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Lembrar de esquecer 18/07/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Qualidade de vida, Terapia Ocupacional.
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ivan.JPGAgência FAPESP – Uma das últimas grandes contribuições do grupo liderado pelo neurocientista Iván Izquierdo, em Porto Alegre – onde mesmo aposentado formalmente, aos 68 anos, dirige o Centro de Memória do Instituto de Pesquisas Biomédicas da Pontifícia Universidade Católica (PUC) – foi identificar a existência das memórias de longa e curta duração. Mas esse conceito é apenas um, entre vários outros, apresentados pelo argentino naturalizado brasileiro nas três últimas décadas.

Com base em grande conhecimento científico, apresentado à comunidade em mais de 500 artigos, Izquierdo proferiu uma conferência nesta quarta-feira (28/6), em São Paulo, no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP). O tema, baseado em um de seus livros mais recentes, foi “A arte de esquecer”.

Segundo o pesquisador, apenas motivos biológicos, como a atrofia sináptica, causada pela falta de uso, ou doenças degenerativas, como Parkinson ou Alzheimer, podem destruir memórias. “Depois dos 70 anos, ao contrário do que a maioria das pessoas acredita, 70% da população não tem problema de memória”, disse. Ao usar o próprio exemplo, aproveitou para dar uma receita infalível para deixar as lembranças no lugar: “A leitura, disparado, é a melhor forma de exercitar a memória”.

Dentro do cérebro, mais precisamente em áreas como o hipocampo e o córtex, processos bioquímicos são responsáveis pelo registro real da memória. Enquanto a memória de curta duração – ou memória de trabalho – é descartada rapidamente, a memória de longa duração precisa de pelo menos 12 horas para ser construída. “Esses dois tipos funcionam de forma paralela. Eles são fundamentais para o todo”, disse.

Em época de Copa do Mundo, o exemplo para ilustrar a importância do esquecimento da memória de curta duração não poderia ser outro. “Nessa sala [lotada], acredito que ninguém seja capaz de descrever todo o dia de ontem. Mesmo todo o jogo do Brasil. Lembramos dos gols e de alguns lances, no máximo, como aquela defesa que o Dida fez com os pés meio sem querer”, disse.

Para o cientista, não existe dúvida de que o aspecto mais notável da memória é o esquecimento. Ao citar o conto Funes, o memorioso, Izquierdo, também autor de livros de contos, lembrou que o argentino Jorge Luis Borges já havia percebido isso. “O personagem lembrava de absolutamente tudo e, por causa disso, não conseguia pensar de forma genérica”, disse.

Ainda do ponto de vista científico, o cérebro humano, de forma quase sempre inconsciente, costuma extinguir determinadas memórias e reprimir outras. O entendimento desses processos, que estão sendo estudados também pela equipe de Izquierdo, pode ser muito útil inclusive no tratamento de determinadas doenças.

“Imagine uma pessoa com depressão. É até bom que ela tenha sua memória comprometida, uma vez que lembrar de tudo pode até levá-la ao suicídio. E a dor do parto? Se as mulheres conseguissem reproduzir por completo esse sentimento, ninguém teria mais de um filho”, disse.

Para o pesquisador, é por isso que, ao entender melhor esses comportamentos, abre-se a possibilidade de que determinados processos possam ser cada vez mais dirigidos. Isso, na verdade, já é feito pelos psicoterapeutas em determinados tratamentos de estresse pós-traumático.

Fonte: Agência Fapesp 29/06/2006

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