Só a morte salva janeiro 11, 2008
Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico.trackback
Pesquisadores criam células-tronco embrionárias, capazes de salvar vidas, sem “matar” embriões. Mas a ciência ainda precisa deles. E a polêmica continua.

Texto Salvador Nogueira
Um embrião, lembre-se, é um óvulo humano fecundado. E para os religiosos é justamente aí, no instante da fecundação, que a vida começa. Não importa que o ser nem tenha órgãos nesse primeiro momento. Todo mundo começou a vida como embrião. Desse ponto de vista, eles seriam gente como a gente. Coisa sagrada.
E isso afetou as pesquisas. Principalmente no país que mais investe em ciência no planeta. Com medo da repercussão que uma matança generalizada de embriões teria entre os mais religiosos (que formam sua base eleitoral), George W. Bush cortou as verbas federais americanas para pesquisas com células-tronco embrionárias em 2001.
Mesmo sem o dinheiro do governo, institutos particulares continuaram suas pesquisas. Mas o baque foi forte. Afinal, trata-se de um campo extremamente sofisticado, que suga bilhões de dólares em investimentos que podem dar em nada.
Para você ver como não é fácil: os hipotéticos tratamentos à base de células-tronco embrionárias exigiriam primeiro clonar o paciente (juntando uma célula adulta dele a um óvulo oco, que teve o DNA extirpado) e depois quebrar o embrião resultante para aí, quem sabe, conseguir transformar esse amontoado de células em algo mais útil.
E foi exatamente isso que os grupos liderados por James Thomson, na Universidade de Wisconsin (EUA), e Shinya Yamanaka, na Universidade de Kyoto (Japão), não fizeram. Em vez de reencenar todo o drama da criação, eles decidiram que valeria a pena apostar num método que levasse células adultas a se comportar como embrionárias reprogramação celular, para os que gostam de cientifiquês.
Eles pegaram células de pele e introduziram nelas 4 programas (genes) que costumam estar bastante ativos na fase embrionária. Funcionou como apertar um botão reset. A célula velha recuperou sua versatilidade original, a capacidade de se transformar em qualquer coisa. Quer dizer: eles tinham feito algo equivalente às células-tronco embrionárias sem tocar em embriões. Uau.
Os conservadores que apóiam o veto do presidente americano comemoraram. Então o dilema acabou? Não. Ainda precisamos de embriões.
É que os pesquisadores foram capazes de reprogramar a célula, mas o disco rígido onde esse programa está escrito ainda é o mesmo. É como se elas já nascessem meio velhas. Ainda é impossível, portanto, dizer que as células-tronco obtidas com a reprogramação são mesmo tão boas quanto as que realmente vieram de embriões.
O único jeito de sabermos isso, porém, é se as duas linhas de pesquisa continuarem em paralelo, com cientistas trabalhando tanto com embriões como com células adultas. Só assim vamos entender exatamente o que estamos fazendo. Transformar chumbo em ouro foi só o começo.
Fonte: Revista SuperInteressante, janeiro de 2008





