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Prontidão afetiva 09/08/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Qualidade de vida.
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Entrevista com Jurandir Freire Costa

De onde veio a cultura das sensações?

JURANDIR FREIRE COSTA: A cultura das sensações significa que a maioria das pessoas, sobretudo na vida urbana, está buscando cada vez mais no corpo as regras e o modelo, com os quais têm que se identificar. Desde o século XVIII, a medida da qualidade humana de um indivíduo era dada pelo seu conteúdo sentimental. Agora, tudo é corpo, corporeidade: sua capacidade de viver mais, de boa forma física, de estar jovem e bonito. Essa revolução começou nos anos 60, mas se acelerou vertiginosamente nos anos 70 e 80.

Por que você está analisando essa nova ordem cultural?

JURANDIR: É uma seqüência do trabalho que eu fiz sobre o amor romântico. Durante muito tempo, a gente viveu basicamente sob a cultura dos sentimentos. O que importava para um indivíduo se realizar e se imaginar um ser humano pleno e íntegro era a densidades emocional e sentimental. Era olhar para a própria consciência e ver ou se r visto como uma pessoa profunda, sensível, capaz, honesta, tenaz nos propósitos, leal e fiel. Isso dava o molde para uma identidade. Agora, o modelo vem da sua capacidade de extrair sensações do corpo. Não adianta você imaginar que está sendo leal, fiel e tenaz. Não adianta imaginar que você é uma pessoa densa e profunda se você estiver gorda, envelhecida, apavorada com o colesterol, sem condições de se apresentar diante dos outros como uma pessoa jovem.

Essa é a nova identidade urbana?

JURANDIR: É, mas a minha preocupação é com os custos emocionais pelos quais esse modelo já está sendo responsável. As pessoas querem estar em boa forma, ser jovem, magras e viver felizes. Mas o que é ser feliz? A felicidade é basicamente sentimental porque o romantismo amoroso é o que dá sentido à vida privada. Mas ninguém está disposto, como no romantismo do século XIX e do início do século XX, a sacrificar a liberdade sexual, o dinheiro e a beleza por amor nen hum. Todos querem amar, mas não conseguem.

Por que são incapazes de amar?

JURANDIR: Essa falta de sentido de vida se deve a várias causas, mas a principal, de fato, é a dificuldade que de fazer projetos a longo prazo. Antes, o que garantia o projeto a longo prazo, ao qual você dedicaria a sua vida? Era a família, o trabalho, a religião, a política. Isso tudo acabou. Hoje, você tem que ser capaz de mudar o tempo inteiro, fazendo projetos fragmentados.

Mas essa fragmentação profissional não seria resultado da própria fragmentação do indivíduo? Se ele não é inteiro, como pode se dedicar por inteiro a uma atividade?

JURANDIR: É verdade. São realidades que se retroalimentam, a fragmentação interna alimentando a externa. Mas o pontapé disso foi desencadeado de fora. Além da falta de projetos a longo prazo, houve um desenvolvimento tecnológico maravilhoso, à medida que essa cultura de sensações foi surgindo. As tecnologias médicas fizeram com que a gente hoje sinta cada vez menos dor. Na minha infância, a gente sentia dor de dente por 24 horas. Hoje, os métodos anestésicos fazem com que você tenha na idéia de sofrimento a idéia de patologia. Há as tecnologias de próteses corporais, que fazem com que o corpo venha em primeiro plano.

A cultura das sensações destruiu os vínculos afetivos?

JURANDIR: Os vínculos existem, mas tendem a ser mais horizontais, mais plurais, mais instáveis, mais precários. Antes, o vínculo se fazia na vertical e isso permitia que você imaginasse a sua vida por muito tempo. Agora, você tem uma espécie de perplexidade. Você está muito bem, está exercendo sua profissão de maneira digna, com remuneração financeira que lhe contenta, tem uma relação amorosa que lhe satisfaz, mas você está vivendo uma ansiedade e uma aflição terríveis.

Por que tanta aflição?

JURANDIR: Primeiro, por medo de perder o que se tem. Segundo , por medo de não estar na ponta do que é o melhor. Depois, medo de que alguma coisa desconhecida esteja agindo e você não esteja percebendo, como ocorre por exemplo na doença. Há 30 anos ninguém sabia o que era taxa de triglicerídios ou de colesterol. Hoje duvido que 90% das pessoas da classe média urbana vão ao cinema, ao jantar, ao passeio sem falar disso.

Mas essa aflição não viria da infância? A partir dos anos 70, quando as mulheres entraram no mercado de trabalho, as crianças não ficaram um tanto abandonadas?

JURANDIR: Não acredito nisso. Seria preciso imaginar que essas mulheres em massa nos anos 70 e 80 foram incapazes de dar afeto. Eu acho que não. Do contrário, a gente teria quadros psicológicos muito piores. A privação afetiva não nos predispõe a seguir a moda e a nos tornar superficiais. Ela é responsável por lesões mentais mais graves. Eu acho que pais e filhos foram engendrados num torvelinho. Se houve abandono, foi das duas parte s, dos adultos e das crianças. Porque eles passaram a viver num mundo extremamente impiedoso.

Mas esses quadros não são graves? O fato de as pessoas estarem tão tristes não indica que algo não deu certo?

JURANDIR: Bem, quando se fala de depressão, isso é verdade. Há uma epidemia de depressões leves, que são tratadas com Prozac. Mas essas pessoas, apesar de tristes, não são pobres afetivamente. Estão tristes justamente pelo fato de não exercer o afeto. Elas dizem que querem amar, mas não encontram alguém de quem gostar. As pessoas que têm distúrbios de imagem corporal também não são pobres afetivamente.

Seriam subdesenvolvidas afetivamente?

JURANDIR: Eu diria que elas são subdesenvolvidas porque não têm um meio para se desenvolver. Não é que não tenham afeto. O potencial está inibido não porque a elas faltou carinho ou atenção, mas porque não há um terreno fértil para a afetividade.

Quer dizer que não adianta ter uma mãe amorosa porque ninguém cresce afetivamente em condições adversas?

JURANDIR: A mãe pode dar o carinho que der. E em geral dá. O drama de adolescente é isso. A mãe diz: “Meu filho, você tem isso, tem aquilo, você é bonito, inteligente, afável, cordato”. Ele diz que isso pouco importa, porque não conhece ninguém que reconheça isso. Os problemas com o corpo, o receio da frustração amorosa, a idéia de que somos livres para experimentar tudo o que vem à cabeça, a idéia de que ele vai entrar num mundo selvagem deixam todos os jovens armados. É como se fosse um estado não de paz, mas de prontidão para a guerra.

Seria um estado de prontidão afetiva?

JURANDIR: Sim. E neste estado de prontidão para a guerra, não abrem o flanco afetivo, porque estão com a promessa de uma felicidade de sensações, de uma cultura de sensações, que é falsa. É verdade que a gente pode ter umas tantas experiências sensoriais, mas isso é rápido e elas logo desaparecem.

Você acha que as pessoas se perderam afetivamente?

JURANDIR: Dizer que essa estrutura afetiva se perdeu é muito radical. Ela está ficando mais difícil, mas eu sou muito confiante e acho que as pessoas, na primeira chance que têm, soltam-se. O que acontece é que você pode ter corridas de obstáculos de diferentes ordens. Agora, a gente está com muitos obstáculos, mas não acho que a gente tenha perdido a afetividade.

Essa cultura de sensações favorece o uso de drogas?

JURANDIR: Favorece porque com essa aflição e essa angústia a pessoa nunca está bem. Está sempre aquém e precisa se acalmar a todo custo. E tem outra coisa que caracteriza a cultura das sensações. Antigamente, a cultura dos sentimentos se prolongava no futuro. Você não procurava realizar tudo que você gostava na sua vida. O seu filho continuaria as suas realizações. Agora isso é impossível.Tudo o que a gente quer é para já.

Além de questionar essa cultura de sensações, o que devemos fazer para nos sentirmos mais seguros?

JURANDIR: Hoje, uma das poucas coisas ainda seguras é o vínculo entre pais e filhos, já que o vínculo de parceria conjugal se fragilizou com o divórcio desde a Segunda Guerra. Mas os vínculos entre pais e filhos permanecem, embora vejamos isso também se enfraquecer. Isso me faz mal, porque a gente não sabe o que pode surgir daí. Não temos instituições que venham a suprir isso. Não somos uma sociedade coletivista, mas individualista. E um dos poucos laços de altruísmo, em que a gente exerce de fato a afetividade, é entre pais e filhos. Se nós deixarmos isso de lado, não sei onde vamos parar…

Como enfrentar a cultura das sensações

Você não é esquelética, não aparenta ter dez anos a menos e as taxas de colesterol teimam em subir. Como ser feliz apesar de todos esses “problemas”? Para o nutricionista Leonardo Haus, o primeiro passo é se conscientizar que o padrão de beleza em vigor é inatingível. Logo, relaxe:

— Para quem esse padrão de beleza é bom? Só se for para quem vive de moda. Mas o que é moda? O que é estilo? Não é a busca da própria singularidade?

Mas se o estilo é tipo chope com pizza, trate de mudar. Isso significa beber muita água, ingerir hortaliças e frutas, tentando sempre não misturar carboidratos e proteínas, o que dificulta a digestão.

— E vamos evitar a balança. Esse negócio de ficar se pesando toda hora é uma coisa neurótica.

O psicanalista Jurandir Freire Costa diz que questionar essa cultura é o primeiro passo para se distanciar dela e buscar outras alternativas:

— A gente acha isso pouco, no entanto, sempre que a gente quis fazer mais foi um desastre. Vamos supor que eu ache que esse modelo de beleza e a preocupação dos sentidos com a corporeidade seja um lixo que a nossa cultura democrática produziu. E se eu impedir a propaganda desse tipo de magreza na TV, desfiles, se proibir lojas de venderem roupas para magérrimas? Isso não daria certo.

Ele diz que a psicanálise pode ajudar a resistir à cultura das sensações, mas deve ser complementada com práticas corporais como ioga, meditação e até mesmo massagens de shiatsu.

Prontidão afetiva
Marcia Cezimbra

Vivemos um tempo de prontidão afetiva. Queremos amar, mas no mundo lá fora não há terreno fértil para a vida amorosa. Vivemos sob uma nova cultura, que promete felicidade através de sensações corporais: a boa forma, a sensualidade, o estímulo da beleza, o êxtase das festas. Mas tudo isso é muito rápido e logo desaparece, gerando uma aflição e uma angústia que estão causando uma epidemia de depressões leves, aliviadas com Prozac e com inúmeros outros psicotrópicos. Essa é a nova avaliação da vida urbana feita pelo psicanalista Jurandir Freire Costa, durante o seminário “Eu assino embaixo: biografia, memória e cultura”, que vai até fim do mês no Centro Cultural Banco do Brasil.

A cultura das sensações vem substituindo nos últimos 30 anos a cultura dos sentimentos, que imperou por quase três séculos, valorizando a vida sentimental e não, como hoje, a boa forma, a juventude, a capacidad e de viver mais. Mas há algo errado neste novo estilo de vida que, segundo Jurandir, está levando a população a um consumo de drogas legais, como psicofármacos e álcool, tão grande ou até maior que o da cocaína:

— Isso para mim é desumano. Eu não tenho que me entupir de psicotrópicos para sobreviver, para amar, criar meus filhos, trabalhar, criar artística, científica ou religiosamente. As pessoas precisam dessas drogas para poder dormir e ter um mínimo de paz de espírito e ânimo. Não são pessoas doentes, mas precisam sobreviver. Não pode ser assim — diz Jurandir.

O consumo em massa de psicofármacos para dormir, emagrecer, trabalhar ou relaxar após uma festa movimenta por ano US$ 500 bilhões, segundo a OMS, e assusta psicanalistas como Benílton Bezerra Júnior, do Instituto de Medicina Social da Uerj, e Tereza Pinheiro:

— As pessoas têm que ser belas e jovens, enfrentar a competição, suportar tensões sem reagir, viver sem amparos trabalhistas que estão ruindo e com suportes familiares cada vez mais precários. Desse jeito, só à base de calmantes. É um traço social de desespero, que tende a se agravar —- diz Benílton.

— Hoje o que importa é a imagem. É uma cultura de imagens. Se você é jovem, bonito e está ao lado de um carro Audi, você é alguém. Do contrário, você não existe — diz Tereza.

A depressão é uma epidemia mundial e a estimativa da OMS é que, em 2020, seja a principal causa de morte, superando a atual, por infarto. Para Jurandir Freire, todo mundo está tão fascinado pela idéia do corpo perfeito, da longevidade, da vitalidade e da sanidade que ninguém mais sabe que sentido dar à própria vida:

— A minha preocupação é com os custos emocionais dessa cultura de sensações. No tempo do amor romântico, as pessoas sacrificavam a própria vida por amor. Hoje você não sacrifica a sua liberdade sexual, a sua beleza, a academia de ginástica por amor algum.

Mas como, em apenas 30 anos, as pessoas se bloquearam afetivamente em nome das sensações obtidas no corpo? Jurandir Freire cita o sociólogo americano Richard Sennedt, autor de “A Corrosão do Caráter”, para apontar que uma das causas da atual crise afetiva é o regime de trabalho com o qual as pessoas sobrevivem e que impede que elas façam projetos a longo prazo:

— Antes, você escolhia uma habilidade profissional que lhe permitia continuar naquilo a vida toda, muitas vezes, mantendo-se num só emprego. A idéia agora é ter projetos fragmentados, ser capaz de mudar o tempo todo. Ora, isso faz com que você não imagine o sentido da vida como algo consistente, pelo qual vale a pena lutar. Amanhã você pode ter que abandonar tudo…

Sem querer voltar ao passado, de modo algum — “o tempo do amor romântico foi terrível com seus autoritarismos e seus preconceitos sexuais” — Jurandir diz que é preciso melhorar o presente. Mas como? Discutindo essa cultura de sensações para tomar distância dela:

— Podemos melhorar o presente sabendo, por exemplo, do sofrimento de milhões de garotas no mundo inteiro porque meia dúzia de malucos de Paris e de Milão inventou que as mulheres devem ser magérrimas. Isso é uma catástrofe na vida de milhões de pessoas. Um desastre, um horror.

O culto ao corpo substituiu o dos sentimentos

A situação está tão adversa para o amor que o psicanalista Jurandir Freire Costa surpreende ao dizer que uma mãe amorosa e boa não é garantia alguma de que o filho querido se tornará um adulto afetivamente satisfeito. Esses registros afetivos da infância remota, que, segundo Freud e pós-freudianos, estruturam emocionalmente o indivíduo, podem se apagar, segundo Jurandir, em terrenos áridos como o da cultura das sensações, que substitui aos poucos o culto aos sentimentos pelo culto ao corpo, à boa forma, à juventude, à longevidade e à saúde. Mas não satisfazem a alma. Aqui, Jurandir explica por que pessoas belas e saudáveis não conseguem amar.

Leia trambém a entrevista Corpo, narcisismo e a cultura das sensações.

Jornal O GLOBO, Caderno Jornal da Família, 12 de abril de 2003. Entrevista concedida a Marcia Cezimbra.

Fonte: Jurandir Freire Costa: http://www.jfreirecosta.com/

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