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Médicos como pacientes 10/07/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico.
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Trechos do artigo de Andrea Caprara e Anamélia Lins e Silva Franco, A Relação paciente-médico: para uma humanização da prática médica. (Cad. Saúde Pública, jul./set. 1999, vol.15, no.3, p.647-654).

Tem sido freqüentemente abordadas as diferenças de referencial do paciente e do médico (Boltanski, 1979; Kleinman, 1980; Helman, 1994). Os casos de médicos que enquanto pacientes tiveram a iniciativa de refletir e relatar a experiência da sua própria doença são bons exemplos e formam bases para uma reflexão. Através da experiência da doença, os médicos reavaliaram o modelo biomédico que adotavam e/ou estavam acostumados? O que dizem essa experiência sobre a vivência de paciente, em relação ao sofrimento, à cura, ao conhecimento de si mesmo?

Um desses relatos é do neurologista Oliver Sacks (1991). Ele conta que, em certa ocasião, quando estava passeando por caminhos montanhosos da Noruega, defrontou-se com um touro. Tomado pelo pânico, começou a correr e caiu, fraturando uma das pernas. Transformar-se de médico em paciente significou: “… a sistemática despersonalização que se vive quando se é paciente. As próprias vestes são substituídas por roupas brancas padronizadas e, como identificação, um simples número. A pessoa fica totalmente dependente das regras da instituição, se perde muitos dos seus direitos, não se é mais livre” (Sacks, 1991:28).

Um outro médico, Geiger, clínico geral, conta como a experiência da doença modificou a sua maneira de ver a biomedicina: “No espaço de uma a duas horas, transformei-me, de um estado saudável, a uma condição de dor, de incapacidade física. Fui internado. Eu era considerado um médico tecnicamente preparado e respeitado pelos colegas, no entanto, como paciente, tornei-me dependente dos outros e ansioso. Ofereciam-me um suporte técnico à medida em que eu me submetia a um considerável nível de dependência” (Geiger, 1975, apud Hahn, 1995:238).

São muito significativos, nesses relatos de experiências de doenças, a atitude e as respostas de outros médicos em relação aos colegas que se encontravam na condição de pacientes. O caso de Rabin, um endocrinologista com diagnóstico de esclerose lateral amiotrófica, é emblemático. No início da doença, procurou escondê-la dos colegas, receoso de que a sua carreira pudesse vir a ser destruída. Com o agravamento da doença, muitos colegas se distanciaram. Para ter um diagnóstico definitivo, Rabin procurou um importante especialista em esclerose lateral amiotrófica. Sobre este contato, ele expressou:

“…fiquei desiludido com a maneira impessoal de se comunicar com os pacientes. Não demonstrou, em momento nenhum, interesse por mim como pessoa que estava sofrendo. Não me fez nenhuma pergunta sobre meu trabalho. Não me aconselhou nada a respeito do que tinha que fazer ou do que considerava importante psicologicamente, para facilitar o enfrentamento das minhas reações, a fim de me adaptar e responder à doença degenerativa. Ele, como médico experiente da área, mostrou-se atencioso, preocupado, somente no momento em que me apresentou a curva da mortalidade da esclerose amiotrófica” (Rabin & Rabin, 1982, apud Hahn, 1995:245).

Alguns meses depois desse contato decepcionante, Rabin, lendo um artigo desse mesmo médico, ficou surpreso diante da importância que o mesmo atribuía ao papel do suporte moral e psicológico no tratamento de pacientes com esclerose lateral amiotrófica.

Os médicos que escreveram sobre a experiência da doença que viveram, embora poucos, revelam como a formação médica é intensamente orientada para aspectos que se referem à anatomia, à fisiologia, à patologia, à clínica, desconsiderando a história da pessoa doente, o apoio moral e psicológico.

Face a essa realidade, o primeiro ponto a ser colocado para reflexão é relativo ao comportamento profissional do médico que deve incorporar cuidados ao sofrimento do paciente, possivelmente divergente do modelo clínico. Isto não significa que os profissionais de saúde tenham que se transformar em psicólogos ou psicanalistas, mas que, além do suporte técnico-diagnóstico, se faz necessário uma sensibilidade para conhecer a realidade do paciente, ouvir suas queixas e encontrar, junto com o paciente, estratégias que facilitem sua adaptação ao estilo de vida exigido pela doença.

Esta demanda exige a implementação de mudanças visando à aquisição de competências na formação dos médicos que, enquanto restrita ao modelo biomédico, encontra-se impossibilitada de considerar a experiência do sofrimento como integrante da sua relação profissional. Deste modo, é importante considerar criticamente o desenvolvimento do modelo biomédico como contexto no qual se configuram formas de relação médico-paciente e, assim, ter uma posição ativa e crítica na busca de uma nova prática.

Fonte: CAPRARA, Andrea e FRANCO, Anamélia Lins e Silva. A Relação paciente-médico: para uma humanização da prática médica. Cad. Saúde Pública, jul./set. 1999, vol.15, no.3, p.647-654.

Assunto relacionado: Pacientes ensinam aos médicos

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