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O cérebro devassado 29/10/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Espaço médico, Utilidade pública.
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Já é possível ver o cérebro em plena
atividade. As descobertas são fascinantes
e estão levando a uma melhor compreensão
do funcionamento da mente humana

O cérebro é considerado a caixa-preta do corpo humano. De tão insondável, foi objeto de todo tipo de especulação. De filósofos a médicos, muito se arriscava em teorias, mas pouco se sabia na prática sobre o que acontecia nesse órgão que faz a grande diferença da espécie humana. Nos últimos cinco anos, contudo, com a invenção e o aprimoramento da ressonância magnética funcional, do PET/CT, que associa a tomografia por emissão de pósitrons à tomografia computadorizada de última geração, e da espectroscopia, novas imagens vieram à luz e estão revolucionando o conhecimento do cérebro.

As descobertas são fantásticas. “É como se tivéssemos substituído a rudimentar luneta de Galileu pelo telescópio Hubble”, compara o neurorradiologista Edson Amaro Júnior, do Hospital Albert Einstein e do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Como esses exames podem flagrar o cérebro em plena atividade, os pesquisadores estão conseguindo mapear praticamente tudo o que acontece dentro dele – como se processam as emoções, a cognição, o pensamento e o raciocínio e até mesmo como se originam algumas doenças. Essa visão preciosa está prestes a mudar a forma como hoje se detecta e trata uma série de distúrbios, como Alzheimer, autismo, transtorno do déficit de atenção e perda de memória. Ela também ajuda a identificar os aspectos que contribuem para o aparecimento de problemas como depressão, esquizofrenia, alcoolismo e uso de drogas. O trabalho dos neurocientistas, amparado por esse impressionante aparato tecnológico, vai além de desvendar o funcionamento do cérebro. Está-se descobrindo de que maneira ele responde a estímulos externos – tanto que já se criou uma nova modalidade nos Estados Unidos, o neuromarketing. Em suas pesquisas, os neuromarqueteiros utilizam os aparelhos que fornecem imagens do cérebro, para saber que áreas são ativadas quando a pessoa é exposta a marcas, produtos ou imagens e falas de políticos. Dessa forma, ao detectarem as emoções suscitadas, podem direcionar melhor campanhas publicitárias. Não se exclui, ainda, que esse tipo de iniciativa também seja empreendido em tratamentos psicológicos.

Em 1,5 quilo de massa encefálica (valor equivalente ao peso do cérebro de um adulto), 100 bilhões de células nervosas estão em atividade. Cada uma se liga a milhares de outras em mais de 100 trilhões de circuitos. A trama é complexa, precisa e delicada. Graças a ela, o homem pensa, raciocina, lembra. Enxerga, ouve, aprende. Não faz tanto tempo assim, acreditava-se que o ser humano utilizasse apenas 10% de sua capacidade cerebral. Hoje já se sabe que esse é mais um daqueles mitos que se produzem no vaivém da ciência. Os médicos já não têm a menor dúvida de que toda a máquina cerebral é solicitada nas mais diferentes funções. “Qualquer atividade ou pensamento com um mínimo de complexidade, como jogar conversa fora ou ler uma história em quadrinhos, vale-se de inúmeras conexões neuronais em áreas diferentes do cérebro ao mesmo tempo”, afirma o neurologista Steven Yantis, da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, nos Estados Unidos, um dos centros mais avançados do mundo em pesquisas cerebrais.

Durante séculos, o conhecimento da estrutura cerebral humana permaneceu rudimentar. O filósofo grego Aristóteles, um dos primeiros a se debruçar sobre o assunto, acreditava que a memória fosse fisicamente armazenada no cérebro. As recordações ficariam uma a uma impressas no tecido cerebral. No século XVIII, o cientista alemão Franz Joseph Gall divulgou a teoria de que as protuberâncias cranianas poderiam determinar a personalidade das pessoas. Uma de suas concepções era a de que crianças com boa memória também tinham “olhos proeminentes” – uma pista clara de que, segundo ele, a memória estava armazenada no cérebro. Quanto maior a memória, mais “inchado” o cérebro. Conhecida como frenologia, essa teoria foi derrubada em 1861, quando o neuroanatomista francês Paul Broca dissecou o cérebro de um paciente com distúrbios na fala que tinha acabado de morrer. O que ele viu não correspondia ao que dizia a frenologia.

O fato é que, até meados do século XX, os pesquisadores não faziam uma idéia suficientemente clara do que enxergavam dentro do crânio humano. Somente no início dos anos 70 é que foram obtidas as primeiras imagens anatômicas do cérebro. Isso foi possível com a ajuda de computadores que passaram a processar as imagens dos raios X – técnica batizada de tomografia computadorizada. Os médicos começaram a lançar mão com freqüência cada vez maior desse tipo de exame, hoje mais avançado, que mostra a estrutura do cérebro em finas fatias. A partir dele, surgiu uma variedade considerável de técnicas que estão ajudando os pesquisadores a entender melhor a relação entre a estrutura cerebral, as funções neuronais e o comportamento humano. Para saber qual área do cérebro está sendo ativada quando alguém, por exemplo, fala ou ouve música, pode-se recorrer ao PET, sigla em inglês para tomografia por emissão de pósitrons, que mapeia o cérebro com a ajuda de material radioativo.

Há menos de duas décadas, um paciente com suspeita de tumor cerebral tinha necessariamente de se submeter a uma cirurgia. Atualmente, graças à ressonância magnética, para mapear o cérebro basta ao paciente entrar num tubo. Ondas eletromagnéticas permitem a visualização de fatias do cérebro, com uma perfeição incrível, possibilitando ao especialista captar anomalias sutis. Doenças que antes só eram estudadas em cérebros de cadáveres agora podem ser acompanhadas em toda a sua evolução, o que deverá ajudar na descoberta da cura de Alzheimer, Parkinson e epilepsia. Por meio da ressonância magnética funcional, uma evolução da ressonância magnética, sinais de radiofreqüência fornecem uma visão das alterações no fluxo sanguíneo e na oxigenação em determinadas áreas cerebrais. O equipamento tem a vantagem de não utilizar material radioativo e de fornecer imagens em diferentes dimensões. É seguro e não invasivo. Com a ajuda desse tipo de ressonância, hoje já se sabe, entre outras coisas, como funciona o processo pelo qual o cérebro arquiva a memória de episódios ruins. Para impedir que esses registros permaneçam na superfície da memória, há uma diminuição na atividade do hipocampo, uma das regiões envolvidas no processo de lembrança. Esse tipo de conhecimento pode abrir caminho para novos tratamentos de fobias e de stress pós-traumático. Uma maior investigação sobre o hipocampo também permitirá que sejam criados procedimentos para deter a perda de memória verificada entre muitas pessoas que ultrapassam os 40 anos.

Por meio da espectroscopia por ressonância magnética, o tratamento precoce da esclerose múltipla, uma doença crônica e progressiva, está para se tornar uma possibilidade real. Isso porque, com o exame, é possível medir os níveis de uma substância no cérebro relacionada à doença. “Acredito que, em relativamente pouco tempo, será estabelecida uma nova forma de encarar a doença”, diz o médico David Yousem, professor de radiologia da Universidade Johns Hopkins. A ciência também anda utilizando a espectroscopia para tentar explicar eventos tidos como paranormais. A experiência transcendental é um deles. Pelo que mostram as imagens, com esse tipo de meditação, o córtex pré-frontal, no qual reside a atenção, sofre uma baixa de atividade, fazendo com que a pessoa perca a noção de tempo e de espaço. É esse fenômeno absolutamente físico que causa a sensação de que se atingiu uma outra dimensão.

As imagens do cérebro em ação já têm uma aplicação prática incontestável. Elas são a garantia de uma cirurgia mais precisa e menos arriscada. Como nenhum cérebro é igual a outro, os neurocirurgiões estão se valendo do que vêem para saber exatamente onde estão os centros de fala, visão ou movimento de cada paciente, para evitar lesioná-los durante a operação. Além disso, ao conhecer exatamente qual o dano que um distúrbio é capaz de causar em determinada área cerebral, abre-se caminho para o desenvolvimento de drogas mais específicas. Através das imagens também é possível monitorar os tratamentos e suas evoluções. Cientistas americanos conseguiram provar, por meio da ressonância magnética, que os antidepressivos têm, de fato, uma ação direta sobre os neurotransmissores. Pesquisadores da Universidade de Wisconsin-Madison usaram o mesmo tipo de exame para verificar as mudanças que ocorriam em pacientes medicados com o antidepressivo Efexor. Notaram que o remédio causa alterações no cíngulo anterior, região cerebral ativada por estímulos de atenção e em momentos de conflito. Uma das surpresas foi observar que essas mudanças ocorriam em apenas duas semanas de tratamento. Não se imaginava que os efeitos de um antidepressivo pudessem ser tão rápidos. O achado foi publicado na revista American Journal of Psychiatry. Em breve, acredita-se, será possível partir para tratamentos da depressão mais personalizados. Pacientes com resistência a antidepressivos serão submetidos a exames de imagem, para que o médico verifique quais são os neurotransmissores mais implicados em cada caso. Com isso, ele prescreverá medicamentos antidepressivos manipulados com a dose certa de certas substâncias.

Fora do âmbito médico, a curiosa associação entre marketing e neurociência – o neuromarketing – leva a que se “leia” o pensamento dos consumidores. Ao se monitorar a atividade cerebral do pesquisado, dá para saber se ele aprova ou rejeita determinado produto ou marca e, mais importante, por quê. As experiências ocorrem da seguinte forma: enquanto o voluntário permanece em uma máquina de ressonância magnética funcional, os pesquisadores lhe apresentam fotos ou videoclipes. Dependendo da área cerebral mais ativada pelo fluxo sanguíneo, conclui-se que tipo de reação o estímulo causa. Os neurocientistas já constataram, por exemplo, que a migração de sangue para uma área do cérebro conhecida como córtex pré-frontal medial, no momento em que o voluntário está olhando para um determinado logotipo, significa que ele se identifica com a marca. Esse é um campo com um potencial imenso para empresas de marketing e institutos de pesquisa, que costumam trabalhar apenas com informações que recebem por meio de questionários. Como nada garante que o entrevistado esteja falando a verdade, há sempre um fio de suspeita nessas sondagens – suspeita que seria inteiramente cancelada com exames de imagens cerebrais.

O neuromarketing começou a dar seus primeiros passos no fim dos anos 90. O médico Gerry Zaltman, da Universidade Harvard, foi o primeiro a colocar um voluntário deitado em um equipamento de ressonância magnética com esse objetivo. Em 2001, a empresa de marketing americana BrightHouse, de Atlanta, passou a explorar esse filão comercialmente. Entre seus clientes estão a Coca-Cola e a companhia aérea Delta Airlines. Dois fabricantes de carros, a alemã DaimlerChrysler e a Ford européia, admitiram que utilizaram os estudos de neuromarketing no ano passado. Recentemente, a empresa de marketing Lieberman Research Worldwide, sediada em Los Angeles, começou a prestar serviços de neuromarketing a grandes estúdios de cinema. Ela testa a receptividade do espectador a trailers de filmes.

Na política, o terreno para o neuromarketing parece ser vasto. Pesquisadores da Universidade da Califórnia testaram as respostas cerebrais de dez voluntários americanos, metade eleitora do Partido Republicano, metade do Democrata, a três vídeos de propaganda política. Em um deles, o presidente republicano George W. Bush faz menção aos atentados do 11 de Setembro. Em outro vídeo, aparece seu concorrente, o democrata John Kerry, que não aborda o tema do terrorismo. Numa terceira fita, é mostrado um comercial famoso nos anos 60, utilizado pelo candidato democrata Lyndon Johnson contra o republicano Barry Goldwater. Uma garota segura uma margarida e imagens de uma explosão nuclear são sobrepostas a ela – uma alusão à possibilidade de ser deflagrada uma guerra atômica caso o belicista Goldwater fosse eleito. Os pesquisadores notaram que os voluntários democratas reagiram às imagens violentas com uma atividade maior da amídala em relação aos republicanos. Isso sugere que eles se sensibilizam mais com as cenas de terror. Outra vertente desse estudo foi analisar o que acontecia no cérebro dessas pessoas quando expostas às imagens de Bush e Kerry fora do contexto de um comercial de TV. Confrontadas com fotos de seus próprios candidatos, elas tiveram ativada uma parte do córtex pré-frontal associada a reações instintivas. Mas, quando a imagem era do candidato do outro partido, ativaram-se áreas mais voltadas para a racionalidade.

No estudo de neuromarketing conduzido por encomenda da DaimlerChrysler, foram mostradas imagens de 66 carros – 22 esportivos, 22 sedãs e 22 veículos pequenos – a um grupo de doze homens na faixa dos 30 anos. A conclusão: os esportivos excitam áreas do cérebro associadas a poder. A visão do cérebro em funcionamento também revelou reações de consumidores aos refrigerantes Pepsi e Coca-Cola. As imagens mostraram uma maior preferência cerebral pelo sabor da Pepsi. Mas por que, então, a Coca-Cola vende mais? Porque a marca estimula mais as áreas do cérebro ligadas aos atos de vontade. Ou seja, seu logotipo é mais poderoso que o da Pepsi.

As novas tecnologias permitiram descobrir que o cérebro evolui até a maturidade. Com a ressonância magnética funcional, os neurocientistas verificaram que 95% do volume do cérebro é alcançado até os 5 anos. Os outros 5% são formados até os 35 anos. “Curiosamente, os advogados já pareciam saber disso. Tanto que recomendam que ninguém faça o próprio testamento antes dessa idade”, brinca o médico Gary Goldstein, presidente do Instituto Kennedy Krieger, de pesquisas neurológicas do Hospital Johns Hopkins. Outra descoberta é que há mesmo diferenças entre o cérebro masculino e o feminino. Um dado que chama a atenção dos pesquisadores diz respeito à linguagem. As mulheres utilizam os dois hemisférios cerebrais para essa atividade, enquanto os homens o esquerdo. Isso dá a elas a vantagem de, em caso de um derrame no lado esquerdo, ainda manterem alguma capacidade de linguagem do lado direito. Além disso, as mulheres são, em geral, mais emotivas e melhores para expressar sentimentos que os homens porque seu sistema límbico é mais desenvolvido.

Há mais de um século e meio, a poeta americana Emily Dickinson escreveu num célebre poema que o cérebro é mais vasto do que o céu. “The Brain / is wider than the Sky / For put them side by side / The one the other will contain / With ease and – You – beside” (“O Cérebro é mais vasto que o Céu. Postos lado a lado, um facilmente conterá o outro. E o Ser também”). É esse universo que começa a ser desvendado.

As conquistas proporcionadas
pelos novos exames

Pedro Rubens
O diagnóstico da hiperatividade infantil pode ficar mais claro com os novos exames


NEUROMARKETING

Pesquisadores já estão utilizando imagens do cérebro de consumidores para saber quais os produtos que agradam e quais os mais evitados por uma determinada amostragem antes de lançá-los no mercado

DIAGNÓSTICO DE DOENÇAS
Distúrbios como autismo, mal de Alzheimer, hiperatividade e depressão já podem ser confirmados através do mapeamento das funções cerebrais. Esses males têm em comum o difícil diagnóstico clínico

PRECISÃO NA CIRURGIA
Como nenhum cérebro é igual a outro, os neurocirurgiões estão se valendo das imagens para saber exatamente onde estão os centros de fala, visão ou movimento de cada paciente, antes do procedimento, para evitar lesioná-los durante a operação

Na onda das ondas cerebrais

Saber instantaneamente o que uma pessoa deseja no mais recôndito do seu ser. Assustador? Talvez. Divertido? Sem dúvida. Para descobrir o que dezenas de jovens sentiam ao ouvir certas músicas e ser submetidos a diferentes intensidades de luz, uma casa noturna de Toronto, no Canadá, conectou-os por meio de eletrodos a um computador. A máquina analisava as ondas cerebrais emitidas pelos jovens, indicando se os estímulos sonoros e visuais correspondiam a sensações de prazer ou de desprazer. Se a maioria das ondas denotava prazer, a música continuava e a luz era mantida. Se não, trocava-se o som e alterava-se a iluminação. Qual a conclusão geral dessa experiência? Nenhuma. Divertido? Sem dúvida.

O cérebro deles e o delasAs imagens confirmam que o cérebro de homens e o de mulheres têm diferenças. As principais são: 1. O cérebro feminino é cerca de 10% menor que o masculino. Mas tem maior número de conexões entre as células nervosas

2. Uma das diferenças estruturais claras é o hipotálamo, maior em cérebros masculinos do que em femininos. É nessa região que se processam o sono e os ciclos menstruais das mulheres

3. As mulheres sintetizam menos serotonina que os homens. A baixa nessa substância química cerebral, ligada à sensação de bem-estar, é associada a uma série de doenças, entre elas a depressão

4. O cérebro feminino é predominantemente programado para a empatia, enquanto o masculino é voltado para sistemas de construção e compreensão

5. A ressonância magnética funcional mostrou que meninos submetidos a fotografias de rostos com expressões de medo apresentam uma ativação menor da amídala que as meninas

6. Homens se saem melhor em tarefas que envolvem cálculos, enquanto as mulheres são melhores em habilidades verbais. As imagens mostram que o lobo parietal inferior, envolvido em tarefas matemáticas, é maior no cérebro deles

Fonte: Revista Veja . Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

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