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Psicanálise, neurociência, e o caminho do meio 21/08/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Qualidade de vida, Utilidade pública.
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Suzana Herculano-Houzel

Editora

Ele morreu, mas permaneceu vivo em sua obra e seus seguidores, e desde então já foi sepultado e ressuscitado várias vezes. Estamos falando de ninguém menos que Sigmund Freud, claro, e sua psicanálise, que encontra defensores e opositores igualmente fervorosos entre os neurocientistas. Os defensores concentram seus argumentos nos insights poderosos de Freud, como a importância da relação mãe-filho para a formação da personalidade, hoje amplamente sustentada pela neurociência. Se aqui e ali ele pecou pelo exagero ou por imprecisões, foi por conta das limitações do conhecimento sobre o encéfalo humano disponível no século XIX. De qualquer forma, muito do que ele propôs parece encontrar hoje fundamento nas novas pesquisas sobre o cérebro, como expõem os especialistas que assinam a seção Perspectiva deste número da Neurociências.

Um pouco mais difícil de se revelarem, os opositores também existem, e vários já declararam a morte da psicanálise algumas vezes. Um dos argumentos principais é o não-cientificismo da tal ciência de Freud, exposto recentemente pelo jornalista científico John Horgan em seu livro A mente desconhecida [1]: a psicanálise tem explicação para tudo, e essas explicações, ao contrário de hipóteses científicas, não são necessariamente testáveis, muito menos falsificáveis. Horgan compara a onisciência do psicanalista, em todo seu esplendor explicativo, à brincadeira de criança, “Cara-eu-ganho-coroa-você-perde”: se o paciente não reconhece que seus transtornos vêm de uma relação problemática com a mãe, então é porque essa relação foi tão problemática que ele não consegue admitir…

Opiniões à parte, fato é que algumas das bases da psicanálise hoje encontram fundamentação neurocientífica – enquanto outras são facilmente jogadas por terra. O aclamado neurologista indiano Vilayanur Ramachandran, citado por vários autores neste número da Neurociências somente como um defensor da psicanálise, é mestre em fazer ambas as coisas. Ao mesmo tempo em que considera encontrar exemplos de repressão freudiana em pacientes que não reconhecem a paralisia de todo um lado do corpo, Ramachandran e sua neurociência oferecem explicações muito mais plausíveis para outros fenômenos [2]. Entre eles estão a síndrome de Capgras, onde uma lesão cortical faz um jovem pensar que sua mãe é uma impostora (devido a uma desconexão entre a visão e o sistema límbico, e não a uma rebuscada confabulação por perda da inibição de impulsos sexuais despertados pela própria mãe); a histeria, termo médico para a paralisia ou cegueira súbita na ausência de lesão neurológica (caracterizada como a incapacidade de gerar atividade por exemplo no córtex motor, e não como um problema “puramente” psicológico); e mesmo o fetiche por pés (devido à proximidade entre a representação cerebral dos órgãos sexuais e dos pés, e não, como queria Freud, a uma suposta semelhança entre pés e pênis…).

Freud acertou em muitas coisas, e errou feio em várias outras – como era de se esperar de qualquer pessoa que se aventurasse a explicar as bizarrices da mente humana numa época em que pouco se conhecia sobre o sistema nervoso. Muitos pacientes certamente se beneficiaram da psicanálise, e muitos outros (e suas mães) deram graças aos céus quando os fármacos os liberaram da onisciência de terapeutas e trataram rapidamente depressões severas, manias, TOCs e esquizofrenias. Quando se trata da relação entre Psicanálise e Neurociência, talvez a sabedoria do Caminho do Meio esteja mais num trajeto em zigue-zague, que reconhece as idiossincrasias de cada paciente: uns reagirão melhor à “cura pela fala”; outros, a terapia cognitiva-comportamental; outros, a medicamentos; e muitos a combinações variadas, em momentos variados. A razão do sucesso, no entanto, é uma só: todos os caminhos levam ao cérebro.

Fonte: Revista Neurociências – volume 1, número 3. Editora Atlântica.

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