como a gaveta de um fichário, está tudo lá”, explica, elucidando seu método de guardar nomes, e de ligar os nomes às pessoas, e de pôr as pessoas no contexto devido. Sem atrapalhações nem equívocos. “Você guarda as fichas bem limpinhas que, quando precisar de uma delas, você vai lá e encontra”. E como é que se mantêm limpas as fichas todas que a gente vai juntando pela vida afora? Esse segredo, o professor Lúcidio, que ajudou a fundar a Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília, revela sorrindo, marotamente, como se fosse a coisa mais natural do mundo: “Ué, botando a cachola para funcionar. Cérebro que não se exercita é um desastre”.

Lucídio malha os neurônios estudando. Quem visitá-lo de manhã bem cedo no apartamento amplo de um prédio projetado por Lúcio Costa, na Asa Norte, em Brasília, vai encontrá-lo de lupa em punho a esquadrinhar um compêndio de arquitetura ou de paisagismo ou de matemática pura ou de física quântica, “porque conhecimento não ocupa lugar”. Ele não usa a agenda do telefone celular, sabe de cor os números de todo mundo que conhece. E faz isso porque acha que a tecnologia tem a obrigação de dar respostas para estimular as pessoas. Ele se recusa a ser domesticado pela preguiça.

Chegou ao Planalto Central, antes da fundação da capital, para ajudar a planejar a urbe que estava sendo gestada. E continua trabalhando na Secretaria do Meio Ambiente, monitorando os núcleos rurais que saíram da prancheta dele e que ainda hoje abastecem os brasilienses de hortaliças frescas.

Nossa equipe não resistiu à tentação do trocadilho; nos encontros seguintes, passamos a chamá-lo de “senhor Lucidez”. Mas logo nos demos conta de que não era só isso. Nem eu, nem o editor Saulo de la Rue, nem o repórter cinematográfico Lúcio Alves, nem o técnico Alex Fabiano, conseguimos dissuadi-lo de subir as encostas do Núcleo Rural Alexandre Gusmão, a 70 km de Brasília, debaixo do sol impiedoso da estação seca do cerrado. Passou cerca, cruzou mato, zanzou de sítio em sítio – sem aparentar o menor sinal de fadiga! – para mostrar a obra de sua vida: “Tá vendo tudo verdinho aí? O Hugo Bota prosperou, o Chico Carioca tá de casa nova, o Napoleão comprou uma caminhonetona”, alegrou-se, chamando os agricultores da região pelo nome, como sempre fez.

Inclusive com as centenas de alunos a quem ensinou na universidade: “Chamar o aluno pelo nome é individualizar o ensino, é respeitar a pessoa que está ali para aprender”. No fim do dia, despediu-se com um “manda um beijo para a Francesca”, referindo-se à produtora Francesca Terranova, da redação do Globo Repórter no Rio de Janeiro.

O cérebro fascinante de Lucídio – que chamou a atenção dos cientistas do Hospital Sarah – foi bem tratado a vida inteira, é verdade. O senhor Lucidez gosta de ovo, alimento rico em colina, substância fundamental para estimular o nascimento de novos neurônios. Toma sol, favorecendo a fabricação de vitamina D no organismo, outro estimulante da atividade cerebral. E, sobretudo, evita aporrinhações, procura não se aborrecer com as mazelas da vida. Mas talvez o cérebro de Lúcido seja assim tão virtuoso porque o mundo precisa dele.

– Lucídio, para que serve a inteligência?
– Serve para servir.

Vida longa ao cérebro do senhor Lucidez.

Um abraço,
Marcelo Canellas
Repórter

Fonte: Globo Repórter, 25/08/2006

Leia a matéria completa: Mistérios do Cérebro

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