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Quem canta seus males espanta 26/08/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Qualidade de vida.
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Mistérios do Cérebro
Globo Repórter, 25/08/2006

Uma diarista, dois filhos pequenos e um domingo em que eles ouviram algo inteiramente novo.

“Eu senti uma coisa muito bonita e perguntei para minha mãe se a gente podia entrar para o coral”, conta Guilherme, 8 anos.

Foi como se aquela sensação desconhecida os puxasse para dentro do coral.

“Tinha muitas pessoas cantando e deu vontade de cantar”, diz Guilherme.

E o Coral Minaz, de Ribeirão Preto, ganhou dois novatos. Guilherme e Gabriel aprenderam a cantar em latim e compreenderam o complexo funcionamento de um coral.

“Nós não cantamos durante o solo porque essa parte é da soprano”, explica Gabriel, 11 anos.

“Nós temos uma vida bem simples, mas de muita paz. Acho que é por causa da música, sem dúvida. A música segurou uma fase ruim da vida”, diz a diarista Léia Amaral.

Falta de dinheiro, separação – os sufocos da vida. E uma fresta que a música abriu.

“Foi quando eu percebi que a música fez toda diferença. No final do ano, na fase difícil que estavam passando, eles sabiam que tinham os concertos de Natal e que teriam de 5 a 10 mil pessoas assistindo. Foi isso que sustentou essa fase difícil”, conta Léia.

Fase difícil como a que a aposentada Conceição de Paula Comodaro atravessou. “Eu passei por uma pequena depressão, e meu médico me aconselhou a procurar alguma coisa para fazer e me distrair. Coincidentemente, estavam fazendo um teste para um coro da reinauguração do Teatro Pedro II”, lembra Conceição.

Todos sabemos o quanto a música pode nos fazer bem. Às vezes, relaxando. Às vezes, trazendo antigas lembranças de volta. Às vezes, aguçando as emoções. É o cérebro que se encarrega de fazer a conexão entre a música e a história pessoal de cada um. Mas como isso ocorre, depende. Se você estiver sentado na platéia, apenas ouvindo, é de um jeito. Se estiver no palco, tocando ou cantando, é de outro.

A Sinfonia nº 40, interpretada pela Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, é uma das mais conhecidas de Mozart. A ciência já sabia que a música do gênio alemão do século 18 tem influência no cérebro: quem ouve melhora o raciocínio matemático e a percepção do espaço.

Mas os cientistas do campus da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto queriam comparar a atividade cerebral de cantores líricos com as de pessoas sem conhecimento musical. Será que elas receberiam a música de forma diferente? Os dois grupos de voluntários passaram pelos mesmos testes.

“Basicamente, eu tinha que ficar deitada na penumbra, em silêncio, com os eletrodos na cabeça e ouvindo uma música erudita bem relaxante, para ver o que aconteceria com o cérebro da gente”, explica Conceição.

Além de Conceição, outros oito cantores do Coral Minaz participaram da pesquisa. “Eu indiquei várias pessoas que estavam disponíveis para fazer a pesquisa. Elas foram e fizeram várias coisas. Depois, contavam do eletroencefalograma e da voz gravada. Eles tinham uma relação entre o funcionamento do cérebro e viram depois acontecendo. Ficaram entusiasmados porque puderam ver o que estava acontecendo no corpo deles”, conta a maestrina Gisele Ganade.

A pesquisa mostrou uma diferença nítida na atividade cerebral entre os dois grupos. Nos leigos, como era esperado, a área mais ativada foi a região temporal direita do cérebro, que nos ajuda a entender as melodias e os ritmos musicais. Mas no grupo dos cantores a região mais ativada foi o córtex pré-frontal esquerdo, a região associada à linguagem, ao bem-estar, às emoções positivas e ao prazer.

“A pessoa muda totalmente. Ouvindo música, ficamos calmos e nos elevamos. Cantando, sentimos a música entrando pelo cérebro”, compara Conceição.

Os efeitos da música não param aí. “Eu tive que voltar a estudar para tentar acompanhá-los. E isso acabou sendo muito bom para mim e para eles. Nossa comunicação agora é maior. Sinto mais facilidade para me comunicar dentro e fora de casa. Voltei a estudar por causa deles, senão, chegaria uma hora em que não daria nem para conversar”, diz Leia.

Se uma música puxa a outra, pendor não tem fronteira. “Ele gosta muito de música clássica. Mas, sabe como é, moleque gosta mais de guitarra. Comprei a guitarra para o Gabriel e a bateria para o Guilherme. São usadas, mas tive que economizar durante uns bons meses”, diz a mãe dos meninos.

A sabedoria popular é realmente sábia, porque quem canta seus males espanta. No dia-a-dia, notamos essa diferença de quem canta, inclusive crianças. Eu digo sempre: criança que é ninada é criança afinada. Criança que não é ninada tem sempre problema. Criança que ouve a mãe ou o pai cantar tem outro jeito de levar a vida”, afirma Gisele.

“Tem várias pessoas melhores do que eu. Eu tenho a sensação de que um dia vou conseguir chegar nelas”, revela Guilherme.

Leia a matéria completa: Mistérios do Cérebro

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