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A era do bocejo 13/07/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Qualidade de vida.
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Esta notícia é de tirar o sono: estamos dormindo menos. Ficar sem pregar os olhos detona o corpo e não há nenhum sensacionalismo aí. A ciência mostra que isso contribui para a ocorrência de males como diabete, depressão e obesidade

bocejo.jpgNo 24° andar do Empire State Building, o legendário arranha- céu nova-iorquino, encontra- se à venda um artigo que, sem exageros, hoje pode ser considerado de luxo — e olha que ele não tem nada de supérfluo. Ali localiza-se uma das unidades da Metronaps, empresa que comercializa uns bons 20 minutos de sono pela bagatela de 14 dólares, algo em torno de 32 reais, preço de um bom almoço no Brasil. Num ambiente com baixa luminosidade, temperatura agradável e quase nada de barulho, a soneca metropolitana é tirada numa cadeira hightech reclinável cuja parte superior possui uma espécie de casulo para dar certa privacidade ao dorminhoco. Quando o tempo expira, a engenhoca vibra suavemente e as luzes à volta se acendem para que o cliente se acorde sem sobressaltos. A Metronaps garante que os 20 minutos de repouso elevam o estado de alerta e diminuem o estresse no restante do dia.

Pois é. O sono está se tornando uma commodity das mais valiosas. Não é para menos. Hoje apenas 1/3 dos adultos repousam o suficiente, ou seja, de 7 a 8 horas por noite. “Quanto mais uma sociedade se desenvolve, menos ela dorme”, afirma Lia Rita Azeredo Bittencourt, pneumologista e especialista em medicina do sono da Universidade Federal de São Paulo. Nossa época, marcada pela luz elétrica, por estabelecimentos 24 horas e prazos apertados de trabalho que muitas vezes exigem o sacrifício dos períodos de sono, pode muito bem ser considerada como a era do bocejo — sem falar na irritação, no mau humor e nos quilos a mais que noites maldormidas podem provocar. Daí, não é de estranhar o consumo elevado de produtos que dão aquele pique, como as bebidas energéticas à base de cafeína. Só em 2004 esse setor faturou mais de 1 bilhão de dólares e é o que mais cresce no ramo de bebidas. “Cerca de 30% da população sofre de insônia”, revela a neurologista Dalva Poyares, do Instituto do Sono, também da Unifesp. E essa estatística pode ser ainda maior.

Os casos de insônia podem ultrapassar as estimativas conhecidas porque a comunidade médica adotou recentemente uma nova classificação internacional dos transtornos do sono, como forma de uniformizar e facilitar a comunicação entre os especialistas. “Ao contrário da classificação anterior, que levava em conta os sintomas dos distúrbios, como sono demais ou de menos, o novo esquema valoriza também suas causas — um problema respiratório, por exemplo”, explica o neurologista Flavio Aloe, do Hospital das Clínicas de São Paulo. “Assim ficará mais fácil analisar dados epidemiológicos, como a taxa de insônia na população”, completa. Sem falar que será possível identificar as causas mais prevalentes das queixas, tornando o tratamento mais eficiente.

A nova classificação reconhece males considerados até então como meras curiosidades. Encaixam-se aí os transtornos alimentares relacionados ao sono, uma situação em que o indivíduo come durante um estado de sonambulismo. Se o objetivo de melhorar o intercâmbio entre os especialistas for atingido, o combate às noites insones evoluirá consideravelmente no Brasil. “Isso porque a comunidade médica brasileira ainda não sabe como investigar e tratar esse tipo de problema a médio e longo prazo”, opina Flavio Aloe. “Cerca de 75% dos pacientes dizem que não dormem bem. E o médico não treinado deixa essa informação passar batida”, lamenta. No final das contas, o paciente acaba subdiagnosticado e, quando é caso de remédio, sem receber a medicação adequada. Ou seja, torna-se refém daquele cansaço sem fim. E não é só. O pesadelo pode se tornar ainda mais assustador.

INSONE E GORDO!

A ciência já coleciona diversas evidências sobre os benefícios de uma boa noite de sono para a saúde e bem-estar como um todo. Privar-se desse descanso de forma crônica promove uma reação em cascata no organismo, que interpreta esse estado de alerta constante como estresse puro. Dessa maneira, dispara a liberação do cortisol, hormônio característico dos momentos agitados. Ele, por sua vez, inibe a ação de outras substâncias. Uma delas é o GH, sigla em inglês para hormônio do crescimento. O GH é secretado durante o sono profundo. Além de dar cabo de sua função primordial, que é a de promover aquela espichada do corpo na infância e na adolescência, ele se encarrega de inúmeras tarefas fundamentais em gente de qualquer idade — como a de regular a síntese da glicose, o açúcar do sangue. “Ou seja, o GH funciona como um antidiabético”, diz Aloe.

Por essa razão, ficar de olhos bem abertos na calada da noite favorece o diabete. Outra das atribuições do GH é a de manter o vigor dos músculos e da pele — que, todo mundo sabe, acorda sem viço se não passou por boas horas de descanço. As rugas, então… O cortisol despejado sem economia também dá um chega-pra-lá na leptina, hormônio responsável pela saciedade. Faz sentido: o organismo, cansado demais, começa a estimular a comilança para guardar energias. Nesse ritmo, o ponteiro da balança segue uma curva ascendente. O relato dos malefícios, infelizmente, não termina aqui.

Para piorar, a insulina, aquele hormônio que bota o açúcar para dentro das células, se torna menos atuante em quem desenvolve o hábito de dormir mal. Esse grupo também fica mais sujeito a sofrer de problemas como pressão alta e arritmias. Isso porque o sistema cardiovascular, como todo o organismo, repousa durante o sono. As defesas do corpo são restauradas nesse período. Não respeitá-lo, portanto, deixa na nossa artilharia vulnerável. E é nos momentos em que a gente desmaia na cama que ocorre uma espécie de reorganização e fixação da memória. Nessas horas, limpam-se do nosso disco rígido natural as informações que de alguma maneira não são mais úteis. Resumo da ópera: noites em claro são sinônimo de desaprendizado e ai do vestibulando que segue essa cartilha.

Muitos fatores estão por trás da mania de brigar com sono. E agora se sabe que a depressão é um dos mais importantes. Geralmente os dois problemas andam juntos. “Há quem entenda a depressão como uma precursora da insônia. A falta de sono acusaria um agravamento do quadro depressivo”, conta Flavio Aloe. Há também uma teoria que explica esse elo de um jeito diverso. Para uma corrente de especialistas, a insônia desgastaria o aparato psíquico do paciente, predispondo-o a desenvolver aquela tristeza profunda.

SHERLOCKS DO SONO

Não restam dúvidas de que ficar sem dormir noites seguidas é péssimo. No entanto, apelar de cara para medicamentos que induzem o sono sem se consultar com um especialista capaz de investigar o que estaria por trás da chateação é a maior roubada. “Esses remédios, quando usados sem prescrição médica e em excesso, podem causar dependência e até perda de memória”, alerta o neurologista Rubens Reimão, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Quando engolir esses comprimidos se tornar rotina, os danos podem ser ainda piores. “O indivíduo chega a esquecer nomes e até fatos do dia”, completa Reimão. De acordo com o neurologista, o mais importante quando há distúrbios do sono é identificar suas causas para, aí, sim, dar início ao tratamento adequado.

A insônia, um dos problemas mais comuns, é geralmente classificada em dois grupos. No primeiro, mais comum em mulheres, ela pode ser deflagrada por um estresse momentâneo. Sabe aquela tensão que antecede o primeiro dia em um novo emprego ou um evento social importante, como um casamento? Ela literalmente tira o sono de muita gente. Os muito ansiosos, porém, sofrem mais ou com maior antecipação. “Para que não se tornem insones crônicos é importante acompanhá-los de perto”, diz a neurologista Dalva Poyares. “Um indutor de sono pode ser útil nesse período.”

Fonte: Revista Saúde, edição de junho de 2006

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