jump to navigation

Célula-tronco é tudo igual? 09/08/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Utilidade pública.
trackback

Há grandes diferenças entre as adultas e embrionárias, diz o professor Júlio Voltarelli

Desde que se intensificaram no país os debates referentes a pesquisas com células-tronco embrionárias, depois do advento da aprovação da Lei de Biossegurança pelo Congresso Nacional, em 2 de março, o imunologista Júlio Voltarelli vem recebendo mais telefonemas de jornalistas, pedindo detalhes sobre o estudo que conduz na Unidade de Medula Óssea do Hospital das Clínicas/Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto.

“O assédio é grande. Para muitos leigos, célula-tronco é tudo igual”, brinca o professor. Obviamente, não é: além das peculiaridades técnicas envolvendo a cultura e o emprego destas promissoras fontes terapêuticas, a modalidade “adulta” fica livre dos dilemas éticos embutidos na que envolve criação e destruição de embriões. Outra diferença: o estudo com células adultas está relativamente adiantado, trazendo esperanças concretas a portadores de doenças auto-imunes como esclerose múltipla e até diabetes – ambas focalizadas pela equipe do Dr. Voltarelli.

Veja, a seguir, entrevista concedida pelo professor ao Centro de Bioética do Cremesp.

Centro de Bioética – Como começaram suas pesquisas envolvendo células-tronco adultas?

Júlio Voltarelli – Partiram de minha experiência clínica com pacientes reumáticos e, em segundo lugar, por haver tido a oportunidade de acompanhar o início das pesquisas voltadas a lúpus e esclerose múltipla em unidades norte-americanas de transplante, durante estágio que fiz em San Diego em 1999 e 2000.

Voltando ao Brasil, organizei workshop em Ribeirão Preto, do qual participaram alguns convidados do exterior e, juntos, decidimos que iríamos mexer especificamente com lúpus; esclerose múltipla e esclerose sistêmica, as doenças mais graves que estavam sendo tratadas com células-tronco. A partir daí iniciamos estudo cooperativo com outros centros, principalmente o Hospital Albert Einsten que, em 2001, realizou o primeiro transplante contra esclerose múltipla.

Cbio – A técnica para a captação e a utilização de células-tronco adultas é muito diferente em comparação a que utiliza células embrionárias?

Voltarelli – A preparação da primeira é bem diferente. O que fazemos é dar ao paciente o fator de crescimento de granulose (G-CSF), hormônio que leva as células-tronco a se “desgrudarem” da medula e irem para o sangue. Depois, o sangue é coletado, submetido a uma cultura sérica e congelado em nitrogênio líquido. A pessoa, então, é submetida à quimioterapia e imunoterapia, que causam a destruição de seu sistema imunológico, reconstruído posteriormente pelo transplante do material coletado e congelado.

Cbio – É mais fácil usar células adultas, já que não há o entrave ético vinculado ao uso de embriões?

Voltarelli – Bem mais fácil, pois as células adultas estão fora de toda essa celeuma. Não é preciso a autorização do casal de doadores de gametas, enfrentar tanta gente contrária… Fora as éticas, há também dificuldades técnicas ao uso de células embrionárias. Uma delas: devemos encontrar uma forma de dar origem à linhagem celular que queremos, excluindo a possibilidade de gerar teratomas.

Estudos com células adultas também são mais imediatos, cerca de mil transplantes já foram realizados.

É claro que, para terapia regenerativa, células-embrionárias se constituem numa promessa melhor, no sentido de você poder injetá-las diretamente numa lesão de medula espinhal ou na retina, por exemplo, e estabilizar o problema. Veja: nosso grupo faz um tipo de terapia regenerativa, mas queremos regenerar o sistema imunológico, não um órgão em si, como o pâncreas. Na verdade, promovemos terapia antiinflamatória para a qual células adultas já dão conta.

Cbio – Quantos pacientes já receberam de seu grupo autotransplante de células-tronco? Todos se beneficiaram?

Voltarelli – Tratamos 30 pacientes com esclerose múltipla, dos quais 22 estão com a doença estabilizada; 16 com doenças reumáticas, sendo que dez melhoraram bastante e, depois disso, entramos em outra etapa, voltada ao diabetes. A doença mais difícil de se lidar talvez seja o lúpus, considerando-se que o paciente, às vezes, apresenta doença renal ou acometimentos no pulmão e cérebro, que resultam numa tolerância baixa ao processo.

Em breve, em parceria com o (Instituto Israelita) Albert Einstein, pretendemos usar transplante contra esclerose lateral amiotrófica (ELA, doença que se caracteriza pela degeneração progressiva dos neurônios motores no cérebro e na medula espinhal). A pesquisa já foi aprovada por nosso Comitê de Ética, mas ainda estamos buscando financiamento para promovê-la. Temos planos até para tratar fibrose pulmonar, como a ELA uniformemente fatal e que, por isso, carece de alternativa urgente de tratamento.

Recentemente escrevemos um capítulo de um livro do professor Richard Burt, da Northwestern University de Chicago, autoridade mundial no assunto, falando a respeito de transplante no combate da asma, que apesar de não ser doença auto-imune, é imunológica. Ainda não contamos com protocolo no tema, porém existe uma base racional que indica a possibilidade do procedimento.

Cbio – Em média, depois de quanto tempo o transplantado apresenta melhora?

Voltarelli – Tudo depende da doença, mas, em geral, os resultados são imediatos: a imunossupressão é muito forte, estabilizando o sistema imunológico da pessoa. Por exemplo, em esclerose múltipla os surtos são interrompidos. Quanto ao diabetes, a melhora é quase imediata, o paciente pára de tomar insulina.

Cbio – Seu grupo é pioneiro no tratamento com células-tronco adultas em diabetes?

Voltarelli – Pelo que eu saiba, não existe no mundo nenhum protocolo com estratégia semelhante. Um outro método, diferente, implementa transplantes de ilhotas pancreáticas.

O nosso é bastante promissor em diabetes do Tipo 1, mas há uma limitação, ou seja, não estamos tratando pacientes com a doença estabelecida a longo tempo e, sim, logo que aparecem os sintomas. Buscamos, no fundo, impedir que a pessoa fique diabética.

Começamos com um grupo de jovens, capaz de entender as implicações de um tratamento que acarreta certo risco, inclusive de morte, por causa da imunossupressão e quimioterapia. Não quisemos envolver apenas as famílias deles, deixar a responsabilidade da decisão apenas nas mãos dos pais.

Devido a essas implicações não incluímos crianças. Só que os resultados são tão animadores que estamos revendo tal decisão.

Cbio – Com a aprovação pela Câmara da lei de Biossegurança e a intensificação do debate sobre o emprego de célula embrionárias existe a hipótese de que os projetos com células-tronco adultas sejam relevados a um segundo plano?

Voltarelli – Não, porque tais estudos já estão funcionando.

As coisas mudariam se fosse feito estudo comparativo randomizado, no qual fossem superadas dificuldades relativas ao cultivo de células embrionárias em laboratório; contando com garantia das condições de segurança; derivando exatamente as linhagens que a gente quer; tratando alguns pacientes…

Enfim, se pudéssemos demonstrar que células embrionárias são melhores do que as adultas. Se isso ocorresse, pararíamos de usar células adultas e usaríamos só as embrionárias.

Médico é paciente em transplante com células-tronco adultas

Apesar de sua especialidade ser ginecologia e obstetrícia, o médico Antônio Roberto Torquato Alves tem muito para contar sobre transplantes com células-tronco adultas.

Em 1992, desenvolveu os primeiros sintomas de esclerose múltipla, doença degenerativa progressiva que acomete o sistema nervoso central: inicialmente foram dificuldades de realizar exercícios físicos, depois necessidade de bengalas e muletas e, a seguir, incontinência urinária.

“Assim que obtive o diagnóstico, decidi pesquisar tratamentos. Fui à Bélgica e aos EUA e percebi que, infelizmente, ninguém sabia direito o porquê de a doença aparecer e como se manifestava. O máximo que os especialistas podiam fazer era prescrever medicamentos para evitar os surtos e a progressão”, lamenta.

Até que, durante sua pesquisa, chegou ao grupo de imunologia da Faculdade de Medicina da USP/Ribeirão Preto e se candidatou a um transplante experimental com células-tronco adultas. Nem tudo, porém, saiu conforme Torquato esperava. “A imunoterapia e quimioterapia causaram complicações que resultaram em coma e sete meses de internação”.

Os esforços da equipe da UTI do HC/Ribeirão conseguiram reverter o quadro e, em março de 2004, o ginecologista retornou para casa e em agosto, voltou a clinicar. “Se tudo correr conforme estamos esperando, no final de 2005, dois anos depois do transplante, voltarei a andar. Minhas células-tronco foram geneticamente ‘limpas’ e estão se dividindo em células boas”, se anima.

Enfim, o “sacrifício” valeu a pena? “Quando me perguntam isso, nem pestanejo em responder: se precisasse, faria outro transplante. Estou tranqüilo, era a minha única chance”.

Fonte: Cremesp – Centro de Bioética

Anúncios

Comentários

1. pedro nascimento - 13/08/2006

Bom dia …

..Meu pai teve DERRAME CELEBRAL, a 1 ano, e ficou sequelas do lado esquerdo do corpo.
Vocês tem algum projeto com CELULA TROCO, p/ estes casos. Ele como cobaia.
Ele tem 65 anos e ganha 1 salário mínimo por isto tem que ser gratuíto e tem muita vontade de melhorar, pois aconteceu qdo ele tinha aposentado e tinha muitos sonhos interrompidos.

Quando aconteceu o DERRAME CELEBRAL, foi muito grave, e talvez pela fé de minha família em NOSSA SRA. DA APARECIDA e que salvou ele.

Ele mora na cidade de LINS-SP

*Caso não tenham este projeto, poderiam me indicar algum hospital no Brasil que trabalha com experiências em célula tronco.

Obrigado

Pedro
pedronask@gmail.com

2. Tica - 13/08/2006

Caro Pedro,

Entendemos que o caso do seu pai é muito grave e que está disposto a ajudá-lo, mas não indicamos nenhuma terapia no blog. Vocês podem conversar sobre isto com o médico(a) do seu pai. Não tenha receios de levantar esta questão. Procure aqui no blog o que já publicamos sobre células-tronco e anote no papel todas as dúvidas para a consulta.

Conte conosco como uma fonte de informações e apoio ao diálogo. Volte quando quiser.

Melhoras para o seu pai.
Abraços.

3. Érica Betti - 23/08/2006

IMPORTANTE :

Meu pai tem ELA, moramos na cidade de Americana e estamos procurando por alguma novidade no tratamento, pois aqui esta enfermidade é desconhecida pela maioria dos neuro-clinicos e estou tendo dificuldades em encontrar fisioterapeutas, fono e nutricionistas especialistas neste caso.
Por favor me orientem, preciso de indicações e qq. novidades no avanço de pesquisas, e tudo o q. vcs puderem me enviar sobre ELA.
Agradeço desde já, pq toda nossa família está desesperada !!!
Érica.

4. Tica - 23/08/2006

Érica,

Este blog trata sobre EM e não oferecemos indicação de profissionais.

Sei que é difícil, mas tente manter a calma e entre em contato com a AbrELA – Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiotrófica, onde poderão encontrar muitas informações sobre a doença, além de reuniões e apoio ao paciente.
AbrELA : Rua Pedro de Toledo, 377 – Vila Clementino
04039-000 – São Paulo, SP. Tel/Fax (11) 5579-2668.
E-mail: abrela99@hotmail.com
http://www.abrela.com.br/home/index.asp

Abraços e boa sorte.

5. Geliani Almeida - 29/08/2006

Boa tarde,
É difícil manter a calma em situações como as especificadas acima. O que realmente queremos é que alguém nos diga: “Temos uma solução para a doença que acomete sua família”, creio possa ser possível em breve.
Meu pai tem uma doença diagnosticada como DEGENERATIVA OLIVO PONTO CEREBELAR. Está atualmente tendo dificuldades para equilibrar-se e falar. Vejo o sofrimento dele, atualmente sofrendo de um quadro clínico de depressão. Assiste TV o dia todo, e seus olhos brilham qdo ouve relatos com célula-tronco. Tem alguma novidade pra nós? Ele quer muito viver. Gostaria pelo menos de establilizar a doença. Nos ajude, de alguma forma, por favor.
Geliani
Travessa Nashiville, 74- Jardim Mansur- Campo Grande-MS

6. Tica - 30/08/2006

Prezada Geliani,

Sabemos que é difícil manter a calma, mas é realmente o primeiro passo para lidar com qualquer problema. Também continuamos com a esperança que logo, com os avanços da neurociência, todas as doenças degenerativas, como a nossa e a do seu pai, tenham cura. No momento não temos nada além do publicado, mas esperamos que as matérias que selecionamos no blog possam ajudar de alguma forma.

Abraços com muita força e esperança


Sorry comments are closed for this entry

%d blogueiros gostam disto: