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Ortomolecular na prática 30/04/2007

Posted by Esclerose Múltipla in Qualidade de vida.
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A medicina que propõe corrigir o desequilíbrio químico do corpo, por meio da reposição de nutrientes, ajuda a amenizar os sintomas de várias doenças. Mas ela não faz milagres nem possui fórmulas mágicas. Saiba de vez como funciona essa terapia na prática

Conhecida e muito divulgada por celebridades, como Deborah Secco e Priscila Fantin, a medicina ortomolecular parece que se popularizou e caiu de vez no gosto do brasileiro. Mas você sabe exatamente como funciona esse método para a prevenção e o tratamento de doenças? Se você se embaraçou para tentar responder essa pergunta, não se preocupe. A maior parte da população passa por apertos como esse. E isso acontece simplesmente porque, apesar de ter virado moda (você deve conhecer pelo menos um amigo ou o amigo do amigo que garante ter melhorado o aspecto da pele, o pique e o estado geral de saúde), os procedimentos que envolvem o método ainda são pouco conhecidos.

“Apesar das inúmeras pesquisas na área, ainda há muito para ser descoberto e muito para ser colocado em prática”, explica o nefrologista, infectologista e clínico-geral Paulo Olzon, chefe da disciplina de Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e estudioso do assunto há 20 anos. Pior ainda é que essa falta de informações pode levar muitas pessoas a recorrerem a tratamentos que se dizem ortomolecular e nem sempre, na verdade, são.

Foi isso o que aconteceu com a jornalista Karen Silveira, 28 anos, de São Paulo. Cansada dos quilinhos extras, há dois anos ela procurou uma médica ortomolecular para emagrecer. “Eu entrei no consultório e ela me explicou rapidamente o que iríamos fazer. Pediu um exame de sangue e só”, conta. Karen precisou seguir uma dieta restritiva, tomar um medicamento manipulado — sem saber o que tinha dentro — e um pó que a médica explicou tratar-se de um suplemento vitamínico. “Eu emagreci oito quilos em um mês. Mas não achei que aquele era um tratamento legal. Fiquei com a impressão de que só fazendo a dieta já emagreceria.

Não precisava de cápsulas ou pó”, desabafa. Irritada com a falta de carboidratos na sua alimentação, Karen abandonou o tratamento no segundo mês e, aos poucos, foi ganhando os quilos novamente. “Fiquei com uma má impressão da terapia ortomolecular, acho que a médica nem era especializada na área”, afirma.

Essa impressão de que nem todos os médicos são realmente especialistas em medicina ortomolecular é comum e acontece por vários motivos. A principal razão é a falta de regulamentação do setor. O tratamento ainda não é reconhecido como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). “Assim, falta uma legislação específica e um controle maior sobre esses profissionais”, acredita o clínico-geral Aldo João Deucher, membro da Sociedade Brasileira de Medicina Ortomolecular (Sobramo), de São Paulo. A falta de obrigatoriedade de formação específica também prejudica a classe médica. Por isso, o médico Paulo Olzon pretende fundar em breve a Associação Brasileira de Doenças Oxidativas. A idéia é lutar pela regulamentação da terapia e capacitar profissionais para trabalhar na área.

Radicais livres e nutrientes Especialistas garantem que, quando bem aplicada, a medicina ortomolecular (ou biomolecular, como também é conhecida) pode ser uma aliada da saúde. É que essa técnica prega a diminuição dos radicais livres — substâncias tóxicas (oxidantes) que o corpo produz naturalmente ao longo da vida, mas que, em excesso, promovem o desequilíbrio químico e estão por trás do envelhecimento celular e de inúmeras doenças.

De acordo com os especialistas, faz parte da vida oxidar e antioxidar. O tempo todo o nosso corpo está produzindo radicais livres. Uma parte é usada pelo próprio corpo para se proteger de invasores que causam as infecções. Outra parte — estimase que 90% dos radicais livres — fica vagando pelo organismo, provocando a oxidação dos tecidos e modificando o núcleo das células. É como se o tecido celular enferrujasse. Segundo a americana Jean Carper, especialista em nutrição e autora de livros como Alimentos – O Melhor Remédio para a Boa Saúde (Editora Campus, 632 páginas, R$ 117) até os 50 anos, 30% da nossa proteína celular terá sido convertida em lixo oxidativo. Entre os causadores do excesso dessas moléculas estão o tabagismo, a poluição, o estresse, a alimentação inadequada, o esforço físico exagerado e até a exposição a produtos químicos. Quanto mais uma pessoa fica exposta a esses agentes, maior é a quantidade de radicais livres que ela acumula no corpo — e maiores os riscos de ficar doente.

Por outro lado, hábitos saudáveis, abandono dos vícios e uma alimentação equilibrada e rica em nutrientes essenciais funcionam como agentes antioxidantes, diminuindo a quantidade de radicais livres.

No Brasil há 25 anos, o conceito de medicina ortomolecular nasceu muito antes. Em 1968, o químico norte- americano, ganhador do Prêmio Nobel por duas vezes, Linus Pauling criou a técnica, baseada na Terapia Radicais Livres e Envelhecimento, proposta por Denham Harman, famoso pesquisador norte-americano, em 1956. De lá para cá muitos estudos mostram os benefícios do tratamento ortomolecular. Existe até uma entidade, a International Society for Free Radical Research, que promove uma série de simpósios em todo o mundo a respeito do tema, com milhares de cientistas associados. Por aqui, a Sobramo é que tem a tarefa de reunir esses profissionais. São 500 cadastrados, mas certamente o número de médicos que aplicam a técnica deve ser, pelo menos, quatro vezes maior.

COMO A TERAPIA PODE AGIR EM DETERMINADAS DOENÇAS E AJUDAR A REDUZIR SEUS SINTOMAS

DOENÇAS RESPIRATÓRIAS (BRONQUITE, RINITE, ASMA, PNEUMONIA)
Nessas situações crônicas, o corpo é bombardeado pelos radicais livres, pois o próprio organismo começa a produzi-los em excesso para combater a infecção respiratória. Mas só uma pequena parte desses radicais é usada no combate à doença. “O antioxidante é usado, nesse caso, para neutralizar a ação dos radicais livres excedentes”, explica Paulo Olzon. Além disso, há pesquisas que mostraram que, a longo prazo, a terapia ajudaria a aumentar a imunidade do corpo, amenizando futuras crises respiratórias.

DIABETES
“Assim que descobri que era diabética, iniciei um tratamento com um endocrinologista e um médico ortomolecular”, revela a empresária Marina Costa, de São Paulo. “Tomo algumas cápsulas por dia de algo que eu nem sei bem o que é, mas me sinto bem. Acho que minha qualidade de vida é muito melhor do que a de muitos diabéticos que vejo por aí”, acredita.

Claro que não é por isso que a paulista dispensa o uso diário de insulina e de medicamentos. “Continuo me tratando com o endocrinologista normalmente”, garante. Segundo o clínico carioca Paulo Roberto de Carvalho, o tratamento ortomolecular protege e impede a glicação das proteínas. Essa reação reduz a função de enzimas e pode ser a responsável por complicações do diabetes, como a cegueira e a falta de circulação nas extremidades (como nos dedos e nos pés). O uso de antioxidantes ajudaria a combater os radicais livres, que são muito comuns no organismo do diabético, devido à oscilação dos níveis de glicose.

Equilíbrio, em ação
A terapia propõe o combate aos radicais por meio de dois caminhos: uma espécie de limpeza do organismo para eliminar os metais tóxicos (como chumbo e alumínio), quando necessário, e o uso do seu carrochefe: a reposição de antioxidantes, como vitaminas, sais minerais e aminoácidos. “Esses nutrientes podem ser repostos só com a alimentação, mas dependendo das necessidades de cada pessoa, é preciso que ela ingira uma quantidade maior de antioxidantes para proteger seu organismo”, defende o clínico-geral carioca Paulo Roberto de Carvalho, autor do livro Medicina Ortomolecular (Editora Nova Era, 448 páginas, R$ 42).

É nesta hora que começam as polêmicas. Há pelo menos duas vertentes de aplicação da medicina ortomolecular no país. Uma defende o uso preventivo da terapia, o quanto antes e, de preferência, quando a pessoa está saudável ou passando por situações que poderiam favorecer a formação dos radicais (um estresse emocional, um trabalho com exposição a agentes poluentes ou químicos, a fase de preparativos para uma maratona…).

Outra acredita que a reposição de antioxidantes só deveria ser feita para tratar algum problema de saúde. “Ela só poderia ser indicada para o tratamento de processos patológicos, em que a oxidação e a formação de radicais livres predominem, ou seja, nas doenças oxidativas. E ainda para os casos em que sua aplicação como terapia coadjuvante tenha se mostrado comprovadamente eficaz, ou seja, em infecções, doenças reumatológicas, isquemias e mal de Alzheimer, por exemplo”, explica o médico Paulo Olzon, da Unifesp.

Em alguns aspectos, porém, todos os especialistas concordam. A prática não é milagrosa e não deveria ser entendida como mais um recurso estético, por exemplo, para emagrecimentos ou melhora da pele e da aparência. Ela também deve ter uma aplicação individual de exames e medicamentos, que dependerá do histórico médico do paciente, dos seus vícios, dos seus hábitos alimentares, dentre outros fatores. E mais: a medicina ortomolecular não deve substituir os tratamentos convencionais. “Eles são tratamentos associados. A medicina ortomolecular só vai acrescer ao que já existe”, afirma o nutrólogo carioca Luiz Guanaes da Silva, presidente da Associação Brasileira de Medicina Ortomolecular e membro do Grupo de Trabalho e Estudos sobre Medicina Ortomolecular do Conselho Regional de Medicina (CRM) do Rio de Janeiro.

MAL DE ALZHEIMER E DE PARKINSON
Uma das hipóteses para o aparecimento dessas doenças degenerativas do sistema nervoso central é a de que a amina — toxina produzida pelas carnes vermelhas e brancas —, quando expostas a altos graus de temperaturas, tem um poder degenerativo sobre o cérebro, ocasionando esses males.

“Mas são hipóteses que ainda estão sendo levantadas. Para quem já manifestou as doenças, os antioxidantes não vão curar”, afirma o professor Paulo Olzon, da Unifesp. Nesse caso, a terapia ortomolecular teria o poder de agir preventivamente. “Como essas doenças têm ligação com o aumento de radicais livres, que oxidam as estruturas celulares, o tratamento daria uma proteção extra ao organismo”, explica Paulo Roberto de Carvalho.

CÂNCER
O próprio Linus Pauling preconizou o uso de doses altas de vitamina C para prevenir o aparecimento de tumores. Ele dizia ingerir 16 gramas da vitamina (uma dose altíssima, pois a ingestão diária recomendada é de apenas 45 miligramas) para prevenir o câncer de próstata. Ele teve a doença, apesar de desenvolvê-la em uma idade bem acima da média dos portadores desse tipo de câncer. Estudos do National Cancer Institute, nos Estados Unidos, mostraram que não há qualquer evidência de que essa vitamina tenha ação anticâncer.Outros estudos dizem o mesmo de outras vitaminas, como A, E e B15, e dos minerais selênio e zinco. Por outro lado, um estudo publicado no New England Journal of Medicine, em 1988, mostrou que taxas elevadas de ferro no corpo aumentam o risco de câncer nos homens. Daí a ação da medicina ortomolecular que equilibraria a quantidade de ferro com suplementos. A reposição de antioxidantes também serviria para driblar os efeitos da quimioterapia e da radioterapia, atenuando seus efeitos e ainda preservando o restante do organismo, que fica debilitado com a agressividade do tratamento. “Nessas sessões de quimio e radio há uma alta produção de radicais livres”, afirma Olzon. Mas alguns estudos afirmam que o uso exagerado de antioxidantes diminui a eficácia da quimioterapia e dos mecanismos de defesa natural que o corpo fabrica contra a proliferação das células cancerígenas, fazendo com que a doença se espalhe. “Também já se sabe que a ingestão indiscriminada de vitamina B1, por exemplo, pode fazer com que o tumor se alastre, porque uma das funções deste nutriente é estimular a divisão celular”, alerta o nutrólogo e PhD em fisiologia, José de Felippe Júnior.

OBESIDADE
Essa é a doença que mais atrai adeptos da terapia ortomolecular. “Eu já tinha feito muitos regimes até que encarei o tratamento. Para mim, foi excelente. Emagreci 10 quilos em três meses e não me senti mal, com tonturas, como acontecia antes. Até meu cabelo ficou mais bonito”, revela a professora paranaense Silvia Bragança. Isso acontece porque, no combate à obesidade, o tratamento ortomolecular, paralelamente, prega a reeducação alimentar — e não simplesmente a restrição de alguns alimentos. Caso haja falta de nutrientes importantes para o corpo, faz-se a suplementação com cápsulas, que também acabam ajudando a diminuir a ansiedade, a compulsão por doces, a falta de regulação do mecanismo de saciedade ou o nervosismo — comuns em quem está em fase de emagrecimento. Apesar do sucesso, tanto a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) quanto a Associação Brasileira de Estudos da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) desconhecem evidências de que dietas baseadas na terapia ortomolecular sejam eficazes a curto ou longo prazo. E até mesmo os especialistas na área vêem o uso dos antioxidantes na luta contra a obesidade com bastante cautela. “Ainda não há pesquisas que mostram efetivamente que neutralizar os radicais livres funcione nesses casos”, diz Paulo Olzon.

O QUE DIZ A LEI
A única regulamentação para a prática é a Resolução 1 500, publicada em 1998, do Conselho Federal de Medicina (CFM), que passou, recentemente, por uma revisão pela Comissão Médica e espera ser aprovada pela diretoria do CFM. É ela que dá as diretrizes para o trabalho dos médicos. Segundo Henrique Batista e Silva, coordenador da comissão, ainda não há um prazo definido de quando a nova resolução será publicada. Sendo assim, ainda vale o que a regulamentação de 1998 preconiza. Entre as práticas da medicina ortomolecular consideradas ilegais estão:
MEGADOSES DE VITAMINAS: uma das características da terapia ortomolecular é a recomendação de cápsulas e mais cápsulas todos os dias. A prática, porém, é condenada pelo CFM. E até os médicos não vêem necessidade desse procedimento. Há pessoas que tomam mais de 20 cápsulas por dia. “Ninguém deve ficar tomando vitaminas, minerais e outros antioxidantes sem necessidade. Às vezes só corrigindo a alimentação a gente já consegue livrar essa pessoa do estresse oxidativo”, garante o médico Paulo Olzon, da Unifesp.
ANÁLISE DE FIOS DE CABELO: o exame, chamado mineralograma, analisa o fio de cabelo para revelar excesso de metais tóxicos no corpo e quantidade de minerais que a pessoa necessita diariamente. O Conselho condena o uso único do exame para diagnóstico. Daí os médicos pedirem outras análises, como o exame de urina e de sangue, que detecta o déficit de vitaminas e aminoácidos. Em consultório, também é traçado um perfil do paciente, que inclui oscilações de humor, hábitos alimentares, as doenças que já teve, entre outros aspectos.
EDTA COMO TERAPIA: trata-se de aplicações intravenosas de substâncias que teriam o poder de remover os metais pesados do organismo. Porém, alguns médicos optam por esse tratamento pela rejeição dos pacientes de tomar muitas cápsulas. A atitude, neste caso, é considerada ilegal.
TERAPIAS : a divulgação de que o método é anticâncer, antienvelhecimento ou que evitaria patologias crônicas ou que até curaria doenças por si só também é proibida pelo CFM. Os especialistas em medicina ortomolecular, aliás, afirmam que a terapia deve ser aplicada como tratamento coadjuvante.

Fonte: Revista Viva Saúde, maio de 2007

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