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Aprendendo Com a Doença 21/04/2006

Posted by Esclerose Múltipla in Qualidade de vida.
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Entrevista publicada no Planeta na Web

Há 23 anos, Valéria Belik convive com a esclerose múltipla. Nesta entrevista, ela fala do programa alternativo de tratamento que a mantém em equilíbrio e mostra como é possível vencer qualquer doença.


Você teve o primeiro surto de esclerose múltipla em 1977. Explique-nos, em linhas gerais, o que vem a ser essa doença.
A esclerose múltipla é uma doença desmielinizante. A mielina possibilita que as sensações do cérebro cheguem até o seu corpo, permitindo que ele funcione. Para explicar isso, o neurologista dá o seguinte exemplo: imagine um fio que você liga na tomada; por ele passa a energia para que funcione, por exemplo, a televisão. Quando ocorre a desmielinização, é como se descascasse um pedaço do fio. Então, no momento em que você liga a televisão, conforme o jeito que mexer no fio, a TV vai funcionar ou não. No corpo humano também acontece dessa forma: quando se dá essa descascadinha (a desmielinização), a mensagem do seu cérebro não passa.Essa doença não tem um jeito específico de demonstrar o que está acontecendo. Surge, por exemplo, um problema na perna, aí ela vai afetar a fala, a visão, a motricidade de modo geral; às vezes um pedaço qualquer da pessoa fica comprometido.Ao que parece, existem vários graus de esclerose múltipla…Pelo que eu vi nesse tempo todo, existem basicamente três formas: ela avança, dá um surto e pára – não vai acontecendo muita coisa; ou acontece de forma bem sistemática, de dois em dois anos por exemplo; havendo uma remissão dos sintomas. O surto também pode vir seguidamente e a pessoa não tem muito como sair da doença.
De que tipo é a sua?
No meu caso, acho que é surto e remissão. Por exemplo, numa determinada época eu perdi 100% da minha visão esquerda, mas ela foi voltando aos poucos, embora não totalmente.

A sua doença só foi diagnosticada em 1981, por um neurologista que, praticamente, a condenou à paralisia gradativa. O que a levou a ir contra todos os prognósticos médicos?
Havia uma certeza, dentro de mim, de que eu poderia fazer outras escolhas que não essa. Eu achei muito fechado o diagnóstico do médico, e sentia que devia procurar outras coisas. Se a gente olhar em volta, há muitos recursos para se lançar mão…

A partir da sua própria experiência, você criou um programa alternativo de tratamento que, de certa maneira, tem conseguido mantê-la em equilíbrio por longos períodos. Quais os principais pontos desse programa?

Atualmente, acho que o principal é a alimentação, que foi o que me ajudou, há muitos anos, a voltar ao equilíbrio. Na época, eu não sabia por onde começar e – não sei por que – a primeira coisa que fiz foi tirar a carne do meu cardápio.

Toda carne, inclusive a branca?

Tirei tudo e comecei a buscar outras alimentações, outras maneiras de trazer proteínas para o meu corpo. Com isso, acabei descobrindo que a proteína está também embutida em outras coisas, não só na carne, e de uma forma mais saudável para o organismo. Também fiquei atenta a enlatados; fui eliminando essas ofertas tentadoras da minha mesa.

Eu como também soja, castanhas, tofu, arroz integral, todos os legumes e verduras, glúten, e consumo leite. Ovo eu uso mais para fazer um bolo, etc. Óleo eu só utilizo o de girassol ou de canola, que são mais leves.

Na verdade, a digestão do portador de esclerose fica alterada, assim como o intestino e a bexiga (a pessoa urina muito). Então, o fato de se consumir esses alimentos, e mesmo o óleo, possibilita o melhor funcionamento desses órgãos internos e, conseqüentemente, uma diminuição dos surtos. Inclusive, fizeram um estudo sobre isso fora do Brasil, porque, no Exterior, o índice de esclerose é muito, muito maior.

Na Europa e nos Estados Unidos…
Principalmente na Europa.

Existe algum motivo para isso?

Existe. Sabe-se que a alimentação é um dos fatores que têm realmente de ser modificados. Nesses lugares, a industrialização chegou primeiro, antes do que no Brasil, havendo uma mudança radical nos hábitos alimentares. Por isso lá a tendência para a esclerose múltipla é maior. E parece que o clima também coopera: os índices mais altos da doença ocorrem em lugares mais frios.

Há algum estudo que indique que essa é uma doença proveniente do estresse?
Também… Na verdade, ocorre aí uma soma de fatores. Então, a alimentação não é boa; a pessoa tem uma tendência a ser mais estressada, mais irritada; há a possibilidade do fator genético – várias coisas estão sendo formuladas em relação a essa questão. Alguém me disse – não lembro quem – que todos nós temos tudo dentro de nós: a esclerose múltipla, o câncer, a gripe, etc. Então, temos a possibilidade de estar desenvolvendo cada doença. Mas há indicações de que os portadores de esclerose múltipla são mais irritados. Meu marido e eu fizemos um estudo e descobrimos que, dentro dos parâmetros da medicina chinesa, o elemento madeira é o mais comprometido nesse sentido. Esse elemento comanda o fígado, a vesícula e, portanto, os músculos e tendões. Nós notamos que pessoas com predominância de madeira realmente têm muita dificuldade de se ver numa situação em que não possam estar tomando conta de tudo. Eu acho que seria importante para os portadores estarem percebendo isso, até para melhorar o próprio processo com relação à doença e estar aprendendo com ela, porque eu acredito que nenhuma doença vem por acaso.

Além da alimentação que outras práticas você adota para se manter em equilíbrio?
Massagem, acupuntura, ginástica…

Que tipo de ginástica?
A ginástica não deve ser uma aeróbica, por exemplo. Eu recomendo a ginástica onde a pessoa esteja entrando em contato com ela mesma, na medida em que vai estar respirando e prestando atenção nisso.

Alongamento, por exemplo?
Ginástica holística… Há os movimentos que eu elaborei, os quais mostro no meu livro, que são muito simples e específicos para estar fortalecendo quem tem esclerose e outros problemas neurológicos. É um trabalho aparentemente parado, mas ele traz um fortalecimento muito grande, porque a pessoa tem de prestar atenção nela mesma: “O que estou fazendo para me fortalecer? Estou fortalecendo a minha parte anterior para que possa ficar bem com a minha coluna. Que órgãos estão ali?” – tudo isso é importante. Por isso eu digo que não é só um alongamento; são exercícios que trabalham dentro e fora.

De que maneira você trabalha a visualização?
Suponha que a pessoa já está com a perna esquerda comprometida, mas a direita funciona. Então, primeiro, eu sugiro que se trabalhe com a perna direita, mas sempre pedindo para a perna esquerda prestar atenção na direita. Depois, a atenção deve ser voltada para a perna esquerda; a pessoa fecha os olhos e imagina que essa perna está levantando ou dobrando, dependendo do caso. Porque, quando se faz um movimento imaginário, mas querendo que essa perna se movimente, começa a haver uma resposta muscular, bem neurológica. Depois a pessoa tenta levantar mesmo; com o tempo, ela começa a fazer o movimento. Pode ser que ela não levante a perna completamente, mas vai mexê-la um pouco. Com isso, vai trabalhar, principalmente, a questão do atrofiamento.

O primeiro neurologista que consultou, em 1981, pediu pra você não fazer nenhum movimento. Hoje em dia, os médicos têm esse mesmo tipo de conduta?
Não, eles pedem que se faça fisioterapia, mas não indicam um trabalho constante. E, às vezes, a pessoa não tem recurso financeiro para isso, porque os medicamentos para o tratamento da esclerose são supercaros. Agora já é possível consegui-los na Santa Casa, mas aí os médicos recomendam fisioterapia. E o paciente também fica muito preso nisso; ele fica achando que precisa de um profissional para estar lhe dando esse desenvolvimento.

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