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Efeito Placebo – Não é coisa da sua cabeça! 28/06/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Utilidade pública.
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DOL – Dor On Line

Cindy Seiwert *

Placebos ocupam um lugar obscuro na história: o termo faz as pessoas associarem o nome a feitiços ou mágicas. Recentemente, o efeito placebo começou a ganhar respeito, pelo menos aos olhos de muitos cientistas deste campo. No ano passado, por exemplo, o National Center for Complementary and Alternative Medicine do “National Institutes of Health” realizou uma conferência intitulada de “The Science of the Placebo” onde os participantes discutiram os aspectos biológicos, comportamentais e socio-culturais dos placebos. E este assunto continua a se expandir.

Tradicionalmente, os cientistas definem como placebo uma substância sem atividade farmacológica, que pode ser administrada como controle em tratamentos clínicos com medicamentos, ou  pode ser dado ao paciente para efeitos benéficos. Achados científicos sobre placebos enfatizam os mecanismos responsáveis pelos seus efeitos, e sugerem que esta resposta pode ter função fundamental no processo de cicatrização do organismo. No site “Placebo“, mais precisamente em “Dicionário de Skeptic’s”, o imenso poder do fenômeno “efeito placebo” é enfatizado. Entre os exemplos citados estão a falsa cirurgia para ligação da artéria mamária interna, reduzindo a angina; as verrugas que desaparecem quando circunscritas com tinta fresca; e o tratamento de pacientes portadores de colites, onde mais de 50% destes  reportaram melhoras dos sintomas após serem tratados com placebos. Além disso, como exposto no site Placebo, a proporção de pacientes que utilizaram placebos e respondem positivamente pode ser de 20% a 100% dependendo do tipo  de distúrbio e sintoma presentes. Assim como drogas convencionais, o placebo afeta condições específicas para  as quais são administrados, produzindo sensação de bem-estar. Além disso, os efeitos colaterais dos placebos mimetizam os efeitos de drogas específicas. Consequentemente, placebos não são completamente benignos, e seus efeitos adversos – que podem variar de dor de cabeça, vômito e fadiga, a ataxia e alucinações – parecem depender dos efeitos que o paciente anseia. Placebos também exibem efeitos tempo-dependentes e curvas dose-resposta que mimetizam aquelas das substâncias farmacologicamente ativas. Você pode encontrar mais sobre esses tópicos no site:”The Importance of Placebo Effects in Pain Treatment and Research.”

Tudo isso dá origem a uma questão fundamental: O que causa o efeito placebo? Duas hipóteses envolvem possíveis mecanismos fisiológicos. Primeiro o placebo pode reduzir a ansiedade do indivíduo que aceita e, tranquilamente, recebe o tratamento, reduzindo o estresse e gerando efeitos fisiológicos que contribuem para a recuperação. Segundo, os placebos  podem estimular a liberação de endorfinas, nossos “analgésicos” naturais. Alguns cientistas são a favor dessa explanação baseados no  estudo clássico entitulado “The Mechanism of Placebo Analgesia“, onde o alívio da dor pelo placebo pode ser revertida com naloxone, que bloqueia a ação das endorfinas.

Por outro lado, o efeito placebo pode ser causado por  mecanismos psicológicos ou sociológicos. Por exemplo, a resposta ao placebo pode ser um reflexo condicionado. Suportando essa teoria, muitos placebos tem efeito somente após o paciente ter utilizado uma droga ativa farmacologicamente. Em estudos com placebos analgésicos para controle de dor pós- operatória, pacientes que utilizaram drogas ativas no primeiro dia, mostraram melhoras dos sintomas quando receberam placebo no segundo dia pós-operatório. Pacientes que receberam placebo no primeiro dia, tiveram resposta diminuída para droga ativa no segundo dia. Em outras palavras, como exposto no site “Placebo Effect: The Power of the Sugar Pill“, o paciente pode associar a medicação com melhora, e isto é o que parece ser potencializado pelo efeito placebo.

A expectativa também tem poder significante. Por exemplo, mas de três quartos dos participantes de um estudo vomitaram após terem recebido água com açúcar como sendo um emético. Os pacientes também podem  desejar melhora após o tratamento, o que lhes leva a relatar pequenas melhoras, o que em geral leva à mudanças positivas de comportamento. No livro “How Expectancies Shape Experience” do professor de psicologia  Irving Kirsch da Universidade de Connecticut, existem mais detalhes em relação às respostas ligadas à expectativa. Em resumo, cientistas propõem que cada uma dessas hipóteses tem participação importante no efeito placebo.

Um aparente efeito placebo pode ser decorrente de um “ruído”, em outras palavras, pode emergir de fatores que não estão relacionadas ao próprio placebo. “The Mysterious Placebo Effect” cita melhora expontânea, flutuação dos sintomas (incluindo regressão às médias em doenças altamente variáveis) e outros efeitos aleatórios. O “New England Journal of Medicine” fornece informações mais detalhadas das bases dos mecanismos que  explicam os efeitos placebo, intitulado “From Placebo to Panacea: Putting Psychiatric Drugs to the Test, The Placebo Effect: An Interdisciplinary Exploration”, e “The Powerful Placebo: From Ancient Priest to Modern Physician”.

Embora as pessoas utilizem os placebos para melhorar os sintomas, elas também podem fazê-lo para ficar doentes.  Em alguns casos, os cientistas utilizam o termo “nocebo“, definido como alguma coisa que induz sintomas de doença sem uma causa aparente. Por exemplo, placebos podem  desencadear reações anafiláticas ou ser adictos fisiológicos. Para uma maior revisão deste tópico,  veja “The Nocebo Effect“. Para  ver um exemplo gráfico “Mass Psychogenic Illness Attributed to Toxic Exposure at a High School.”

Em parte, a existência de efeitos colaterais dos placebos despertou um debate sobre a ética na prescrição de placebos. Uma amostra deste debate pode ser encontrada  no texto: “A prescrição de placebos é ética?” , no volume 10, number 4 de Priorities for Health, a revista da American Council on Science and Health.

Existem também preocupações éticas quanto ao uso de placebos em tratamentos clínicos. Em muitos casos, novas terapias estão sendo testadas  para patologias onde a estabilidade do tratamento é necessária. A Declaração de Helsinki (Declaration of Helsinki) sobre princípios éticos para pesquisa médica realizada com humanos, coloca que o uso de placebos é raramente ético. A Food and Drug Administration (FDA) tem uma visão menos definitiva. Por exemplo, The Healing Power of Placebos, publicado pela revista oficial da FDA “FDA Consumer“, recomenda um estudo de cada caso em particular para o uso de placebos em tratamentos clínicos.

Por fim, este breve resumo mostra que a real importância, bem como as respostas obtidas do tratamento com placebos estão ainda mal definidas. Além disso, parece que esses efeitos são mediados por possíveis alterações cerebrais que podem levar à melhoras da condição corpórea. O efeito nocebo parece ser também real. No entanto, não podemos concluir que “o que importa é acreditar”. Alguns, senão a maioria dos medicamentos, provém benefícios  que os placebos não o fazem, e muitas doenças não regridem mesmo com tratamentos médicos mais agressivos.  A compreensão dos mecanismos de resposta dos placebos pode ajudar cientistas  a desvendar a  farmácia intrínseca do corpo humano, mas toda farmácia necessita às vezes reorganizar e reabastecer seus estoques.

Links adicionais:

Advances in Mind-Body Medicine – a journal that explores the health effects of interactions between the body and attitudes, emotions, thoughts, and related phenomena. Provides a searchable abstract database.

Better Living through the Placebo Effect – an entertaining article in the Atlantic Monthly suggesting that Linus Pauling didn’t actually believe that vitamin C was effective in treating the common cold, but felt that his advocacy of this relatively benign substance would alleviate much suffering through a placebo effect.

Mind Matters, Money Matters: The Cost-Effectiveness of Mind/Body Medicine – an article from MS JAMA Online, the Medical Student section of the Journal of the American Medical Association.

Network on Mind-Body Interactions – a site for researchers who study the biological mechanisms underlying social and mental effects on physical health. Supplies news, related links, and research information.

Psychosomatic Medicine – the journal of the American Society for Psychosomatic Medicine, devoted to the relationships between behavioral, psychological, and social factors and bodily processes in humans and animals. Provides an index along with the table of contents and abstracts of the most recent two issues.

Psychosomatics – a journal focusing on a variety of issues in psychiatry and medicine. Supplies a variety of search functions.

Self-Healing, Patents, and Placebos – a history of placebos in America. Includes a variety of images and background.

The Placebo Effect – program from The Connection, a public radio program. Includes a recording and related links.

* Fonte: Trends in Pharmacological Sciences 2000 jul 22(7):342

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